Louvado sejas, meu Senhor,
pela irmã Água, que é mui útil e
humilde e preciosa e casta.
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Instituto Teológico Franciscano
Editora Vozes
São Paulo, Brasil, 12/02/2012, 13:52  
 

E então solicitamos uma terceira. E uma quarta. E chegamos a uma conclusão coerente com as outras, formulada com crescente alarme: algo fundamental está indo mal. Este algo somos nós. Agora é nossa tarefa pôr remédio à situação.

Aos 21 de setembro passado, enquanto o hemisfério setentrional se afastava do sol, os cientistas referiram com uma angústia que não tinha precedentes, que a calota de gelo do Pólo Norte “estava se despedaçando”. De um estudo resultou que dentro de menos de 22 anos ela poderia ter desaparecido completamente no verão. Outro estudo, que será apresentado pelos pesquisadores da Marinha dos Estados Unidos no final desta semana, retém, ao invés, que isto poderá acontecer dentro de apenas sete anos.

Sete anos a partir de agora!...

Nos últimos meses tornou-se cada vez mais difícil entender os sinais que o nosso mundo está lançando para comunicar que algo já não funciona. As mais importantes cidades da América do Norte e do Sul, da Ásia e da Austrália estão quase privadas de água pelas graves estiagens que as golpearam e pelas geleiras que se dissolvem. Os agricultores estão desesperados porque estão perdendo seus meios de subsistência. Os povos do Ártico e das ilhas planas do Pacífico estão programando a evacuação daqueles lugares que por longo tempo chamaram de pátria.

Num país, incêndios sem precedentes que se difundiram velozmente constrangeram em torno de meio milhão de pessoas a abandonarem suas casas, provocando uma emergência nacional que quase fez cair o governo em exercício. Os prófugos por razões climáticas estão amontoados em áreas já habitadas por pessoas com culturas, religiões e tradições diversas, multiplicando de fato as potencialidades de um conflito. Tempestades anômalas no Pacífico e no Atlântico ameaçaram cidades inteiras. Milhões de pessoas estão refugiadas em função das violentas inundações na Ásia do Sul, no México e em outros 18 países africanos.

Devido aos aumentos das temperaturas máximas, dezenas de milhares de pessoas perderam a vida. Incessantemente queimamos e abatemos as nossas florestas, fazendo que sempre mais espécies se extingam. A cadeia da vida, da qual nós mesmos dependemos, se rompeu e está agora desagregada. No decurso dos anos passados, desde quando este prêmio foi consignado pela primeira vez, as relações entre os homens e a Terra se transformaram radicalmente. E, não obstante, permanecemos de certo modo inconscientes ante o impacto de nossas ações globais. Na realidade, quase sem darmo-nos conta, começamos a declarar guerra ao nosso próprio planeta. Agora, nós e o clima da Terra estamos bloqueados numa relação muito familiar aos estrategistas bélicos, o da “destruição recíproca garantida”.

Hoje a ciência nos põe em guarda. Diz-nos que, se não reduzirmos, quanto antes for possível, a poluição que provoca o aquecimento global que provoca grande parte do calor que nosso planeta normalmente irradia da atmosfera, corremos o risco de criar um permanente “verão carbonífero”.

Esta nova consciência comporta o esforço de expandir as possibilidades intrínsecas de todo o gênero humano. Os inovadores que excogitarão um novo modo de embridar a energia solar por algum centavo ou que inventarão um motor que não produza anidrido carbônico podem viver indiferentemente em Lagos, Bombaim ou Montevidéu. Devemos garantir que os empreendedores e os inovadores de qualquer recanto do planeta tenham a ocasião de mudar o mundo.

Há quinze anos eu expus estas mesmas razões no “Earth Summit” do Rio de Janeiro. Há dez anos apresentei-as em Kyoto. Nesta semana solicitarei aos delegados de Bali que adotem um corajoso mandato para um tratado que estabeleça um limite máximo global universal para as emissões e usos no mercado de intercâmbio das próprias emissões, para alocar de modo eficiente os recursos àqueles que saibam apresentar os meios e as oportunidades mais eficazes para reduzir rapidamente as emissões.

Nosso mundo necessita de uma aliança, especialmente entre aquelas nações que pesam demais na balança, na qual a Terra é o fulcro. Quero homenagear a Europa e o Japão pelos progressos que realizaram nos últimos anos para enfrentar este desafio e também ao novo governo australiano, que fez da solução da crise climática sua principal prioridade.

Sabemos, no entanto, que os resultados serão influenciados de maneira decisiva por duas nações que hoje não estão fazendo o suficiente, os Estados Unidos e a China. Enquanto também a Índia está rapidamente ganhando importância, deve ser absolutamente claro que os dois países que emitem bióxido de carbono em maior quantidade em relação a qualquer outro país – e mais do que todos os outros, o meu próprio país – deverão tomar as decisões mais corajosas e agir ou mesmo responder a partir de sua inatividade perante o tribunal da História. Ambos estes países deveriam deixar de aduzir para sua inatividade e paralisia o comportamento do outro e, ao invés disso, desenvolver uma agenda de mútua sobrevivência num ambiente global comum.

Estes são os últimos poucos anos que nos restam à disposição para tomar uma decisão, mas podem ser os primeiros de um futuro luminoso e róseo, se soubermos fazer o que convém. Ninguém deve poder acreditar que encontrar uma solução será possível sem esforços, sem custos, sem mudanças. Admitamos, ao invés, que, se verdadeiramente pretendemos recuperar o tempo desperdiçado e voltar a ter autoridade moral, esta é a dura verdade. O caminho que temos à nossa frente é árduo. O limite extremo do que atualmente consideramos factível é em grande escala inferior ao que realmente deveríamos fazer. Além do mais, entre o dizer e o fazer está o desconhecido, está a sombra. Isto nos indica que devemos ampliar os horizontes do que é possível. Para dizê-lo com o poeta espanhol Antonio Machado: “Ó tu que caminhas pela trilha, a trilha não existe. Deves criá-la passo a passo ao caminhar”.

Neste momento nós nos encontramos na encruzilhada mais fatal desta trilha. Mas, gostaria de terminar como comecei, com a visão de dois futuros possíveis – cada um dos quais é para o outro uma tangível e concreta possibilidade – e com a prece que nós todos consigamos ver com clareza a necessidade de escolher entre estes dois futuros, e com a urgência de realizar agora a escolha certa.

O grande dramaturgo norueguês Henrik Ibsen escreveu: “Num destes dias, a geração mais jovem virá bater à minha porta”. Hoje o futuro já está batendo à nossa porta. Agora! Não vos deixeis enganar: a próxima geração nos colocará somente uma de duas perguntas possíveis. Ou nos perguntará: “O que afinal tínheis na cabeça? Por que não fizestes nada?”, ou então nos perguntará: “Como conseguistes encontrar a coragem moral de movimentar-vos e de resolver com sucesso uma crise que muitos haviam definido como insolúvel?” Temos tudo o que é necessário para começar, salvo, talvez, apenas a falta de vontade política. Mas a vontade política é um recurso renovável. Renovemo-la, então, e declaremos todos juntos: “Temos um objetivo, uma meta. Somos tantos. Por esta meta nos moveremos e agiremos!”

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