Frei Pilato Pereira
1.Introdução
“Louvado sejas meu Senhor, pela irmã Água, que é muito útil e humilde e preciosa e casta”. É comum citar ou proferir uma ou outra frase do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis. Mas quando se lê parece estranho o louvor por uma criatura sem mencionar as outras. Ou também, ao contrário, quando se lê, por exemplo, o verso que fala da irmã Água, se tem presente todas as outras criaturas. Porque, tanto no Cântico de Francisco quanto na natureza, tudo está interligado, inter-relacionado e a água, como o sangue num organismo, parece ser o elemento que interliga, inter-relaciona todos os seres criados. Ela está em todas as formas de vida, é verdadeiramente fonte de vida.
Isso explica um gesto extraordinariamente profético que o Brasil e o mundo todo recentemente puderam ver. O bispo Dom Frei Luiz Cappio realizou uma greve de fome que durou 11 dias, entre final de setembro e início de outubro de 2005, denunciado e protestando contra o projeto de transposição de parte das águas do Rio São Francisco e defendendo a sua revitalização. O jejum de Frei Luiz Cappio foi um gesto muito significativo e "teve a força de mostrar a verdade". Fez com que o povo soubesse o que era realmente o projeto de transposição. E, ao querer escrever sobre água, esse fato se faz presente, porque Frei Luiz Cappio nos mostrou que a água merece respeito e atenção, ela é digna de nosso esforço na luta em sua defesa. E quando defendemos a água, defendemos todas as formas de vida, porque tudo precisa da água para viver. Defender a água é um gesto de louvor ao Criador.
Precisamos olhar para a água, admirar mais a sua beleza, se encantar mais por ela, procurar saber um pouco mais de seu mistério e reconhecer o quanto ela é importante. Também é preciso dizer não à degradação, ao desperdício e à poluição que a água vem sofrendo. É preciso dizer, com veemência, um sonoro não ao projeto de transformar a água em simples mercadoria. Porque ela é um dom de Deus, um precioso bem comum. E somos desafiados a garantir água, dignidade e paz para todos, em todas as partes do mundo, hoje e no futuro.
Começamos nossa reflexão num ponto de conflito, que é a “Crise da Água”. Mas não se pode ficar parado nisso, é preciso percorrer um caminho de esperança, como um rio que avança, superando desafios e buscando possibilidades para chegar ao mar. Falamos da crise, da escassez, do desperdício, da degradação e da privatização, o perigo de se transformar a água, que é dom de Deus, em simples mercadoria. Percorrendo esse caminho difícil, concluímos que a água é um direito sagrado e de todos. A água é uma questão de paz, é um bem para a humanidade, é garantia de vida e dignidade para todas as criaturas.
2.Surge a “Crise da Água”
Todos os anos, em 22 de março, é celebrado o Dia Mundial da Água. E em 2002, a data foi marcada por um anúncio assustador e preocupante para toda a humanidade. A Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou que “mais de 2,7 bilhões de pessoas deverão sofrer com a falta de água em 2025, caso o consumo do planeta continue aos mesmos níveis”. E de lá para cá, não se tem informações concretas sobre se houve ou não uma mudança substancial na forma de se usar a água. É certo que muita gente passou a ter maior cuidado com as águas e governos e instituições tomaram medidas com relação ao problema. E depois de cinco anos, o anúncio feito pela ONU ainda faz forte eco e nos convida a refletir e a tomar uma atitude. A ONU alertou também que mais de 2,5 bilhões de pessoas estarão vivendo em áreas onde a quantidade de água potável será insuficiente para suprir suas necessidades. Isso devido à má administração dos recursos hídricos, ao crescimento populacional e às mudanças climáticas por que passa o planeta. As áreas sob maior risco de enfrentar a falta de água estão nas regiões semi-áridas da Ásia e de parte da África ao sul do deserto do Saara. Segundo as estatísticas da ONU, na Europa, pelo menos 120 milhões de pessoas que vivem no continente – um em cada sete habitantes – hoje não têm acesso à água potável e saneamento. E de acordo com o mesmo estudo, o continente europeu gasta cerca de US$ 10 bilhões por ano devido ao desperdício de água.(1)
Conforme relatório da Agência Internacional de Energia Nuclear (IAEA), nas próximas duas décadas, 1,1 bilhão de pessoas no mundo não terão acesso à água potável, cerca de 2,5 bilhões carecerão de saneamento básico e mais de 5 milhões morrerão de doenças causadas por água contaminada a cada ano. Menos de 3% da água na Terra é potável, sendo que a maior parte disso está na forma de gelo polar ou se encontra em camadas profundas e inacessíveis do planeta. E a quantidade de água potável que está acessível – seja em lagos, rios ou represas – representa menos de 0,25% do total. Ainda que a água necessária para o consumo das populações do mundo fosse suficiente, ela estaria ameaçada pela contaminação e pela grande demanda(2). Estas e outras informações, um tanto quanto assustadoras, foram colocadas a público no ano de 2002 e, a partir daí, foram se multiplicando as discussões sobre o assunto.
Na quaresma de 2004, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), lançou a Campanha da Fraternidade com o tema: “Fraternidade e Água” (3) e com isso o assunto flutuou em todo o país. A campanha da Igreja fez com que, não apenas os católicos, mas toda a sociedade discutisse a questão da água e, então, veio uma enxurrada de informações a respeito da
“crise da água” no planeta. O anúncio da ONU que comentamos acima, com a Campanha da Fraternidade, ganhou mais força e ecoou por toda parte. A crise foi anunciada e também celebrada, foi evidenciada como um chamado à conversão. Mas também muitas questões foram se esclarecendo e nos damos conta de que o discurso da escassez da água deve ser melhor analisado.
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(1) BBC Brasil http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2002/020322_secaml.shtml - 22 de março, 2002 - Publicado às 20h59 GMT
(2) BBC Brasil http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2002/020322_secaml.shtml - 22 de março, 2002 - Publicado às 20h59 GMT
(3) Todos os anos durante o tempo da Quaresma a Igreja Católica realiza no Brasil uma campanha que aborda um tema social, a chamada Campanha da Fraternidade.
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