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       São Paulo, 21/11/2008, 04:51          
 










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ÁLBUM

 

FREI GERALDO RODERFELD

A 17 de setembro de 1913, em Paderborn, na Alemanha, nascia Otto August Roderfeld, filho de Julius Roderfeld e Anna Menge Tovar. Mais tarde, como religioso: Frei Geraldo Otto Roderfeld.

Pouco se conhece a respeito de sua vida antes do ingresso na vida religiosa. Era o quarto de oito filhos do casal Roderfeld. A religiosidade de sua família, segundo o próprio Frei Geraldo escreveu em sua ficha autobiográfica, contribuiu para despertar sua vocação. Sua mãe, inclusive, era benfeitora da Casa de Estudos dos Jovens Franciscanos em Paderborn.

Fatos marcantes de sua vida, enumerados por ele, foram a morte prematura de uma irmã, Rosemarie, do irmão caçula, com um ano de idade e de seu irmão mais velho, assassinado, vítima do nacional-socialismo. Outra morte que, sem dúvida alguma, muito o transtornou e o marcou, foi de sua irmã Margarida, a bordo do Transatlântico “Monte Pascoal”, quando viajava para o Brasil a fim de participar de sua ordenação e para residir e lecionar no Colégio das Irmãs de Sion. Frei Geraldo desce, alegre, de Petrópolis ao Rio para esperá-la no porto, quando recebe a notícia, através de Frei Ambrósio Johanning, que era um dos passageiros, da morte e sepultamento no mar. A vivência da 1ª Guerra Mundial, “com todos os seus sacrifícios e misérias”, é também descrita por ele como um fato marcante em sua vida.

Na história de sua vocação, além da religiosidade da família, Frei Geraldo destaca a influência de Pe. Frei Libório Grewe (1932), amigo de seu pai desde a juventude; dos franciscanos do Convento de Paderborn e de seu tio Gustav Roderfeld, padre, com o qual sempre passava as férias. Segundo ele, o desejo de ingressar para a vida religiosa surgiu no dia de seu aniversário, quando participava da profissão religiosa dos estudantes do Convento de Paderborn como coroinha.

Chegou a ser admitido no Colégio de Vlodrop, na Holanda, onde iniciaria seus estudos rumo ao sacerdócio, mas Frei Libório acabou por retirá-lo e encaminhá-lo ao Garnstock, onde permaneceu de 1927 a 1929. Em 29 de abril de 1929 desembarcou como missionário no Brasil e foi estudar, a partir da quarta série ginasial, no Colégio de Rio Negro, onde ficou de 1929 a 1931. Seguiu em 1931 para Rodeio, onde em 19 de dezembro, com mais 24 colegas, recebeu o hábito das mãos de Frei Bruno Linden, guardião e pároco.

Fez a profissão simples no dia 20 de dezembro de 1932. Seguiu para Curitiba, onde permaneceu de 1934 a 1935. Em 20 de dezembro de 1935 fez a profissão solene. Seguiu para Petrópolis em 1936. Em 28 de novembro de 1937, com mais 25 confrades, foi ordenado sacerdote por Dom José Pereira Alves, bispo de Niterói. Dono, à época, de um temperamento alegre, vivo e extrovertido.

Em 1939, Frei Geraldo é transferido para Garnstock, onde trabalhou como professor. Nesta época, matriculou-se numa Academia de Arte e Pintura, onde estudou até 1941. Mas em 1º de setembro foi convocado pelo governo alemão para servir na 2ª Grande Guerra Mundial. Tornou-se soldado e, mais tarde, prisioneiro em um campo de concentração na Rússia.

Esta etapa de sua vida o marcou muito e influenciou em suas atitudes e comportamentos no exercício diário da vida fraterna, na vivência dos votos um dia professados, na relação com seus superiores e outros fatos conhecidos de quem conviveu com ele.

Além de todos os horrores da 2ª Guerra e do longo período de cativeiro, de 1945 a 1954, foram grandes as dificuldades para se acostumar novamente à vida conventual e comunitária. Passou a ser mais arredio à fraternidade, a levar uma vida mais solitária, buscando fora de casa e no trabalho, formas, talvez, de amenizar os traumas e os sofrimentos desse duro período de sua vida.

