Vamos começar afirmando que existem extraordinárias
semelhanças entre as melhores relações
humanas e as melhores relações entre um
ser humano e Deus. Claro que para podermos nos pôr
a meditar sobre tal tema temos de enfrentar uma certa
dose de medo, sem cair em ousadias e pretensões
baratas. Mas se partirmos da magnífica tradição
franciscana de concentrarmos o melhor de nossas meditações
e contemplações no mistério da encarnação
do Verbo de Deus, tudo fica mais fácil e mais iluminado.
A partir deste acontecimento básico, um Deus que
se faz um de nós, todos nós nos revestimos
de um significado e valor extraordinários. Eu até
diria que Deus afirmar que somos criados à sua
imagem e semelhança não traduz a riqueza
infinita e intraduzível do gesto silencioso de
Deus fazer-se gente e escolher a nós, humanos,
para sermos seus interlocutores, companheiros de viagem,
parceiros de diálogo, amigos e amantes.
Aqui toco o cerne do tema: eu, ou você, em diálogo
com Deus. Estou profundamente convencido de que o diálogo
é a mais sublime e completa forma de relacionamento
entre duas pessoas. Não tenho espaço para
expor exaustivamente tudo o que é importante sobre
o diálogo. Para o nosso objetivo basta afirmar
apenas uma coisa. Para eu dialogar bem preciso ser capaz
de esquecer-me o mais possível de mim mesmo e entregar-me
inteiramente à escuta daquilo que o outro está
revelando através de palavras e de toda linguagem
não verbal, seu estado de alma, suas emoções.
Só quem aprendeu a amar de verdade pode dialogar
bem.
Quanto mais imatura e egocêntrica é uma pessoa,
mais precárias serão suas relações
com os outros. Em geral, seu relacionamento é interesseiro,
explorador e conflituoso, pois dificilmente outras pessoas
conseguem preencher todas as suas expectativas e necessidades.
Pessoas maduras conseguem realmente usufruir a gratuidade
do encontro amoroso ou a presença graciosa do amigo.
Elas esquecem-se de si e entregam-se inteiramente à
vivência do encontro. O mesmo acontece no diálogo.
A mesma coisa observamos nos relacionamentos de pessoas
com Deus. Muitas pessoas relacionam-se com Deus sempre
voltadas para seus interesses pessoais e imediatos. Tentam
explorar Deus, colocá-lo a seu serviço e
quando não são atendidas, partem até
para o conflito. Acusam Deus, declaram-se decepcionados,
cobram. Na verdade é comum o ser humano imaginar
Deus mais à imagem dele próprio do que ele
querer reproduzir em si a imagem de Deus. Nós somos
tão interesseiros e Deus tão desinteressado
e generoso... São Pedro queria mudar a cabeça
de Jesus porque desejava participar e liderar os demais
ao lado de um Mestre grandioso e sempre vitorioso.
Quando procuramos Deus, precisamos aprender a entregarmo-nos
inteiramente e só à alegria do encontro,
inteiramente esquecidos de nós, até mesmo
de nossas necessidades prementes. Jesus está andando
sobre as águas e Pedro pede para ir a seu encontro
também andando sobre as águas. Pedro esquece
a si próprio e está inteiramente embevecido
em Jesus e anda como Jesus. Mas, eis que começa
a pensar em sua segurança, sente medo, o milagre
se desfaz e Pedro afunda. A boa oração e
o diálogo são o mesmo. Quando nos entregamos
assim, tudo pode acontecer, até o milagre.