Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã Água, que é mui útil e
humilde e preciosa e casta.
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Instituto Teológico Franciscano
Editora Vozes
São Paulo, Brasil, 02/09/2010, 17:23  
 

 23/04/08 

PARTE
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3.“Crise da Água”: Realidade e Ideologia

Tanto a ciência quanto a poesia podem chamar a Terra de “Planeta Água”, pois nada menos que 70% da sua superfície está coberta por água. Mas de toda essa superabundância de água, 97,6% é salgada e apenas 2,3% é considerada água doce. Porém, a sabedoria da natureza permite que as águas do mar, através do fenômeno da evaporação, se transformem em água doce, caindo nos continentes (em forma de chuva) como fonte de vida para as populações. Portanto, essa disparidade natural não pode ser considerada como motivo de uma escassez de água. As informações sobre a “crise da água” chegam a afirmar que em 2050 faltará água para 40% da humanidade. Esse prazo tenebroso é antecipado por alguns especialistas que chegam a afirmar que essa camada da população mundial (40%) estará sem água já em 2025. E a razão para isso se deve, principalmente, à devastação das matas ciliares, à contaminação dos mananciais por agroquímicos, resíduos industriais, metais pesados dos garimpos, esgotos urbanos e hospitalares, ao crescente consumo de água na agricultura (irrigação), na pecuária e na indústria. E, além disso, também se pode acrescentar, como causa da escassez, o consumo humano de água, de forma desenfreada (4).

Não é a natureza que vai nos negar a água, nós é que estamos fazendo mau uso de um generoso bem que ela nos oferece gratuitamente. Se a nossa intervenção fosse de caráter sustentável, com responsabilidade, ética e preocupação com o futuro, com certeza não chegaríamos ao ponto em que estamos chegando. Mas, a “crise da água” anunciada e já evidente – resultado da irresponsabilidade humana – tem sobre si uma dubiedade. É algo real e concreto sim, mas também é uma questão ideológica. Com seu discurso combinam realidade e ideologia. O progressivo escasseamento da água é resultado da depredação causada pela mão humana e pode ser revertido a curto prazo, desde que sejam tomadas atitudes concretas. O outro lado dessa questão é a dimensão ideológica, ou seja, um bem considerado escasso vira mercadoria, ganha preço e se torna um negócio. O olhar capitalista sobre a natureza vê a escassez, vê a possibilidade das riquezas naturais não estarem disponíveis para todos e, assim, alguns poderem comercializar. De maneira alguma se pode negar o risco da escassez. Ela até pode acontecer em escala global, como tem acontecido de forma localizada. Mas precisamos tomar cuidado com a intenção de se transformar a água – um bem da natureza, um direito de todos – em simples mercadoria.

4. Escassez e Privatização: dois perigos em vista

É importante nos perguntarmos até onde vão as capacidades do nosso planeta. Até onde a Terra pode nos sustentar, ou melhor, até onde ela pode nos suportar. Não seria difícil a Terra nos dar o sustento necessário para viver. Difícil, porém, e quase impossível, é o planeta suportar nosso voraz consumo. Sabemos que a população global vem aumentando cada vez mais. A partir do início da era cristã, foi preciso 15 séculos para duplicar a população do planeta (de 250 para 500 milhões). Mas, na metade do século passado, a população planetária, que era de 3 bilhões, quase se duplicou em apenas três décadas. Um relatório do Fundo de População da ONU prevê que, em 2035, a população da Terra poderá chegar a 14 bilhões. Mesmo com o grande aumento populacional, ainda assim teria recursos e matérias-prima para atender a todos (5). O problema reside na desigualdade, na forma injusta de distribuição das riquezas. É muito mais uma questão de gerenciamento do que de escassez. Com relação à água, nosso assunto em debate, não se pode dizer que há uma situação generalizada de escassez, em escala global. Existem regiões em que a água é escassa mesmo, mas em geral isso ocorre por conta da própria natureza e por alguns lugares serem mais populosos, como é o caso das áreas metropolitanas. Mas, isso se pode resolver com um bom gerenciamento que perpasse pela dimensão regional e local (6). Deve-se pensar numa justa política de consumo que leve em conta o cuidado para consumir apenas o necessário e para que todos tenham acesso à água potável.

