Por isso, os antigos diziam que o AMOR é como o
fogo que destrói ou separa toda a sujeira do ouro
que aspira sempre ser puro.
Recomendaria a quem for ler esta página que lesse
primeiro o artigo
com igual título no Boletim PVF de fevereiro
deste ano. Para tal apenas clique AQUI.
Trata-se de aprofundar a idéia de que em nosso
Deus podemos construir uma vida mais cheia de sentido,
mais humana e mais feliz. Lá, eu dizia que no Natal
descobrimos que Deus quer ser gente com a gente e viver
com a gente, cooperar com a gente, preencher e suprir
tudo o que nos falta por nossas limitações
e fraquezas. Dizia também que as atitudes que Deus
toma conosco podem ensinar-nos ainda mais que suas palavras.
Vamos agora, na mesma linha de pensamento, ver o que podemos
aprender de Deus na Quaresma e Páscoa. Na Quaresma,
temos a lição mais difícil.
Todo ser humano adora a idéia de grandeza, de conquistas
e grandes realizações. Se ele pessoalmente
não tem tão grandes aspirações
por saber que é pequeno, fraco e pertencer à
classe do povão, pelo menos imagina que seus heróis
devem ser grandiosos e fantásticos. Ora Jesus começara
sua vida pública, embora como alguém do
povo, com dois traços de grandeza. Era detentor
de um poder pessoal impressionante e realizava milagres
com uma facilidade estonteante. Isto incendiou de tal
forma as fantasias e as esperanças do povo, a ponto
de Jesus ter de fugir, pois queriam agarrá-lo e
fazê-lo Rei à força (Jo 6,15). Aí,
vem a difícil lição. Para chegar
à grandeza é preciso antes fazer-se pequeno,
servir e passar até pela cruz, se o amor ao irmão
e a justiça assim o exigirem. E Jesus toma resoluto
o caminho de Jerusalém.
E nós chegamos à Quinta-Feira Santa. Aí
vem a lição do serviço falada e vivida
por Ele no Lava-pés. Ele, o Mestre e Senhor lava
os pés até de Judas. É fácil
a gente prestar serviços até humildes à
pessoa pela qual estamos apaixonados. Mas, lavar os pés
de um Judas... Serviços prestados, havia agora
condições para a comunhão de irmão
com irmão em Cristo-Pão e por Cristo-Amor.
E a Ceia é realizada. Laços de amor fecham-se.
Mas no grupo, um não se sente bem. "Quanto
a Judas, tendo tomado o bocado, saiu imediatamente: era
noite" (Jo 13,30). Serviço, comunhão
e amor exigem coerência. Não existe espaço
para mentiras, falsidades ou segundas intenções.
Jesus não precisou expulsar Judas, como estou convencido
que Deus não tem necessidade de excluir ou castigar
ninguém. A experiência de comunhão
e a descoberta do amor de Deus colocam o homem no seu
devido lugar.
Comunhão supõe convergência de qualidades
básicas: pureza de intenções, limpidez
do olhar, autenticidade em cada gesto, em cada contato.
Por isso, os antigos diziam que o AMOR é como o
fogo que destrói ou separa toda a sujeira do ouro
que aspira sempre ser puro. Tendo vivido profundamente
estes momentos tão fortes, Jesus começa
a falar em sua glorificação e a do Pai.
Para nós parece loucura, pois quando a cruz se
torna uma certeza já palpável, Jesus fala
em glória. Só o herói, só
o vencedor é glorificado. Passado por esses momentos
mágicos de serviço-amor-comunhão-fraternidade,
Jesus podia intuir o verdadeiro objetivo, o significado
único e inquestionável de sua existência
e do viver de cada um de nós: amar e dar até
a vida pelo amado. "Ninguém tem maior amor
do que dar a vida por seus amigos", disse Ele.
E, então, Jesus encontrou sentido para seu drama:
paixão e morte para o AMOR triunfar. A lenda diz
que Prometeu conquistou o fogo para o uso dos humanos
e que Hércules realizou doze tarefas impossíveis
para nós. Gêngis Khan conquistou o maior
império de todos os tempos. Poderíamos citar
muitos outros nomes de heróis que produzimos. Mas
Jesus realizou obra infinitamente maior. Tornou o Amor
acessível a cada um de nós. Mostrou que
só o Amor dá sentido à nossa existência.
Revelou que seu Pai e nosso Pai e o AMOR são da
mesma natureza. Por isso podia afirmar: " Eu sou
o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai
a não ser por mim" (Jo 14,6). Vida sem amor
não é vida. Vida com amor torna-se imortal
como o AMOR é imortal e eterno como o próprio
Deus. Isto é Páscoa, é ressurreição,
é o Homem novo de Jesus. Unidos a Ele no serviço,
na comunhão fraterna e na cruz somos mulheres novas,
homens novos, imortais.