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ESTUDOS BÍBLICOS
DE LUAS, COBRAS, MULHERES E TAMAREIRAS
(Uma leitura de Gn 2,4B–3,24)
Autor: Maria Soave Buscemi
De luas e vida [...]
“Deus dos sem-deuses,
Deus do céu sem Deus,
Deus dos ateus,
rogo a ti cem vezes.
Responde, quem és?
Serás Deus ou Deusa,
que sexo terás?
Mostra teu dedo, tua língua, tua face,
Deus dos sem-deuses”
(Chico César/Bethânia – “invocação”).
De luas, tâmaras e vida
“Quem nomeia, chama. E alguém acorre, sem ter reserva, sem explicações, do lugar onde o seu nome, dito ou pensado, o está chamando.
Quando isto acontece, se tem o direito de acreditar que ninguém vai-se embora totalmente até que não morra a palavra, que chamando-o, o faz voltar” (Eduardo Galeno, Janela sobre memória).
Na terra onde nasci, poucos são os mananciais de água boa. Lembro-me, nas primeiras horas da tarde, do sol implacável rachando as pedras brancas da calçada e das filas imensas de mulheres vestidas de preto e de crianças carregando um cantil de água na cabeça.
Até trinta anos atrás, poucas eram as casas com água encanada no sul da Itália. Nos meses de calor, esse bem cristalino e precioso líquido só chegava nas fontes da praça da pequena cidade algumas horas ao dia. A água, símbolo eficaz, sacramento de vida para as pessoas, os animais e as plantas, era usada para a exploração dos políticos. Muitos deles se elegeram por mais de quarenta anos, demonizando o comunismo e a reforma agrária, abençoados pela Igreja, e prometendo água para os “cafoni”, os trabalhadores dos campos secos e queimados pelo sol do extremo sul da Itália.
Lembro-me das longas caminhadas pelas ruelas estreitas até o mercado da pequena cidade. O calor entrando no meu corpo e o suor escorrendo em toda a minha pele de criança.
Lembro-me de minha avó olhando as antigas muralhas da cidade, vasculhando com aqueles olhos cansados da cor da esmeralda do Mediterrâneo o céu-mar do meio-dia, até encontrar as folhas de palmeira apontando, esbeltas, para o azul infinito.
Tamareiras. Palmeiras do Mediterrâneo e do deserto. Elas sempre anunciaram a presença de água boa por perto.
No mundo do Oriente Médio e do Mar Mediterrâneo, uma árvore de tâmaras anuncia a presença de água cristalina. Duas tamareiras trazem a boa notícia que, naquele lugar, os viajantes irão encontrar água e pouso.
Encontrar três palmeiras, produtoras de frutinhas doces e gostosas, significa ter a certeza de pouso, água e comida.
Quatro árvores de tâmara, plantadas respeitando os quatro pontos cardeais, trazem a maravilhosa notícia: “Amigo, amiga, aqui você encontra sempre água, pouso, comida e amizade para continuar tua viagem”.
Gosto de voltar ao pedaço de terra-mar que me viu nascer. É a terra de “Messápia”, palavra grega que significa “terra-do-meio”, um pedacinho de terra mergulhado na esmeralda do Mediterrâneo, a pontinha do salto da bota que é a Itália. “Messápia”, um pedacinho de terra entre os dois mares, o mar dos gregos e o mar do antigo império romano. “Messápia”, uma “terra-do-meio” entre muitas culturas, línguas, jeitos e religiões. Gosto de voltar para a “Messápia”, o pedacinho de terra – mar que me viu nascer.
À beira do manso Mediterrâneo, perto dos antigos muros da cidade, têm quatro velhas árvores de tamareiras e uma fonte de água cristalina, elas parecem sempre me esperar com saudade... “Soave, aqui você encontra água, pouso, comida e amizade para continuar a tua viagem... Bem-vinda de volta para casa!”
De luas, tâmaras, cobras e vida
Criei-me numa grande cidade do Norte da Itália. Os meus pais migraram jovens, do Sul pobre, para o Norte industrializado, em busca de vida digna, fugindo da fome, da sede e do desemprego.
Até os anos sessenta do século XX, muitos trabalhadores da terra sem-terra (cafoni), foram migrando do sul da Itália. Muitos “terroni” (pobres comedores de terra) saíram do país à procura de vida digna na Argentina, no Brasil, na Venezuela, nos Estados Unidos, na Europa do Norte, na Austrália... Trabalhadores da terra sem-terra espalhados pelo mundo.
Mas, nos últimos vinte anos, a Itália conheceu um novo fenômeno. Um país que produziu milhões de empobrecidos obrigados a ir embora, agora virou um país onde outros povos querem migrar.
Do mundo árabe, da África negra, da Ásia, da América Latina e, ultimamente, do Leste Europeu, centenas de milhares de pessoas estão chegando às fronteiras de mar do sul da Itália à procura de uma possibilidade de vida.
E o povo de “Messápia”, a gente da “terra-do-meio” que sempre teve que migrar por causa da pobreza, do latifúndio, da seca e da fome, este povo que também sempre acolheu gente dos muitos jeitos, religiões, falas, e culturas, abre os portos, as casas e o coração.
Lembro-me que, aos 18 anos, recebi um presente de namoro de alguém que, naquele tempo, eu estava amando.
Era jovem berbere, dos povos do deserto do Saara, que tinha migrado para Milão. Era inverno, a cidade estava envolvida no seu típico manto cinzento feito de neblinas e poluição.
No parque da cidade, entre as árvores totalmente despidas de folhas e as pessoas passando bem agasalhadas, eu abri um enorme pacote. Do pacote saía um cheiro muito bem conhecido e não reconhecido. Abrindo a caixa misteriosa os meus olhos se encheram de maravilha, e um sorriso enfeitou o meu rosto vermelho por causa do frio e da emoção.
Era um enorme cacho de tâmaras! As doces frutinhas vindas do deserto da Argélia!
