Untitled Document
Província Fraternidades Carisma Franciscano Sefras SAV Missões Multimídia
       São Paulo, 07/09/2008, 18:44          
 
A Missão Franciscana de Angola


Por Frei Atílio Abati

Francisco de Assis, inquieto quanto ao seu futuro, entre sombras, interrogações, dúvidas e incertezas, descobre enfim sua vocação e missão, aos 26 anos de idade, em 1208. A inspiração lhe adveio do Evangelho de Mt 10,5 ss onde se narra o envio dos discípulos pelo mundo. E Francisco, que ainda não havia atinado o que Deus queria dele com o vigoroso apelo que o Cristo de São Damião, em 1205, que lhe fizera: "Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja, não vês que ela está em ruínas"? - uma luz lhe invade o coração e sente dentro de si que Deus precisava dele. Assim, no despojamento, na pobreza e numa vida itinerante e missionária põe-se a caminho a serviço do Senhor. Em 1212 deixa a Itália e vai para além-fronteiras, no Egito, no continente africano, para encontrar-se com o sultão, não para converter, impor ou impor-se, mas para criar um clima de aproximação, de diálogo e boa vizinhança. Entendia Francisco que não seria através das armas dos Cruzados que se provocaria a reconciliação ou a conversão.

É neste espírito missionário que em 1990, assumimos a Missão em Angola, para a exemplo de Francisco, compartilharmos, como diz o Concilio Vat. II das "alegrias e esperanças, das angústias e esperanças" deste nosso povo angolano martirizado por uma guerra fratricida há 26 anos.

Lá estão 12 frades, a exemplo dos 12 discípulos do Cristo, uns na Província de Malange, no interior e mais tarde, também em Kibala, que infelizmente, devido à guerra, esta Missão foi invadida, atacada e saqueada. E por circunstâncias graves tivemos de abandonar, às pressas, em 1998 esta Missão com suas 139 aldeias. Abrimos uma nova Missão em Luanda, capital. Fomos convocados a conviver junto a este povo negro e sofrido para promover a dignidade humana, dar-lhe condições de vida, combater a fome, a ignorância e as doenças e levar-lhe o conforto da fé e da esperança. Este povo sacrificado pela guerra, é um povo simples, religioso, acolhedor, bom e hospitaleiro.

Na capital há 4 milhões de habitantes, ao passo que em 1975, antes da Independência, a população oscilava entre os 300.000. Por que este inchaço? Devido ao grande êxodo do povo do interior, que busca na capital mais segurança, já que o grosso do exército do Governo lá está: um milhão de militares, num país cuja população do país é de 13 milhões. Em Luanda estão os refugiados de guerra, sem emprego, sem uma infra-estrutura adequada para suportar tamanha multidão. Falta energia, falta água, falta saneamento básico, as ruas quase todas de terra, faltam indústrias, faltam hospitais....As terras devido à guerra, às minas e a falta de recursos tornam-se quase improdutivas. Tudo vem de fora, e assim o custo de vida é altíssimo.

Outra Missão localiza-se em Malange, no interior, há 430 km da capital. O acesso a esta Província com 120.000 habitantes é difícil. Por via terrestre, somente uma vez por semana, cujo trajeto leva 04 dias. Há a necessidade semanalmente de uma coluna militar para dar cobertura ao comboio de caminhões e carros que se dirigem para Malange. As matas são vasculhadas por rigorosa varredura militar, para não se cair em emboscadas e a rodovia, com o asfalto em péssima conservação, é examinada por causa das minas. O aeroporto desta Província é um reflexo da guerra: todo danificado pelos bombardeios. Não possui vidros, janelas ou portas, nem instalações sanitárias. Malange está numa área plana, bonita e com traçados modernos. Ruas largas, pistas duplas do tempo dos portugueses, jardins.. Atualmente a cidade prima pelos buracos e má condições. As casas melhores estão envelhecidas e as habitações nos bairros: todas de blocos de barro com capim, cobertas de capim ou zinco. A Província toda não possui energia, as ferrovias não funcionam, não existem coletivos.

Organismos de fora como a PAM (Programa de Alimentação Mundial), a Caritas Internacional e ONGS (organizações não governamentais) enviam gêneros alimentícios, roupas, remédios e ajuda financeira para projetos agrícolas. Tudo está confiado à Igreja, que faz o atendimento à população. Nossa Missão, entre outras tarefas, prepara as lavras (lavouras) para o cultivo do milho e mandioca, base da alimentação deste povo. Mantém-se também hortas comunitárias. Cada família recebe uma área de terra para o plantio, inclusive a semente. Responsabiliza-se pela sua plantação. No entanto, em tempo de penúria, ou seja, de fome, a plantação é prejudicada, uma vez que a família se socorre das ramas da mandioca, das folhas do milho ou do feijão para se alimentar.

As aldeias estão situadas ao longo das estradas ou embrenhadas nas matas. Em certas regiões, devido às minas, o acesso à população é impossível. Há moradores que andam 70 km a pé, até a aldeia mais próxima onde o missionário chega, para fazer um batizado, casamento ou participar de uma missa. O missionário por falta de estradas e pontes não tem acesso a todas as aldeias, que são mais de 250. Não raro, numa aldeia convivem duas ou até três tribos diferentes.

Os casebres desta gente não possuem mais que 4 ou 6 metros quadrados. Todos de "sapé" ou de pau a pique, entremeados com barro, cobertos de palha e chão batido. Uma ou duas divisórias: cozinha e quarto. Promiscuidade para se dormir. Na cozinha, à noite, abrigam-se o cabrito e a galinha. As capelas também são de palha ou de pau a pique. Ultrapassam a simplicidade franciscana!

Os que visitam as aldeias são os missionários e as missionárias, sempre recebidos com festa pelo canto e pelas palmas. É um povo acolhedor. A participação na liturgia é uma manifestação de fé: cantam, dançam, assobiam e vibram. É maravilhoso.

Longe da cidade, seus produtos: carvão e lenha, são levados às costas, sobretudo pelas mulheres e adolescentes, até às "Praças" - feiras - mais próximas:10 a 20 km, para receber em troca um a dois dólares. Outros, submetem-se a pagar o frete. Há um único caminhão a transportar a lenha ou o carvão.

Nas estradas nota-se um verdadeiro formigueiro de vai e vem de pessoas, com seus produtos. Com o minguado dinheiro que recebem da venda, compram açúcar, sal, café, óleo..., cuja porção não excede a 30 ou 50 gramas. Chegam a adquirir até um dente de alho ou um quarto de cebola. É a luta pela sobrevivência deste povo primitivo e resignado. Não conhece outra realidade senão esta.

Este povo do interior, sobretudo, é um povo maltratado pela guerra, acossado pela fome, martirizado pela dureza da vida, atormentado pela insegurança existencial, mas é também um povo sustentado pela vontade de viver e purificado pelo sofrimento cotidiano.

Frei Atílio Abati, ofm. - coordenador do Departamento de Evangelização Missionária em Angola - África.

>>
galeria alem-fronteiras como ajudar Reportagens Especiais missao em angola missão no marrocos projeto africa carisma franciscano missionario noticias
   
Provincia
[Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil] - Copyright © 2008 Franciscanos.org.br
Todos os direitos Reservados.