O primeiro amor

A menina Clara, mesmo vivendo em um ambiente de
riqueza e ostentação, aos poucos foi cultivando
a vida piedosa e simples, uma característica que
mais tarde ficaria evidente como mulher consagrada
a Deus.
Quando estava próxima de completar 18 anos, os
pais já começaram a pensar no seu casamento. Clara
não concordava com a idéia de se casar tão jovem
e estava sempre adiando a decisão. Na realidade,
ela começava a se interessar pelo projeto de vida
de um jovem de Assis: Francisco. Tomás de Celano
explica assim: "Quando ouviu falar do então famoso
Francisco que, como homem novo, renovava com novas
virtudes o caminho da perfeição, tão apagado no
mundo, quis logo vê-lo e ouvi-lo, movida pelo
Pai dos espíritos, de quem, embora de modo diferente,
tinham recebido os primeiros impulsos".
Clara sempre esteve bem informada sobre os passos
de Francisco em Assis, isso porque Frei Rufino
e Frei Silvestre eram seus parentes. Não
poucas vezes ela escutou as pregações
de Francisco, que costumava falar na Igreja de
São Rufino ou na Catedral de São
Jorge.
A pregação de Francisco impressionava
porque era diferente dos "sermões".
Em suas palavras e em seu modo de ser havia alguma
coisa nova. Era certamente a força do Evangelho
que transparecia. Francisco se apresentava vestido
com muita simplicidade, sem aparato nem ostentação.
Suas palavras são inflamadas de amor a
Deus. Clara fica sabendo que a vida dos irmãos
é extremamente pobre.
Segundo Celano, Francisco a visitou, e ela o fez
mais vezes ainda, moderando a freqüência
dos encontros para evitar que aquela busca divina
fosse notada pelas pessoas e mal interpretada
por boatos.
"A moça saía de casa levando
uma só companheira e freqüentava os
encontros secretos com o homem de Deus. Suas palavras
pareciam flamejantes e considerava suas ações
sobre-humanas". A companheira de Clara nos
encontros com Francisco foi Bona de Guelfúcio,
testemunha em seu Processo e irmã de Pacífica
de Guelfúcio, uma das primeiras religiosas
de São Damião. Já com 18
anos, Clara tinha consciência de que não
seria compreendida por seus pais quando desse
passo decisivo. Havia confiado a Francisco como
desejava realizar sua vocação e
ele a guiaria para cumprir os desígnios
de Deus. "Então se submeteu toda ao
conselho de Francisco, tomando-o como condutor
de seu caminho, depois de Deus. Por isso, sua
alma ficou pendente de suas santas exortações,
e a acolhia num coração caloroso
tudo que ele lhe ensinava sobre o bom Jesus.
Já tinha dificuldade para suportar a elegância
dos enfeites mundanos, e desprezava como lixo
tudo que aplaudem lá fora, para poder ganhar
a Cristo", completa o seu biógrafo. |