No meio do grande cacho de frutas doces, um outro pacote, bem menor, quase invisível. Lá dentro um pequeno anel, uma pedra turquesa e, no meio da pedra, a incisão de uma cobra.
Por muitos anos, usei aquele anel. Faz tempo que a pedra quebrou e hoje o anel está guardado numa caixinha.
Passaram-se quase vinte anos daquela tarde no parque da cidade de Milão, mas, cada vez que paro para recordar, voltam à minha boca, ao meu corpo e ao meu coração, o sabor das tâmaras, da pele e dos beijos, a alegria do amor da cor das oliveiras e um anel com uma pequena cobra incisa numa pedra turquesa.
De luas, tâmaras, cobras e vida:
perguntas com corpo de mulher
É muito difícil ser mulher e ouvir com prazer o texto de Gn 2,4b–3,24.
É um texto mítico e, por isso, mágico: fala para todos os poros de nossa pele e de nossa alma. Quanta violência e quanta dominação os nossos corpos de mulheres suportaram e suportam em nome desses textos definidos como sagrados.
Quantas feridas abertas choram as nossas almas de mulheres. Mulheres consideradas inferiores porque saídas de uma costela. Mulheres, logo depois dos animais, não tão humanas quanto os homens. Mulheres, aborto de homens, segundo a “Política” de Aristóteles, ou não imagem de Deus, segundo Ambrosiano no Comentário à Primeira Carta aos Coríntios.
Mulheres sedutoras, eternamente conspirando, para fazer os homens caírem nas garras do mal. Mulheres-cobra, de língua dupla, mentirosas, perversas e maliciosas...
Mulheres, sempre carregando uma certa essência impura e pecaminosa, por isso impossibilitadas à plena presença do divino. Mulheres excluídas, em muitos lugares e instituições, impedidas de “tocar” no sagrado, no altar, nos ritos e liturgias...
Não é fácil ler Gn 2,4b–3,24 sem sentir uma antiga ferida latejar. É a mesma ferida que as nossas mães, avós e matriarcas sentiram em seus corpos, em todos os tempos dos “textos sagrados”, em muitos espaços geográficos, raças e condições econômicas.
O fato de sermos as filhas de Eva é o parentesco comum de todas nós mulheres dos últimos 3000 anos de história “ocidental”.
Podemos pertencer a diferentes raças e etnias, condições sociais e econômicas, gerações, opções sexuais, igrejas e religiões, mas todas somos filhas da mesma Mãe dos viventes, todas somos Eva.
É destes mitos de luas, mulheres, árvores e serpentes que nós mulheres queremos falar. São estas palavras doloridas sobre luas, mulheres, árvores e serpentes que queremos desconstruir e dessacralizar. É nestas palavras mágicas sobre luas, mulheres, árvores e cobras que queremos encontrar a palavra boa, palavra de vida, palavra que cria e recria vida e relações, por isso, palavra da divindade.
De luas, tâmaras, serpente e mulheres: o texto [...]
“Na beira de outro mar se retira o oleiro nos últimos anos de sua velhice. Os olhos estão velados, as mãos tremem, está chegando a sua hora. Então se cumpre a cerimônia de iniciação: o velho oleiro oferece ao jovem oleiro a sua melhor peça de barro. Assim quer a tradição dos índios da América norte-ocidental; o artista que vai embora dá de presente a sua obra-prima para o artista que é iniciado. O jovem oleiro não conserva o vaso perfeito para contemplá-lo e admirá-lo, o joga no chão, o quebra em mil pedaços, recolhe os pedaços e os incorpora na sua argila” (Eduardo Galeano, Janela sobre a memória).
A exegese e a hermenêutica latino-americana já percorreram um longo e fecundo caminho na reflexão de Gn 2,4b-3,24. As reflexões de Carlos Mesters, Milton Schwantes e Severino Croatto nos ajudam muito neste sentido.
O tema do delito/castigo parece ser um dos fios que perpassam os capítulos 2–3 e 4–11 do livro de Gênesis.
O mundo do campo parece ser o chão econômico e geográfico destes textos. A humanidade é gente tirada da terra (2,7), é gente colocada numa horta/roça cultivada como um jardim (2,8-9).
Existe uma grande diferença entre os capítulos 1 e 2. O primeiro capítulo de Gênesis narra a criação do céu e da terra: “No princípio Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1 e 2,49). O segundo capítulo inverte a ordem da criação: “Quando Javé Deus fez a terra e o céu...” (2,4b).
A terra parece ser o tema central deste segundo e terceiro capítulos... O tema das ervas encontra-se no versículo 5 do segundo capítulo e depois só em 3,17-19.
Parece que, nestes capítulos, o “caos” é a falta de terra e de condições dignas de trabalhar a terra, para a humanidade camponesa que vive da terra.
Como na história do velho índio oleiro, a magnífica obra de barro do jovem oleiro contém milhares de pedacinhos estraçalhados da maravilhosa obra prima de barro do velho oleiro. São estes pedacinhos, antigos e maravilhosos, que procuramos encontrar no texto de Gênesis. Três blocos parecem ser de argila muito antiga.
1) O texto de Gn 2,10-14, que narra a respeito dos rios do Éden, é um texto de outra tradição literária inserido nesta obra.
2) Outro bloco antigo de uma “argila de contos mitológicos” parece ser o texto de Gn 2,18-24. Nele é narrada a construção do espaço, da “casa” para os animais e a humanidade. Nesta narração, a humanidade se faz mulher e homem. Javé procura uma “auxiliadora” idônea para a humanidade tirada da terra.
3) Do terceiro bloco de antiga argila, Gn 3,14-19, é a narrativa de três maldições: a) a dor do parto para a mulher; b) o sofrimento da mulher por ser “governada” pelo homem, como fortalecimento do patriarcalismo androcrático; c) o homem, trabalhador do campo, dominado pelo “suor” e pelas “fadigas”.
No conjunto do texto de Gn 2,4b–3,24 parecem também existir dois pedacinhos menores de antiga argila, mítica e mágica, não menos importantes.
Encontramos em Gn 2,7-17 o relato da árvore do conhecimento e em Gn 3,22 o relato sobre a árvore da vida.