Em 12 de novembro de 1960, após ter recusado uma primeira transferência para Lages, em 1959, Frei Geraldo retornou ao Brasil. Foi trabalhar como coadjutor em Campos do Jordão, onde permaneceu de 17 de novembro de 1960 a 15 de junho de 1962. De 1962 a 1965 trabalhou em São Lourenço; de março de 1965 a abril de 1967 no Rio (Marambaia); de abril de 1967 a março de 1976 foi capelão da Escola Técnica Darci Vargas, em São João de Mereti; finalmente em março de 1976, transferiu-se para o Seminário Frei Galvão, em Guaratinguetá.

No Seminário, em Guaratinguetá, dedicou-se quase que exclusivamente à pintura - seu trabalho preferido: “Pintar Igrejas e especialmente as Vias-Sacras”.

De vida metódica, celebrava regularmente às 6 horas para as Irmãs do Hospital Frei Galvão e, aos domingos, para as Monjas Concepcionistas do Mosteiro da Imaculada Conceição.

Fora isto, recolhia-se em seu reservado atelier - seu reduto de paz e solidão -, onde se dedicava incansavelmente à produção artística. Viajava, acompanhado de seus ajudantes, a pintar igrejas por esse Brasil a fora. Uma de suas últimas obras e, talvez, uma das mais belas, são os painéis da Catedral de Lorena, tendo como motivos os diversos títulos de Nossa Senhora. Também em Lorena pintou a Igreja de São Benedito e diversos painéis no Colégio São Joaquim. Em Rodeio deixou uma mostra de seu talento de escultor na imagem de São Francisco de Assis nos jardins do noviciado e que, até hoje, serve de pano de fundo para a fotografia oficial dos noviços.

Também são obras suas as esculturas de São Francisco, em cimento, dos Jardins Zoológicos do Rio de Janeiro e de São Paulo. Suas Vias-Sacras espalham-se por uma infinidade de igrejas e capelas, seus afrescos e painéis decoram salões, conventos e, principalmente, as paredes do Seminário Frei Galvão.

Frei Uli Steiner, que com ele conviveu vários anos em Guaratinguetá, deu esse depoimento: “Não sei por que, mas fomos bons amigos. Todos os confrades sabem das dificuldades que Frei Geraldo tinha com a bebida e que quando bebia falava até não poder mais. E isso muitas vezes até às 2 da manhã. Mas gosto de recordar a fidelidade com tudo o que assumia; a exatidão das coisas, do horário, do vestir-se. Nada nele estava fora do lugar quando estava sóbrio; um humor, às vezes mordaz, diante de situações mais difíceis; a oração, a Eucaristia. O gosto especial pela pintura da Via-Sacra. Mas gostávamos dos comentários especiais que fazia sobre os confrades, sobre os fatos, os acontecimentos. Isso tudo nos fazia esquecer os momentos, às vezes difíceis, em que nos deixava por causa da bebida”.

Nos últimos meses em Guaratinguetá, preparava-se para uma visita à Alemanha, aguardava com ansiedade a passagem pelo Brasil do navio que o levaria à sua terra e ao encontro de seus familiares.

Não teve tempo de concretizar essa viagem. No dia 30 de junho de 1988, nossa irmã morte, que ele tanto retratou em seus inúmeros quadros do “Cântico das Criaturas”, o visitou de forma rápida e inesperada.

Como fazia todos dias, levantou cedo, celebrou para as irmãs do Hospital, trabalhou em seu atelier e saiu para fazer algumas compras de material de pintura na cidade. Ao retornar ao seminário, por volta da hora do almoço, já dentro da praça do seminário, sofreu o enfarto fulminante, perdendo o controle do carro e batendo nas imagens da “Santa Ceia” da praça. Ainda foi levado ao hospital, mas lá já chegou sem vida. Seu corpo foi velado na Capela do Seminário e repousa no cemitério desta casa juntamente com os demais confrades que aqui trabalharam.

As estações da Via-Sacra, tantas vezes pintadas por ele, foram sendo experimentadas ao longo de sua vida. Os sofrimentos, as lutas, as dificuldades foram sendo gravadas ao longo dos anos. No dia 30 viveu sua última estação: a Ressurreição.

Faleceu com 74 anos de idade. 56 anos de Vida Religiosa e 50 anos de sacerdote. Homem de poucas palavras, poucos sorrisos e poucos amigos, retratou através de sua arte toda sua fé em Jesus Cristo e em Maria, toda a alegria do ideal franciscano e toda a natureza com cores fortes e vivas. Deixou-nos gravado, em cada um de seus quadros, sua memória, sua forma de anunciar o Evangelho, de comunicar a paz, a alegria, o amor, seu ideal de “ser um bom franciscano”.

Frei James Ferreira Gomes Neto