Um relatório recentemente divulgado pelo World Watch Institute mostra que as cidades que ocupam apenas 2% da superfície do planeta são responsáveis pelo consumo de 76% da madeira industrializada e 60% da água doce. O relatório também mostra que somente a cidade de Londres, na Inglaterra, para obter alimentos e madeira para o sustento de seus habitantes, precisa de uma área 58 vezes maior do que a que ocupa. Se este padrão de consumo fosse estendido a todas as populações urbanas do mundo inteiro, haveria a necessidade de três planetas Terra para que todos pudessem se sustentar (7). É absurdo pensar que em todas as grandes cidades, a população vai consumir tanta água doce quanto consome as populações desses locais citados acima. Então, não seria coerente que os que estão exagerando no consumo, tomassem uma atitude e mudassem seu comportamento? É óbvio que sim. É preciso consumir apenas o necessário. Não havendo bom gerenciamento, com o excesso de consumo, desperdício e degradação, a escassez deve sim bater a nossa porta.

A natureza oferece com abundância, mas a forma como usamos as riquezas do planeta, é que causa a escassez. E entre todas as coisas que desfrutamos da natureza, talvez a mais essencial seja mesmo a água. A água é extremamente importante para a vida, por isso que a Igreja no Brasil realizou uma campanha da fraternidade com o lema: “Água, Fonte de Vida”. Os seres vivos têm seus organismos compostos por 2/3 de água. O ser humano ou qualquer outro animal resiste até trinta dias sem alimento, mas não suporta mais do que alguns poucos dias sem água (8). E quando falta a água, a vida se deteriora, se fragiliza. Sem água ou com ela deteriorada, poluída, não pode haver vida. Em 2003, o UNICEF denunciou que “doenças transmitidas por água contaminada causam a morte de 1,6 milhão de crianças pequenas todos os anos”. E milhões de crianças sofrem por infecções intestinais causadas por vermes e parasitas. Mas, proporcionando água potável e saneamento, é possível reduzir a pobreza e o sofrimento das pessoas (9). O corpo humano precisa de 3 litros de água ao dia, para quem vive num clima temperado. Essa quantia deve ser consumida sem receio, mas o que não se pode é fazer um mau uso da água.

Não podemos ignorar, de maneira alguma, a possibilidade de uma escassez de água no mundo. Mas, é importante ter presente que, tanto quanto ou até mais perigoso que o escasseamento, é o discurso da escassez. Pode sim vir a faltar água para grande parte dos habitantes da Terra. Mas, que se tenha cuidado com este anúncio. Pois, se corremos esse risco, o que devemos fazer, antes de mais nada, é conhecer as suas causas e agir em tempo. Como já colocamos acima, a questão da escassez da água também tem um lado ideológico, “pois abre caminho para as grandes empresas que se propõem a gerir a água mundial conforme as leis do mercado”. Para a teoria econômica clássica, os desejos humanos são infinitos, mas os bens para satisfazê-los são finitos. Com isso os bens que se tornam escassos ganham um valor econômico, viram simples mercadoria. O ouro, a prata, o petróleo são bens naturais que, por causa da escassez, foram transformados em moeda. “Somente os bens escassos despertam o interesse da economia de mercado, que se propõe a otimizar seu uso conforme a lei da oferta e procura” (10). Portanto, existe o perigo real da escassez, que pode ser contornado. Mas, embarcado nesse discurso, vem o perigo da privatização das águas.
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(4) Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Fraternidade e Água: manual CF-2004 / CNBB. – São Paulo: Editora Salesiana, 2003. p. 61-64 (nº. 36-40).
(5)
Cf. KERBER, Guillermo. O Ecológico e a Teologia Latino-Americana: articulação e desafios. Porto Alegre: Sulinas, 2006. pp. 37-39.

(6)
CNBB. Fraternidade e Água: manual CF-2004 / CNBB. – São Paulo: Editora Salesiana, 2003. p. 61-64 (nº. 36-40).

(7) JOHN, Liana. Os desafios crescentes da Ecologia Urbana. Centro de Ciências da Educação. Disponível em: http://www.ced.ufsc.br/meioambiente/Tema2.htm 23/05/03 11:40 On-line.
(8)
Cf. GONÇALVES. Pe. Alfredo J. Importância da Água. Disponível em: http://www.cnbb.org.br/index.php?op=pagina&chaveid=247.04art 23/02/2007. 15h00min On-line.

(9)
"UNICEF diz que a falta de água potável e de saneamento básico impede que crianças desfrutem de boa saúde e educação”. Disponível em: http://www.cnbb.org.br/index.php?op=pagina&chaveid=247.04art12 15h00min On-line.

(10) CNBB. Op. Cit. pp. 65-68

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