Percebemos então pedacinhos de argila muito antiga, de textos que anteriormente eram contos, provavelmente da tradição oral de muitos povos da Mesopotâmia. A época de redação do texto nos traz cheiros diferentes. Percebemos um cheiro forte de tradição do século X. Produto narrativo da corte salomônica, através da inovação religioso-idolátrica de Salomão (1Rs 11).
Existem cheiros mais suaves que não podemos deixar de perceber, desconfianças, sem pretensão de serem certezas.
Uma suave suspeita de uma outra camada de redação nos vem do século VIII, da profecia, da grande luta contra a idolatria e a serpente que eram fortalecidas pelas monarquias estrangeiras.
A crítica à serpente, quando Noestã foi afastada do templo de Jerusalém (2Rs 18,4).
No texto de Gn 2,4b–3,24, a lei é fundamental: Javé é vida e a serpente é antivida.
O texto é construído com o capítulo segundo em contraposição ao terceiro. A vida em contraposição à morte. A felicidade em contraposição à serpente. O texto defende a posição de que a obediência à lei, às ordens de Javé (2,16-17) garante a vida, e que sua transgressão traz a experiência do sofrimento, da dominação e da morte.
A lei, a Torá é uma proposta que vem dos tempos antigos, mas é o movimento deuteronômico do final do século VIII e VII que dá força especial e decisiva à lei.
O texto de Gn 2,4b–3,24 nos diz claramente que a serpente acaba com a vida dos animais, com a vida da mulher, que é dominada pelo homem e vai parindo com dor filhos para as guerras e para o estado; e acaba com a vida do lavrador do campo, que se fadiga na roça para que os reis vivam no luxo e na mordomia.
Mesmo contextualizando as possíveis redações destes textos, os nossos corpos de mulheres continuam com uma antiga ferida latejando no fundo da alma.
Precisamos desconfiar destes textos, precisamos tocar o texto como se toca um corpo, um tecido vivo, com o nosso corpo, o nosso tecido vivo de mulheres. Precisamos ouvir o texto falar. Precisamos achar no texto discordâncias, incongruências, conflitos e, desta “desordem”, tirar a palavra de vida que recria relações.
De luas, tâmaras e cobras: o texto, provavelmente, com corpo de mulher
“Sou Eva, sou eu, livre e inteira e não é por minha culpa que Jesus morreu.”
Existem vários relatos bíblicos sobre a criação do mundo, mas o mito da criação de Adão e Eva e sua “desobediência” é o que mais influenciou o pensamento ocidental.
Tudo isso é muito interessante, porque o texto em si é cheio de contradições.
1. Serpente (Gn 3,19) – No texto se diz que é a mais astuta, cautelosa, hostil, a mais difícil de dominar, de todos os animais do campo que Javé Deus havia feito.
Surge, então, uma pergunta: se a serpente é um animal perverso e velhaco, como pode ser astuta, cautelosa e bonita? E como pode estar na horta/jardim de Deus?
2. A humanidade – Se foram feitos à imagem e semelhança de Deus, se tinham o sopro de Deus dentro das narinas (2,7), porque depois têm tanto problema em ser como Deus? Não faz sentido serem como Deus e serem castigados por querer ser como Deus!
Por que, na bíblia, quando a humanidade tem chance de conhecer a Deus é expulsa do Paraíso, em lugar de ganhá-lo?
3. A árvore do conhecimento do bem e do mal e a árvore da vida que estão no meio do jardim (2,9) – Se a humanidade comesse a fruta do conhecimento do bem e do mal, estaria mais apta para o seguimento do projeto de Deus. Por que foi expulsa do jardim por ter comido a fruta?
4. Eva – Em relação à expulsão do Éden, Adão recebe um castigo do mundo da produção (trabalhar o solo com suor e fadiga). Eva recebe dois castigos de ordem sexual: um do mundo da reprodução (parir com dor) e outro do mundo da dominação (o homem dominará: sexismo, patriarcalismo, androcracia).
Na história da moral cristã, estas duas ordens de castigos receberam dois tratos totalmente diferentes.
O mundo da produção teve, na história e na moral, todas as ferramentas para melhorar e para aliviar o suor e a fadiga.
O mundo das dominadas e das violentadas pelo machismo, o patriarcalismo e a androcracia continuam sangrando da mesma forma.
O mundo da reprodução, da dor, do sexo e do prazer continua sendo ferida aberta no corpo das mulheres.
Desconfio que, em Eva, árvores e serpentes sejam alguns pontos focais da questão.
É nesse mundo que quero mergulhar.
De árvores, luas, deusas e serpentes
Nasci no dia 13 de agosto e era uma sexta-feira. Vim para o Brasil e, cada vez que anuncio o dia do meu nascimento, as pessoas se cutucam e riem dizendo: “Viu? Ela é bem bruxa, é uma víbora, temos que ter cuidado com essa mulher, nasceu no dia do cachorro louco!”
Ao contrário, a minha velha avó grega, mulher da “terra-do-meio”, e das árvores de tamareira, quando eu era criança, me deu uma pequena medalha que ainda hoje carrego no pescoço, nela estava escrito em grego “Zoi”, isto é, “vida plena”. A avó me disse: “Maria Soave, minha filha, você nasceu num dia totalmente especial, nunca se esqueça. O dia 13 de agosto é um dia propício, de defesa da vida, da terra, de cuidado para que as tamareiras, as oliveiras, as videiras e as figueiras possam viver”.
Antigamente, alguns séculos antes de Cristo e nos primeiros séculos da era comum, no dia 13 de agosto, acontecia uma festa para Hécate, a deusa lua na Grécia. Em Roma acontecia a mesma festa no mesmo dia em honra de Diana. O dia 13 de agosto era um dia propício, pois a colheita amadurece mais cedo nos países do sul europeu do que nos do norte. Nesse dia era invocada a ajuda da deusa para impedir tempestades, que poderiam prejudicar a vinda da colheita.
