Por Frei Pilato Pereira (*)
Se não estou enganado, foi um próprio ex-ministro quem teria dito em Porto Alegre que "um catador de lixo faz pelo meio ambiente muito mais do que o ministro do Meio Ambiente". Realmente, um catador de lixo faz muito mais do que qualquer outro brasileiro em questão de sustentabilidade. Ele vive e sustenta sua família com aquilo que seria causa de poluição e degradação do ambiente sócio-natural. Pobre, mas livre, com sua modesta e nobre ação, um catador de lixo resolve sempre um problema social e ambiental, mas quase ninguém lhe dá o devido valor. Já um Ministro de Estado responsável pela pasta do Meio Ambiente, por mais livre e competente que seja, nem sempre consegue colocar em prática uma boa política ambiental.
A área de meio ambiente do governo brasileiro já teve em seu comando o grande ecologista José Lutzenberger. E, certamente, se não tivesse sido assassinado pelos devoradores da Amazônia, Chico Mendes também teria sido o titular desta pasta quando Lula assumiu a presidência. Em seu lugar, até agora, tivemos Marina Silva, uma das pessoas mais competentes e bem-intencionadas neste país sobre a questão ambiental. Porém, não pôde fazer tudo o que ela própria e a maioria dos ambientalistas gostaria que se fizesse pelo meio ambiente no Brasil, por parte do governo.
Mesmo com a corajosa presença de Marina Silva, o governo Lula foi um tanto quanto insatisfatório para o meio ambiente. A ministra lutou muito, mas não teve sustentabilidade política para a questão ambiental. Podem-se levantar dados e provar que durante o governo Lula, em alguns aspectos, o meio ambiente ganhou atenção. Mas pela emergência da crise ecológica, o governo fez muito pouco. Pois, foi conivente com diversas formas de degradação ambiental. Por exemplo, na questão do desmatamento da Amazônia e da transposição do São Francisco, o governo parece que preferiu favorecer mais os grandes produtores que proteger os povos e a natureza. Até parece que a ministra era incompatível com a política de desenvolvimento do governo.
Marina Silva é uma pessoa de princípios e valores ecológicos, mas atuou num governo controverso que, por causa do desejo de hegemonia governamental, foi formado por forças políticas de interesses diversos. E assim o governo parece não ter conseguido adotar uma linha clara para a questão ambiental, pois, o desenvolvimento econômico está colocado acima da sustentabilidade. E qualquer ação em favor do meio ambiente sempre encontra a resistência do interesse econômico dos grupos que apóiam o governo. Por isso, a Ministra Marina Silva não pôde atuar como gostaria, chegando ao ponto de pedir demissão. E isto causou um impacto político para o governo e um impacto ambiental para o país.
Falando do governo e da sociedade brasileira como um todo, a verdade é que no Brasil ainda não há sustentabilidade política para a questão ambiental. E isto significa que temos o desafio de fortalecer o movimento ambientalista e fazer da ecologia um tema cada vez mais transversal, presente em todas as áreas da ação e do conhecimento humano. Os mais diversos movimentos sociais, as organizações que lutam por justiça, paz, dignidade, trabalho, terra, moradia e etc., precisam ter presente a questão ambiental. A ecologia deveria ser "a menina dos olhos" do governo e da sociedade brasileira e se transformar numa visão de Brasil.