Por Frei Pilato Pereira (*)
O criador da Pastoral da Ecologia no Rio Grande do Sul, Irmão Antônio Cechin, costuma dizer que "a ecologia na Igreja surge a partir dos pobres. As pessoas excluídas e os restos da natureza se encontram na opção pelos pobres". E a Igreja começa a dar um passo à frente na defesa da vida. Junto com o pobre explorado e excluído, está a natureza, também violentada e degradada, ferida na sua dignidade, que é dom de Deus.
A partir do trabalho com catadores de lixo nas Comunidades Eclesiais de Base, a ecologia passa a fazer parte da agenda pastoral de pelo menos uma parcela da Igreja no Rio Grande do Sul. E, num espírito ecumênico e de compromisso ecológico, surge a Romaria das Águas que, além da celebração junto às águas, promove um trabalho de educação ambiental e preservação de nascentes. Partindo destas experiências, foi criada uma pastoral específica de Ecologia. Porém, mesmo dentro da Igreja a Pastoral da Ecologia recebeu muitos e constrangidos "não", porque são inúmeras as pastorais, os serviços e movimentos já existentes. Realmente são tantas estruturas na Igreja e se precisa de gente para tudo. Mas, deixar a ecologia de fora reflete uma falha com a própria fé cristã.
O Deus da nossa fé é ecológico, é o criador e defensor da vida. Cremos em Deus que se revela na Criação e nas Escrituras que confirmam a natureza, o ser humano e tudo o que existe como obra de suas mãos. E em seu projeto de preservação da vida, Deus conta conosco. A Bíblia apresenta a criação do ser humano em dois relatos: Gn 1,26-31 e Gn 2,4b-25. O primeiro usa o verbo "dominar", que sofreu uma má interpretação, fazendo com que a humanidade agisse num espírito de domínio, depredando a natureza. Mas, o verbo dominar pode ser lido no sentido de "ter domínio" como que ter conhecimento, saber sobre a natureza, conhece-la melhor. Já o segundo relato utiliza os verbos "cultivar e guardar" e dá a compreensão de que o ser humano tem a missão do jardineiro que não é dono do jardim, mas cuida, cultiva, guarda e protege, mantendo a sua diversidade e originalidade. O jardineiro convive com tudo o que há no jardim e, ás vezes, colhe uma flor, um fruto, mas nunca devasta. Sua missão é sempre cuidar. Portanto, a fé no Deus criador, não apenas permite ao ser humano se beneficiar da natureza, mas incide no compromisso de cuidá-la com responsabilidade.
Por causa da fé no Deus criador, deveríamos ter um engajamento concreto e prático na defesa e preservação da vida. Ecologia para nós cristãos é uma questão de fé. E até parece estranho quando se vê tantas instituições se posicionando frente aos temas ambientais e procurando fazer sua parte, quando a Igreja ainda fica numa postura tímida e descomprometida com as questões ecológicas. Não apenas a Igreja Católica, mas as igrejas em geral e as religiões tem muito que contribuir com a ecologia. Podem ajudar as pessoas a agirem movidas, não pelo medo das catástrofes e desequilíbrios ambientais, mas por amor e reverência ao criador e às criaturas.
(*) Frei Pilato Pereira, de Bagé, é membro da CPT e do Serviço de Justiça, Paz e Ecologia dos Freis Capuchinhos do Rio Grande do Sul
www.olharecologico.blogspot.com
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