Essa festa foi, de certa maneira, perpetuada pela Igreja católica, pois a data do dia 15 de agosto foi escolhida para a celebração da festa da Assunção da Santa Virgem. A conexão entre a cerimônia pagã e a cristã é muito interessante.
O aspecto especial do ritual cristão centraliza-se nas preces dirigidas à Virgem Maria, como anteriormente eram dirigidas às deusas da lua, a fim de que ela desvie as tempestades dos campos até que os frutos sejam colhidos.
Há uma passagem num texto siríaco chamada “Partida de Nossa Senhora Maria deste mundo” que diz o seguinte: “E também os apóstolos ordenaram que deveria haver uma comemoração da Abençoada no décimo terceiro de Ab (agosto), a bem das vinhas com cachos de uva e a bem das árvores com frutas, e que nuvens de granizo, com pedra de ira, não viessem, e que as árvores, as frutas e as vinhas com seus cachos não fossem quebradas”.
O poder umectante das deusas não se estendia somente ao controle da chuva, mas acreditava-se que também produzisse orvalho.
Istar, a deusa da lua babilônica, era relacionada com nascentes de águas e rios. Istar também levava o título de “Coberta de Orvalho”.
Em Gn 2,10-14 tem um conto completamente centrado nas águas e nos rios.
Como Istar, outras deusas eram consideradas guardiãs das águas, rios e córregos. É no dilúvio da Babilônia que Istar constrói uma Arca (constituída como uma lua que cresce) para salvar o mundo e, parando a chuva, lança uma pomba ao céu...
Nos textos de Gênesis sobre a história de Agar e Ismael, quem escuta o choro de Ismael e o desespero de Agar é uma “deusa do olho d’água”, uma divindade senhora das nascentes de água.
Precisamos, então, mergulhar mais na Mãe-Lua.
A mãe-lua [...]
“Habito um corpo que sangra sem estar ferido: é um mistério lunar.”
São muitas, na história da humanidade, as deusas da lua. Istar da Mesopotâmia é uma das mais antigas. Antes que os sumérios primitivos migrassem para Assíria, por volta do 3º milênio antes da era comum, ela e seu filho Tamuz já eram ali cultuados. Istar era chamada “Diretora das pessoas”, “Profetiza”, “Dama da Visão” e os arquivos arqueológicos da cidade de Nirmud, onde Istar era cultuada, revelam que as mulheres desempenhavam papéis de juízas e magistradas nos tribunais. Astarte era a forma da Deusa-Mãe adorada pelos cananeus, hebreus e fenícios, mas ela e seu filho Baal antecederam esses povos. Seu nome, que é tão próximo ao de Istar, é primeiro mencionado em 1480aC, quando seu culto já era considerado antigo.
Ísis do Egito era adorada desde mais ou menos 1700 aC. Era chamada “Mãe do Universo” e “Provedora de toda a vida na terra”. Cibele, Deusa da Terra e Deusa da Lua, era cultuada na Frígia antes de 900 aC.
Era mãe de Átis, um deus que morria e ressuscitava.
A estreita semelhança das Mães da Lua entre si é surpreendente, por exemplo, a partenogênese parece ser bastante característica da Deusa da Lua. A grande Mãe é sempre representada como “virgem”, a despeito do fato de ter muitos amantes e de ser mãe de muitos filhos, ou de um filho, o qual morre somente para nascer outra vez, anos após anos.
A palavra “virgem”(em grego, parthenos) para a Deusa-Lua, não significa mais do que uma mulher solteira. A virgem Istar é freqüentemente intitulada “a prostituta”, e ela própria diz “uma prostituta compadecida sou eu”. Istar usa o “posin”, véu que, entre os judeus, era a marca tanto das virgens como das prostitutas. As prostitutas sagradas do templo de Istar eram chamadas de “virgens santas”. Crianças nascidas fora do casamento eram chamadas de “parthenoi” ou “ nascidos de virgem”.
A Deusa-Mãe esquimó (última migração para América de 3000aC) é chamada de “Virgem-aquela-que-não-têm-marido”.
A Virgem Santa chinesa, Shing-Moo, a Grande Mãe, concebeu e pariu um filho enquanto virgem.
Em todos esses casos de Deusa-Mãe-Lua, o termo virgem encontra seus significados reais no fato de contrastar com o termo casada.
Em tempos primitivos uma mulher casada era propriedade de seu marido. No sistema patriarcal ocidental, a moça solteira pertence a seu pai, mas em épocas anteriores, como algumas comunidades primitivas, ela era dona de si própria até que se casasse.
Uma moça pertencia “a si própria” enquanto era virgem/solteira. Ela não podia ser obrigada a manter castidade e nem se entregar a um abraço indesejado. Como virgem ela pertencia somente a si própria, era “uma-em-si-mesma”. É neste sentido que as grandes MÃES-LUA podem ser chamadas corretamente de virgens.
“Eu estava no Norte do Brasil, na floresta amazônica, me convidaram para trabalhar com camponeses e tinha só uma tarde para me reunir com mulheres operárias e domésticas (...) uma mulher disse o seguinte: “Eu trabalho, tenho seis filhos e sou virgem (...) o chefe do lugar onde trabalho muitas vezes me ofereceu dinheiro para que eu entregasse as companheiras de trabalho que chegavam atrasadas e aquelas que participavam das reuniões de organização da greve.
Eu sempre me recusei. Um outro me convidou para jantar e depois fazer um programa com ele, e eu disse que não (...) Isto é para mim ‘virgem’, eu não me vendo para esses homens...” (Ivone Gebara, Con-spirando 9/94, p. 45).
As árvores da lua e a serpente
No Mediterrâneo Antigo a Deusa-Lua era representada por uma pedra.
Pedras de arenito aparecem no Santuário da Soberana da Turquesa, entre os precipícios do Monte Sinai, sugerindo que a Grande-Deusa-Lua era adorada nesta montanha da lua (isto significa “Sinai”), na forma de um cone, antes que Moisés ali recebesse as Tábuas da Lei.
