14/09/07
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Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM *
A publicação das cartas espirituais de Teresa de Calcutá, na ocorrência do 10º aniversário de sua morte, está provocando uma enorme celeuma. A julgar pelas notícias amplamente difusas pelos Mass media, o livro Mother Teresa: Come Be My Light (Madre Teresa: Vem, seja minha luz) – publicado pelo Pe. Brian Kolodiejchuk, Missionário da Caridade e postulador da causa de canonização de Madre Teresa – tornaria públicas revelações inéditas que afetariam a imagem da beata de Calcutá. Estas cartas que, em diversos momentos de sua vida, Madre Teresa escreveu a seus diretores espirituais fazem-nos, de fato, pensar. Elas revelam sua paradoxal experiência de Deus e, portanto, confirmam a singularidade de seu itinerário existencial e espiritual.
Contemporâneos de Madre Teresa, nós seguimos de perto o itinerário da mulher audaciosa que, movida por inspiração divina, deixou tudo para melhor cuidar dos mais pobres entre os pobres. Empanturradas de tantas imagens, nossas cansadas retinas registraram uma em especial: a daquela mulher – rosto marcado por rugas profundas, sorriso largo e pés rachados – que caminha pelas sarjetas de Calcutá cuidando de seus pobres queridos. Acompanhamos ainda de perto tudo o que foi se constituindo em torno dela: a chegada das primeiras companheiras, a expansão do movimento por ela iniciado e, sobretudo, o crescimento vertiginoso de suas atividades de solidariedade e de cuidado para com os mais pobres. Apesar da ampla cobertura que a Media sempre lhe deu, não poderíamos sequer imaginar o que se passava na intimidade do coração daquela mulher serena e incrivelmente terna.
Somente agora, temos notícia da oprimente escuridão que pesava com gravidade sobre ela, a partir de sua nova vida a serviço dos pobres, tornando sobremaneira opaco seu horizonte: “Há tanta contradição em minha alma, um profundo anelo de Deus, tão profundo a ponto de fazer mal, um sofrimento contínuo – e com isso o sentimento de não ser querida por Deus, rejeitada, vazia, sem fé, sem amor, sem zelo... o céu não significa nada para mim, parece-me um lugar vazio”.
Esta longa escuridão da alma parece, desde então, não ter mais deixado Madre Teresa senão por breves intervalos de tempo. E como revelam suas cartas espirituais, com o passar do tempo, colocando-se na trincheira aberta pelos grandes místicos da tradição cristã, dentre os quais se destaca São João da Cruz, Madre Teresa não apenas suportou com resignação estas pesadas trevas. Ela aprendeu a amá-las, considerando-as uma graça especial que lhe fora concedida pelo Pai de se solidarizar mais intimamente com o Cristo sofredor que, na cruz, fez a experiência do mais radical abandono. “Comecei a amar minha escuridão, porque creio agora que ela é uma parte, uma pequeníssima parte, da escuridão e do sofrimento nos quais Jesus viveu sobre a terra”.
Todavia, o que mais chama a atenção é o fato de Madre Teresa ter conseguido esconder esse seu grande sofrimento interior mesmo daquelas pessoas que lhe eram próximas. Mais que esconder, ela como ninguém soube transfigurá-lo naquele seu terno e perene sorriso. Este silêncio de Madre Teresa se converte, portanto, na pérola mais preciosa de sua interminável noite escura. Silêncio este que só foi rompido graças a seus diretores espirituais e ao Cardeal Picachy, que descumpriram a exigência da própria Madre Teresa de destruir todas as suas cartas. “Todo o tempo a sorrir, – escreve Madre Teresa – dizem de mim as irmãs e as pessoas. Pensam que o meu íntimo seja repleto de fé, confiança e amor... se somente soubessem como o meu ser alegre é apenas um manto com o qual cubro vazio e miséria!”
Madre Teresa parece ciente que a vaidade religiosa é a mais perniciosa de todas. Tornar público esse seu tormento interior poderia se tornar uma maneira insidiosa de chamar a atenção sobre si, sobre sua noite escura, julgando-se no rol das almas seletas que vivenciaram, na tradição dos grandes místicos, esta peculiar experiência religiosa. Talvez, Madre Teresa acolhesse este tormento interior como o espinho na carne do qual nos fala São Paulo: “Para que eu não me ensoberbecesse pela grandeza das revelações, foi-me dado um espírito na carne” (2Cor 12,7). Esta longa noite da alma talvez a tenha preservado de se deixar embevecer pela publicidade em torno dela e pelos imensos holofotes que lhe foram projetados no curso de sua vida. Ao receber o prêmio Nobel pela paz, ela escreve: “A dor interior que sinto é tão grande que não experimento nada por toda a publicidade e o falatório das pessoas”.
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