Por Paulo K. de Sá
Nas últimas décadas a questão ambiental tornou-se um dos maiores desafios a ser enfrentado pela humanidade. Durante milênios o homem entendeu que a natureza era infinita e que sua recuperação também o era. No entanto, o que verificamos nos últimos anos é exatamente o contrário. A natureza emite sinais claros de desajuste nos ecossistemas tornando o futuro da vida no planeta, um tanto quanto incerto. O termo sustentabilidade, remota da década de 70, com a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano em Estocolmo, na Suécia. Na mesma década, o Relatório Lalonde, 1974, desenvolvido pelos Canadá e Estados Unidos da América, estabeleceu a necessidade de se considerar as questões ecossistêmicas para a avaliação e criação de ambientes saudáveis. Apesar disso, a evolução da degradação vem aumentando exponencialmente onde dos 4,4 bilhões de habitantes dos países em desenvolvimento, 3/5 não possuem saneamento básico, 1/3 não possuem acesso a água potável ¼ não possuem residência adequada dentre outras deficiências, segundo relatório da ONU, 1998.
A partir da segunda metade do século XX, e muito intensamente no início do século XXI, ficou evidente que, apesar dos grandes avanços da ciência em relação à proteção à vida, ficamos expostos a situações de risco concretas. Podemos citar alguns exemplos como: utilização de matrizes energéticas não renováveis como petróleo e carvão, a energia nuclear e suas conseqüências tanto na forma de energia como de arma de guerra; o conflito entre nações; o conflito dentro das nações como as guerras civis, o abuso dos direitos humanos em larga escala e o genocídio; a pobreza associada à concentração de renda e desigualdade social, as doenças infecciosas e a degradação ambiental associada à devastação dos recursos naturais; armas biológicas, químicas e radiológicas; terrorismo e o crime organizado transnacionalmente entre outros.
O desenvolvimento industrial por sua vez proporcionou a alteração na composição atmosférica ampliando a camada de ozônio e nos expondo às radiações solares de forma extensa elevando o número de casos de câncer de pele. A carga intensa de poluentes atmosféricos emitidas pela ação do homem sobre o ambiente e pelo sistema produtivo vem apresentando importantes reflexos na degradação da saúde do homem, além do comprometimento dos solos com o uso de defensivos agrícolas, pesticidas, herbicidas e hormônios para otimizar a produção de alimentos; a contaminação dos lençóis d’água comprometendo o acesso à água potável seja pela emissão de dejetos e poluentes sobre o solo ou pelo despejo diretamente nas águas sem tratamento prévio, além da chuva ácida e outros elementos que comprometem o equilíbrio hidrodinâmico do nosso planeta passando pelo desperdício na sociedade moderna e pelo aquecimento global.
A enorme desigualdade entre ricos e pobres, causada pelo modelo econômico centrado na produção, consumo e concentração de riquezas, tornou a maioria da população mundial vulnerável às mais diferentes modificações climáticas e doenças. A forte urbanização verificada, especialmente no Brasil, onde mais de 80% da população vive nas cidades provocou importantes conseqüências sobre a saúde humana.
Esta constatação já virou lugar comum e apesar disso, muito pouco vem sendo feito para reverter o processo e minimizar os estragos. Na verdade, o fato de constatarmos o problema não significa mudança de atitude. Este ponto é bastante evidente na vida de qualquer pessoa. O fato de ser informado sobre os males do cigarro não faz com que todos os seres humanos eliminem este hábito, da mesma maneira o álcool, as drogas, a violência, a vida urbana caótica, os estilos musicais agressivos, os estilos pessoais que geram sofrimento para os outros e assim por diante.
No setor saúde, mais evidente na saúde pública, mesmo que um morador de uma comunidade carente seja informado sobre a necessidade de se ingerir água tratada e tendo acesso a ela, culturalmente ele continua a optar por aquela fonte de hábito anterior, embora inadequada para o consumo. Não se trata de acesso à água potável, mas a cultura de obtenção de uma fonte de água sem gosto de cloro. Mesmo que demonstremos com a ciência, microscópios, mostrando a existência dos germes, as pessoas, que beberam a vida inteira aquela água, já estão em equilíbrio com ela e os fatos acabam superando os dados científicos, mantendo os hábitos.