Na Caldéia, a Grande-Deusa, ou a Deusa da Lua, era adorada na forma de uma pedra negra sagrada, e se acreditava ser essa a mesma pedra ainda venerada em Meca. Essa pedra foi colocada na Caaba, em Meca, e servida pelas antigas sacerdotisas. A pedra negra era uma divindade especialmente protetora das mulheres. Hoje a Caaba ainda sobrevive e é o lugar mais santo do Islão.
A pedra foi, então, usada para representar a Deusa Lua em muitos lugares do Oriente Médio e do Mediterrâneo.
Além do pilar de pedra, um pilar de madeira ou árvore é freqüentemente encontrado como símbolo da Deusa-Lua, a sagrada árvore da Lua.
A Aserá, tão freqüentemente mencionada no AT, era uma árvore tratada como se fosse a mesma deusa Astarte.
Os profetas condenavam a adoração à Aserá, às luas novas e aos sabás, para os quais os serviços religiosos eram realizados.
Esses ritos e o bosque onde ficava a Aserá eram todos parte do ritual da Deusa-Lua. Portanto foi contra a Mãe-Lua, que havia reinado no Sinai, que o monoteísmo enfrentou sua maior luta. A Deusa-Lua era muitas vezes adorada numa gruta, num bosque natural ou num jardim. Em poemas e textos religiosos afirma-se freqüentemente que “a árvore cresce no meio do jardim”. Em certas figuras assírias, babilônicas e da Caldéia a árvore é uma tamareira; em figura micênica (Creta até 5000 aC) é uma oliveira a árvore sagrada. No mundo grego é também a videira.
Além da árvore sagrada, ligada ao culto da Deusa-Mãe-Lua, está o animal. Às vezes tem a imagem do javali (representando o mundo dos mortos). O seu aspecto voraz é representado pelo leão ou pela pantera. O aspecto maternal da Deusa tem como símbolo a vaca celestial, e o seu filho, o jovem-lua, é o bezerro.
O bezerro, filho da Mãe-Lua, é o herói que vem à terra e mostra à humanidade o caminho da salvação. O jovem filho da Mãe-Lua fica entre o céu e a terra, porque é sujeito à morte como homem, mas é também filho da virgem Mãe-Lua, o eterno não nascido. Ele partilha da natureza da humanidade como da dos deuses. Muitas culturas do mundo centralizadas na terra têm cultuado a Deusa-Mãe, como serpente. A arqueóloga feminista Marjia Gimbutas encontrou sinais da Deusa-Serpente, desde 6000 aC, na ilha de Creta do tempo minóico (neolítico).
As culturas do culto à Deusa-Serpente têm considerado o desprendimento cíclico da pele da serpente uma metáfora para o ciclo de nascimento/vida/morte da humanidade.
A serpente foi usada para ilustrar as pequenas mortes que suportamos durante a nossa vida. O desprendimento da infância para dar lugar à puberdade, o desprendimento da fertilidade na ocasião da menopausa, o desprendimento do relacionamento com a morte de entes queridos. O fato de a serpente viver em uma forma nova, purificada após o desprendimento da pele, tem sido universalmente utilizado como uma metáfora para o poder purificante da mudança e da transformação, e também como símbolo da vida eterna.
Diferentes mitos primitivos relatam que o dom da imortalidade foi trazido à humanidade ora pela lua e ora por uma serpente.
Em alguns mitos, a serpente revela à humanidade a virtude que está escondida na fruta da árvore da lua, ou na bebida “soma” que dela pode ser feita. É a virtude do conhecimento do bem e do mal, e da vida eterna.
O tema da cobra aparece também em outro lugar bastante inesperado. O Deus do monte Sinai, cujo nome significa “montanha da Lua”, era servido por acompanhantes chamados levitas. Esses levitas usavam uma lua crescente como um ornamento para a cabeça. Parece que a palavra “Levi” significa “envolver” ou “ser devoto”, e aparece em inscrições minóicas da ilha de Creta bem antigas (antes de 4000 aC) em conexão com o deus Wadd, que era deus do amor e deus da lua.
Nas sociedades fundamentalmente matrilineares, a serpente era amiga, uma aliada e uma auxiliar da Deusa e de suas sacerdotisas e sacerdotes. No antigo Egito, o hieróglifo (símbolo escrito) que representava a cobra também significava a Deusa.
Uma das principais razões para a associação entre luas, mulheres e serpentes é o de compartilhar um padrão de desprendimento cíclico.
Para a serpente o que se desprende é a pele; para a lua as suas fases e para a mulher o revestimento do útero quando ela menstrua.
A pele desprendida provoca o renascimento da mulher. A serpente e a lua, como símbolos universais da renovação, nos proporcionam uma pista vital para os mistérios menstruais. Nosso desprendimento mensal é a chave da nossa própria renovação e criação, a chave da nossa própria saúde. Todo mês podemos recriar-nos completamente. As árvores, luas, cobras, mulheres... a vida vivida pelo gostoso gosto de viver!
Quem é a deusa? De onde veio?
Parece que o culto da Grande Deusa, Rainha do céu, da qual também se fala no Primeiro Testamento existiu e floresceu no Oriente Médio, milhares de anos antes da chegada de Javé. A arqueologia descobriu a adoração à Deusa nas comunidades neolíticas, em volta de 7.000 aC e alguns sinais no paleolítico superior, por volta de 25.000 aC.
Mas porque a divindade antiga era imaginada como mulher e não como homem?
Quando a adoração para a Deusa começou realmente?
A paleontologia propõe a hipótese de que o culto antiqüíssimo para a Deusa-Mãe esteja ligado ao fato de que os povo primitivos não compreendiam a paternidade biológica. Não conheciam a ligação entre o ato sexual e a concepção.
O feto no útero da mulher era fato misterioso para o homem primitivo.
A fecundidade das mulheres ara algo de divino. A mulher era reverenciada como a doadora da vida e o sangue menstrual era símbolo propiciatório de mais vida. Muitas são as estátuas chamadas “Vênus” de 25.000 aC.
