19/09/07
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Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM *
As conclusões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) vieram confirmar o que já temíamos: o “aquecimento global”, provocado pelo modo de produção e de consumo humanos, representa um dado irreversível. Não se trata, infelizmente, de um alarme falso, mas sim de uma constatação baseada em dados empíricos recolhidos pelos milhares de cientistas espalhados em 130 paises que compõem o IPCC, organismo ligado à ONU. Até então julgávamos ser suficiente preservar e cuidar da Terra com compreensão, compaixão e amor, atentos a não ultrapassar o limite intransponível que, uma vez transposto, modificaria o estado da Terra. A partir de agora, todavia, duas estratégias se nos apresentam com urgência: adaptar-se à nova situação e minorar os efeitos maléficos.
Diante da gravidade desta situação, enquanto cristãos, não podemos fugir à incisividade de algumas questões: como testemunhar o evangelho de Jesus Cristo numa época caracterizada por esta atitude antropocêntrica selvagem? Inseridos numa cultura, que reduz as criaturas a meros objetos do arbitrário e egocêntrico bel-prazer de uma parcela pequena da humanidade, como celebrar a comunhão agápica significada na Eucaristia? Estas são indagações que, sufocadas muitas vezes no mais íntimo de nós, deveriam mais e mais conquistar expressão e voz, a fim de dobrar corações enrijecidos e mentes obscurecidas pela vontade de um progresso desmedido e irresponsável.
Neste contexto precisamente, a consideração acerca da intrínseca dimensão cósmica do Mistério da Encarnação do Verbo da Vida resulta não só plausível, mas particularmente relevante. Pois o mistério da Encarnação desvela, em última instância, a dimensão intimamente crística de toda a Criação. Segundo o testemunho das Escrituras sagradas, é por meio de Cristo que todas as coisas foram criadas e é por seu intermédio que todas as coisas, no vigor do Espírito, retornam a Deus Pai, único princípio e fim da criação. A relação que intercorre entre Jesus Cristo e a inteira criação é, portanto, dúplice: Ele é, por um verso, o primogênito de toda criatura e, por outro, o recapitulador da inteira realidade criada.
Pelo fato de que tudo quando existe tenha sido criado n’Ele, por Ele, para Ele e por meio d’Ele, Jesus Cristo é, para todos os efeitos, o primogênitoc de toda criatura (cf. Cl 1,12-20). Cristo foi estabelecido pelo Pai como primogênito, porque, na verdade, somente n’Ele e por meio d’Ele a realidade inteira recupera seu verdadeiro sentido, seu significado mais profundo. A Encarnação emerge, então, como o sentido interno da criação. O sentido mais remoto, bem como a finalidade mais precípua da inteira realidade criada e de cada uma das criaturas, torna-se presente em Jesus Cristo, o primogênito entre muitos irmãos e irmãs. Compreendida assim, a Encarnação emerge como o horizonte de sentido no interior do qual repousa a complexidade do cosmos inteiro.
Se a Criação encontra sua razão de ser no mistério da Encarnação, então é também verdade que cada criatura, apesar de ínfima e insignificante, carrega em si, impressos, traços do Filho unigênito de Deus. Existe, neste sentido, um parentesco cósmico entre a inteira realidade criada e Jesus Cristo. O mistério do Verbo que se fez carne emerge como a perfeita explicitação desta íntima relação entre Deus e as criaturas, pois constitui o cumprimento do desígnio terno e amoroso do Criador. O mistério da Encarnação é, por excelência, expressão deste parentesco cósmico. Importa, neste caso, resgatar o valor perene desta dimensão intrinsecamente crística da inteira realidade criada.
Jesus Cristo é também o recapitulador universal, o reconciliador, conforme atesta o hino litúrgico de Ef 1,9-10: “E assim, ele nos deu a conhecer o mistério de seu plano e sua vontade, que propusera, em seu querer benevolente, na plenitude dos tempos realizar: o desígnio de, em Cristo, reunir todas as coisas: as da terra e as do céu”. Isto pressuposto, nada mais conseqüente do que reconhecê-lo como o recapitulador, aquele que levará a realidade inteira à plenitude, ao seu mais perfeito cumprimento. Isto significa dizer que é precisamente em Jesus Cristo que cada criatura encontra sua máxima realização. N’Ele e através d’Ele, a inteira realidade criada redescobre sua mais íntima vocação: criaturas de Deus, vocacionadas à comunhão plena com Ele. Em Cristo somos, de fato, predestinados a sermos pessoas humanas novas e a participar plenamente, juntamente com todas as criaturas que também serão transfiguradas, da glória do Deus criador (cf. Rm 8,28s).
Enquanto prolongamento do mistério da Encarnação no aqui e agora de nossa experiência de fé, a Eucaristia constitui o memorial permanente daquele singular gesto de Deus de abraçar cada uma das criaturas e de envolvê-las todas num único abraço, em Jesus Cristo e por meio d’Ele. Trata-se da atitude do Cristo de assumir, purificando e elevando, cada uma das criaturas e as criaturas todas como parte integrante do seu corpo. Nada escapa à força da presença de Deus que, no seu Filho Jesus Cristo, alcança e penetra a inteira realidade criada, sem anular ou sufocar a singularidade de cada criatura.
A Eucaristia é, neste sentido, a prefiguração daquela realidade última que nos é dado esperar na fé, como promessa a ser cumprida. A realidade inteira será transfigurada na imagem bíblica dos novos céus e da nova terra e nós seremos transformados em seres humanos novos. Seremos, graças à íntima presença e ação do Espírito Santo, conformados cada vez mais à imagem e semelhança do Filho Unigênito do Pai. Da mesma forma a história e o cosmos inteiro serão transfigurados no Reino de Cristo, mediante a ação interior e eficaz do Espírito Santo que faz novas todas as coisas. Esta é a razão pela qual os textos do Segundo Testamento concebem a ação peculiar do Espírito de Deus como cristificação das pessoas, da história e da totalidade do cosmos.
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