A percepção da ecologia, ou seja, de como os seres se relacionam, foi sendo substituída por um modelo cognitivo de entendimento do mundo e perda do valor da experiência empírica de cada um. Os povos primitivos, menos distraídos pela hipertrofia do conhecimento intelectual e do materialismo perpetuam, de alguma maneira, a capacidade de ler a natureza e atuar sobre ela de forma mais equilibrada. Já a sociedade moderna abandonou a possibilidade individual de leitura da natureza para entregar a outras pessoas a capacidade de leitura. Esta entrega de responsabilidade se deu em vários momentos da história. Entregava-se aos sacerdotes o modelo de sociedade e suas regras, aos reis, ao clero, ao pai de santo e finalmente à ciência. A visão dual do mundo moderno faz com que o entendamos como composto de fenômenos internos e externos de forma separada. Assim, compreendemos que a doença é um fenômeno quase sempre externo ao organismo e o seu desenvolvimento se dá a partir de condições externas. Ao contrário do que muitos afirmam, considero a visão externa inclusive a da genética. Recentemente o olhar sobre o fenômeno da doença vem alcançando outras versões, muito influenciado pela visão oriental, onde o complexo interno-externo são espelhos de um mesmo fenômeno, a existência.
Sob a chancela da ciência, optamos por manter o modelo de entrega da responsabilidade pelo nosso cuidado, ao outro, seja quem for. Na saúde, entregamos aos profissionais de saúde a responsabilidade sobre os nossos atos e hábitos de vida, perdendo a sabedoria milenar de nosso corpo e de nossa capacidade de observação. Não sabemos mais comer, precisamos que uma nutricionista nos diga, quando as nossas avós o faziam com sabedoria e propriedade. Precisamos que alguém nos diga como realizar atividades físicas, pois agora só sabemos apertar teclas. Alguém deve nos orientar como conduzir as minhas emoções, pois o que aprendo durante o meu crescimento e desenvolvimento infantil não serve mais. Alguém deve me dizer o quanto devo dormir, o quanto devo trabalhar, o quanto devo amar, o quanto devo tolerar, o quanto posso bater, o quanto posso me divertir, o quanto devo meditar, orar, quanto, quanto, como, como, como.... Entregamos toda a vida para outros nos dizerem o que fazer. É preciso que alguém me diga que não devo maltratar os animais caso contrário maltratarei. O mesmo para as plantas, as relações de vida, de amor, etc. A que ponto a nossa ignorância chegou e dizem que estamos na era do conhecimento!
Como podemos resgatar o equilíbrio ecológico se abandonamos a nós mesmos e nos entregamos, subliminarmente, em uma direção conduzida pelos interesses individuais e econômicos de alguns? Sem percebermos fomos sendo desapropriados da capacidade de cuidarmos de nós mesmos e passamos a ser manobrados por interesses mesquinhos e escusos. Nos deixamos flutuar em um rio cujas águas estão tremendamente poluídas e sem um destino adequado. Perdemos inclusive a capacidade de reagir a tal fato, na crença de que a ciência e suas sucursais da economia e da ganância nos tirarão desta cilada.
Assim como o paciente deve se responsabilizar pela gestão de sua própria saúde, cada indivíduo deve resgatar a sua noção de ecologia, não a partir de um processo cognitivo, mas sim, experimental. Não há outra saída e teremos que lançar mão daquilo que sempre foi o berço de nossa civilização, a educação. Mas não aquela que surgiu com a escolástica, bancária conforme define Paulo Freire, mas a sócio-construtiva, valorizando as descobertas pessoais, valorizando as diferenças e potencialidades individuais em relação com a vida, com o mundo a sua volta. Temos que reconstruir os saberes e sabedorias perdidas, revalorizar a vida comunitária, a cultura histórica dos povos, as suas identidades, os espaços de convívio e experiências com a natureza. Chega de submissão à religião econômica. Não vivemos para produzir, mas segundo Maturana, para cooperar. E através da cooperação evoluímos. Evoluímos para a vida e não para a morte estéril da matéria inanimada. Nosso espírito alcança vôos inimagináveis alcançando espaços que a nave espacial jamais conseguirá e a custos muitíssimo mais baixos.
Estamos observando o por do sol, mas ainda não sabemos acender a luz. Como será o futuro? Nossos filhos aguardam a escuridão.
Paulo Klingelhoefer de Sá é médico, Especialista em Educação Médica, Mestre em Saúde Pública, Professor da Faculdade de Medicina de Petrópolis/FASE, Professor da Pós-graduação em Educação Ambiental na PUC/RJ, ambientalista.
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