A “Grande-Mãe” era o símbolo dos caçadores nômades deste período na região Euro-Asiática. A imagem da mulher deste longínquo período da história da humanidade era complexa: não era uma deusa, nem um ídolo, nem a Mãe de um Deus, era a Mãe da tribo e do clã.
No período neolítico, até a era do bronze (berço histórico do surgimento da agricultura), surge a Deusa-Mãe-Terra.
Na Jericó de 7.000 aC encontraram-se vários achados arqueológicos a respeito, que apontam para uma vida religiosa ativa.
Existem nesta região e deste período várias figuras femininas, com as mãos no peito, num ato de semear.
Por volta de 6.800 aC, numa região do atual Iraque, encontraram-se estatuetas da Deusa-Mãe, como também estátuas na Anatólia de 5.500 aC. No sul do rio Eufrates encontraram-se estátuas da Deusa de 4.000 aC; com a invenção da escritura nestas regiões (3.000 aC), a Deusa foi conhecida na história escrita.
Na Grécia e em Roma o culto à Deusa não foi suprimido até os imperadores cristãos de Roma e Bizâncio, que fecharam os últimos templos da Deusa por volta de 500 dC.
Parece que a passagem da era do bronze para a era do ferro, entre 2.000 e 1.000 aC, marcou um corte histórico para a sobrevivência da imagem da Deusa.
O descobrimento do uso do ferro e da técnica da laminação, a técnica da construção de armas cortantes e leves para os senhores da guerra, fortaleceram o rosto masculino e violento da divindade.
O uso do ferro na construção de arados e a produção de excedente agrícola masculinizaram a agricultura e fortaleceram o surgimento de classes sociais. A Deusa começava a ser um problema para o mundo tão violento, excludente e masculinizado.
Acho que, à luz da presença da Deusa na história da humanidade, na patnership do mundo da pequena agricultura tribal (relação de iguais até 4.000 anos aC, segundo R. Eisler), devemos reler o pretexto que deu origem a Gn 2,4b–3,24.
De luas, cobras, mulheres e tamareiras:
esquecer disso foi o nosso maior pecado [...]
Normalmente considera-se o texto de Gênesis 2,4b–3,24 escrito entre o reinado de Davi e Salomão.
Deve ter sido aquele um tempo de “pax romana”, de uma certa segurança política. Este relato deve ter sido escrito antes da destruição de Samaria e do Reino do Norte, em 722 aC.
No seu reinado, Salomão fez aliança com outras nações, especialmente com o Egito e Tiro. Isto fortaleceu ainda mais uma situação de grande variedade cultural e religiosa. No reinado de Salomão foram se fortalecendo a opressão e o tributo. Também por estes motivos o reinado salomônico foi um período de auge da construção, do comércio, da atividade intelectual e do crescimento urbano e militar a favor de poucos.
Davi e Salomão conquistaram os cananeus, mas nem todos se converteram completamente ao javismo monoteísta. O mesmo Salomão não foi de firme fé javista, teve uma esposa pagã, e no templo se celebravam cerimônias pagãs com muitos símbolos da serpente.
O sumo sacerdote Sadoc tinha sido anteriormente, na Jerusalém jebusita, sumo sacerdote do templo desta cidade cananéia. É também possível que Davi, depois de ter conquistado a cidade jebusita de Jerusalém, tivesse permitido que Sadoc introduzisse o símbolo da serpente na religião israelita.
Com o governo do rei Ezequias (715-687 aC) houve uma reforma religiosa em Judá, precursora da reforma de Josias, um século depois. Foram afastadas as práticas estrangeiras introduzidas pelo rei anterior, Acaz, e foram removidos vários objetos de culto por muito tempo associados pelo povo ao javismo. Nesta reforma de Ezequias foi removida a imagem de bronze de uma cobra que tinha fama de ter sido feita pelo próprio Moisés e que fora colocada no templo destes tempos imemoráveis.
Em 2Rs 18,4 está escrito: “Ezequias fez o que Javé aprova, seguindo em tudo o seu antepassado Davi. Ele acabou com os lugares altos, quebrou as estelas e derrubou os postes sagrados. Despedaçou também a serpente de bronze que Moisés havia feito porque os israelitas ainda queimavam incenso diante dela. Eles a chamavam de Noestã”
Parece, então, que o relato é uma costura, com muitos retalhos de contos e mitos antigos, feita numa época na qual abundavam os símbolos da serpente e se adoravam deuses quanto deusas.
Parece claro, neste período do relato costurado com contos e mitos antigos, que a serpente de bronze feita por Moisés no deserto e que possivelmente foi colocada na Arca da Aliança (serafins?) foi despedaçada pelo jovem rei Ezequias.
A necessidade da centralização do culto num monoteísmo templar começando por Davi, Salomão, Ezequias, despedaçou a serpente, estraçalhou a Deusa, as luas, as árvores sagradas, as bebidas “soma” e os frutos da imortalidade.
No período tribal de Israel (1250-1000 aC), havia lugares de culto, espaços includentes dos muitos jeitos, rostos, culturas e expressões religiosas das tribos.
As tribos estavam congregadas ao redor da mesma experiência de libertação e de defesa da vida, ao redor da aliança com quem era libertador e defensor da vida “Já”. Por ter um sistema tribal, em Israel não havia nem Estado, nem capital, nem um governo central, nem um único lugar de culto, nem um único jeito litúrgico e nem uma estrutura burocrática. Durante o período do tribalismo, Israel não agrediu nenhum outro povo como nação. Naturalmente houve guerras locais, mas sem a expressa intenção de anexar territórios para Israel.
Esta situação mudou drasticamente por volta do ano 1000 aC. O surgimento do ferro não laminado no meio dos filisteus e da ameaça destes para Israel, do boi e do o arado na agricultura, trabalho agora tecnicizado e preponderantemente masculino e produtos de excedente e sobra, provocou o pedido da monarquia.
O movimento profético, na sua maior parte, sempre se demonstrou contrário à instituição monárquica. Não da mesma forma pensavam os sacerdotes, os donos de bois, os donos de terras e de excedentes agrícolas...
A mudança do sistema tribal para a monarquia foi um corte histórico enorme. Os Israelitas tinham que mudar a estrutura social tradicional; necessitam de uma forma de organização política que lhes permitisse organizar-se rapidamente em caso de guerra. A força de Israel tinha que transcender a lealdade tribal ou territorial e não podia depender dos laços familiares.
O novo governo tinha que ir além do bet’ab e bet’em (casa tribal do pai e da mãe). O conceito de “rei” permitia ao povo firmar um pacto com o monarca e confiar que ele administrasse a justiça junto com os sacerdotes.
A justiça então, neste tempo de corte histórico, entre a era do bronze e do ferro, adquiriu caráter abstrato. O povo deixou de se encontrar em assembléias e conselhos e começou a se relacionar pela mediação do rei na resolução de conflitos.
É claro que esta mudança na organização política só podia acontecer mediante uma drástica reforma das práticas religiosas e da organização social do povo.
Não teria sentido ter um rei se a descentralização tribal e as muitas faces e jeitos da religião podiam contradizer suas ordens.
Em vista de guerras de expansão, não era possível ter um poder decentralizado e tribal e uma religião das muitas cores, jeitos e rostos da divindade defensora da vida e libertadora.
Era indispensável que o povo obedecesse a um só rei, fortalecido por um só culto!
Na sociedade tribal a divindade, única, libertadora, criadora de vida e de relações includentes, tinha muitos jeitos, cores, rostos... A experiência religiosa do Israel tribal não parece ser nem de onipotência nem de monoteísmo.
No corte histórico monárquico, excludente, de donos de terras e de bois, de senhores das armas e das guerras, de enriquecidos donos de arados e excedentes de produção agrícola, o Deus de Israel tinha que ser forte, masculinizado, onipotente e autoritário.
Tinha que ser um Deus muito mais abstrato e não podia estar sujeito às tribos locais. Se Israel queria ser uma grande nação, tinha que estar unida no culto, ter um único rosto de Deus, autoritário, onipotente, masculino e autocrático.
Parece-me que a “monolatria” podia ser uma ameaça para a nova organização social e religiosa, a monarquia em Israel.
Parece-me que a serpente personifica esta ameaça no relato de Gênesis 2,4b–3,24. Para conquistar sabedoria e imortalidade não podia mais se viver em relação com a natureza, na bet’ab e bet’em, em relações includentes de partilha e de defesa da vida. Sabedoria e imortalidade eram agora fruto da fidelidade e aliança a Javé, e, claro, as normas da aliança e a vontade de Deus seriam interpretados por uma elite de funcionários religiosos.
Este sistema religioso se adequou perfeitamente à centralização do poder da estrutura política. O povo deveria obedecer e confiar numa autoridade religiosa e cada vez mais hierárquica.
É claro que a monolatria, a divindade defensora da vida e libertadora das muitas cores, rostos e jeitos tinha que ser cancelada em Israel. Por isso a serpente virou símbolo do mal e responsável pelos desastres da humanidade. E com a serpente foram massacradas as mulheres que precisavam, com suas crianças, ser excluídas desta sociedade de armas, bois, arados, excedentes agrícolas e de seu Deus onipotente, violento, masculino e autoritário.
A lei do pai, da força e da violência tomava cada vez mais conta da história da humanidade, e a experiência da patnership, de um mundo de iguais, includente e de paz teve sua grande derrota.
Os princípios religiosos do monoteísmo na monarquia de Israel introduziram na história religiosa da humanidade ocidental uma profunda separação entre Deus e o mundo, entre o bem e o mal, entre a razão e a paixão, o céu e o inferno, Deus e o demônio, o espírito e a natureza. Tudo isto marcou e feriu profundamente os corpos das mulheres e suas possibilidades de mergulhar no divino oficialmente.
Estas mudanças teológicas, na passagem de uma sociedade tribal para uma sociedade estruturada ao redor do rei, do único templo, do único culto e do único rosto de Deus, afetaram profundamente as possibilidades sociais das mulheres.
Nós mulheres acabamos sendo excluídas do poder político e religioso. Do ponto de vista material, ninguém tinha a “fotografia” da divindade, ela não era homem e nem mulher, mas se transformou numa divindade masculina que protegia os interesses dos homens na ordem patriarcal e androcrática.
A estória de um rei, um Deus violento, da humanidade da cor do tijolo e de uma Deusa-Serpente [...]
“Quando Lúcia Pelaéz era pequena leu um romance escondida. Leu aos pedaços, noite após noite, embaixo do travesseiro. Lúcia tinha roubado o romance da biblioteca de cedro onde seu tio guardava os livros preferidos.
Muito caminhou Lúcia enquanto passavam-se os anos. Na busca de fantasmas caminhou pelos rochedos sobre o rio da Antioquia, e na busca de gente caminhou pelas ruas de cidades violentas.
Muito caminhou Lúcia, e ao longo de seu caminhar ia sempre acompanhada pelos ecos daquelas vozes distantes que ela tinha escutado, com seus olhos, na infância.
Lúcia não tornou a ler aquele livro. Não o reconheceria mais. O livro cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora é dela” (Eduardo Galeano, A Leitora).
De um forno de tijolos maravilhados tinham nascido. Do útero da cor do sangue da terra tinham sido tirados. Do sonho da Mãe-Lua tinham surgido. Viviam no meio de uma grande roça cultivada como jardim. Uma roça que matava a fome de comida e de beleza. A Mãe-Terra, Pacha Mama, Abya-Ayala, Pindorama, Araucanía fecunda, tinha soprado a vida das suas raízes profundas naqueles corpos da cor do tijolo. As peles cheirando a terra e a terra com o mesmo cheiro de gente. Tinham se olhado e se reconhecido. Uma saudade imensa, vindo ninguém sabe de onde, finalmente encontrava seu descanso e seu sentido, como um rio que desce tortuoso até o abraço manso do mar.
Nesse abraço que cheirava pele e terra, os olhos se encontravam e se perdiam, o respiro se fazia curto e o coração acelerava. As bocas e as línguas entrelaçadas num jogo delicioso de encaixes, de tremores e humores, como as bocas mais profundas...
De um forno de tijolos maravilhados tinham nascido. Do útero da cor de sangue da Mãe-Terra tinham surgido. Se olharam e se reconheceram assim, pela primeira vez, no grande milagre humano dos olhos nos olhos, terra na terra, rosto no rosto, dois azuis no mesmo azul, de frente, ninguém dominado nem oprimido, pele na pele, boca na boca, sexo no sexo...
Por isso em nenhum dos animais tinham encontrado um par, em nenhum dos animais tinham se reconhecido.
Cheiraram-se, lamberam-se, inalando com prazer o perfume da terra, cheiro antigo e vital. Da raiz do solo e do sexo saiu um grito:
Adão!... humanidade tirada do útero cor de sangue da terra.
Amantes de argila molhada em lágrimas e suores de prazer.
A natureza era amiga desta humanidade da cor da terra. Uma árvore plantada no meio da horta/jardim produzia sombra, aconchego, sinalizando a presença de água cristalina e orvalho para refrescar o corpo dos amantes.
As pequenas frutas doces como beijos de amor, acordavam a saudade e o desejo... Do desejo e do prazer partilhados, a visão e a sabedoria. O fruto ou bebida “soma”, doavam o conhecimento do bem e do mal, a capacidade de ter visão, asas de águia para ver a vida com o coração da divindade. Assim era vida, a vida. Assim era prazer, o prazer. Assim era amor, o amor.
Era o tempo da partilha e da vida em abundância. E uma serpente, amiga da humanidade, morava na terra ao redor da árvore de tâmaras.
Era a serpente conhecedora da sabedoria e da humildade, em contínua mudança e conversão, filha da terra e das luas, provedora de vida eterna.
Era o tempo de paz e de olhares se encontrando, rosto no rosto, de frente, entre iguais no cheiro de terra: humanidade – Adão.
E chegou um tempo triste na horta cultivada como um jardim. Um tempo de ferro e de espadas. Tempo de guerras e violências. Um tempo de reis e senhores. Um tempo de desigualdade e fome. Não mais rosto no rosto, nem olhares se encontrando e se reconhecendo.
Foi o tempo da dominação e do estupro. Tempo de acúmulo e da exploração. E a natureza foi ferida e os animais encarcerados. O grande útero da Mãe-Terra foi violentado e a cor do sangue não trouxe mais vida; foi sinal da espada e da morte.
A humanidade-Adão, que tinha nascido de um forno de tijolos maravilhado e do sonho da Mãe-Lua, emudeceu.
Foi a serpente conhecedora da sabedoria e da humanidade que fez a humanidade acordar: “Não acreditem na força da violência e dos donos das armas! Não acreditem nos reis e nos senhores! Tomem da fruta da árvore, tenham força para gritar não, para acreditar na mudança, para tirar do trono os reis poderosos e seus deuses onipotentes e vingativos!” E a humanidade tomou a fruta e comeu. Os olhos se abriram e tiveram coragem de expulsar reis poderosos, sacerdotes opressores e deuses violentos. Tiveram a coragem de ser felizes. Adão, humanidade com o cheiro da terra, a partir daquele dia, chamou-se também com o nome da serpente: hawwah, Eva, Mãe de todos os viventes.
E a vida voltou a ser viva na horta/jardim, o prazer voltou a ser prazer e o amor se fez amor.
Sonho impossível
“Sonhar,
mais um sonho impossível;
Lutar,
quando é fácil ceder;
Vencer
o inimigo invencível;
Negar,
quando a regra é render;
Sofrer
a tortura implacável;
Romper
a incabível prisão;
Voar
no limite improvável;
Tocar
o inacessível chão;
É minha lei,
é minha questão,
virar este mundo,
cravar este chão;
Não me importa saber
se é terrível demais,
quantas guerras terei de vencer,
por um pouco de paz,
E amanhã, se este chão que beijei,
for o meu leito e perdão,
vou saber que valeu delirar
e morrer de paixão;
E assim, seja lá como for,
vai ter fim a infinita aflição,
e o mundo vai ver uma flor
brotar do impossível chão” (Bethânia).
Referências bibliográficas
BRIGHT, J. História de Israel. São Paulo: Ed. Paulinas, 1989.
GALEANO, E. As palavras andantes. L & PM Ed., 1993.
—. Mulheres. L & PM: Coleção L & PM Pocket, 1997.
MESTERS, C. Paraíso terrestre: saudade ou esperança? Petrópolis: Ed. Vozes, 1996.
RESS, M.J. & SEIBERT U. Cuanda. Lene Sjørup editoras, “Del cielo a la terra” ed. Sello Azul, Chile, 1994.
SCHWANTES, M. “História de Israel”, Mosaicos, nº 7, São Paulo, CEBI.
—. Projetos de esperança – Meditações sobre Gn 1-11. Petrópolis/São Leopoldo: Ed. Vozes/Sinodal, 1989.
Nesta antologia
1. Mary Condren. Eva y la serpente. 1989, p. 209.
2. Marjia Gimbutas & Joan Martes. Mitoarqueologia. 1990, p. 185
3. Merllin Stone. Quando Dios era Mujer. 1976, p. 175.
4. Elayne Pagels. Adan, Eva y la Serpente. 1988, p. 279.
5. Lara Owen. Seu sangue é ouro. Ed. Rosa dos Tempos, 1994.
6. M. Esther Harding. Os mistérios da mulher. Ed. Paulinas, 1985.
7. Mary J. Ress. Nunca poderá ser Sacerdote Chiquilla, Con-spirando nº 15/96, Chile, p. 33.
8. Riane Eisler. Il piacere é sacro. Varse: Frassinelli, 1998.
9. Hanne Köhler. La Creatura-di-Terra, Letture bibliche al femmnile. Turim: Claudiana, 1994.
Maria Soave Buscemi
Cx. P. 20
88.502-970 – Lages – SC |