Santíssima Trindade - Retábulo séc. XVII - México (anônimo)Passou mais um ano. E, de novo, chegou o Natal. Em nossos corações, o sentimento de melancolia, e porque não, de tristeza. Os fatos e as notícias da guerra, do medo, da insegurança e da morte, espalharam no mundo dos homens uma nuvem escura e ameaçadora. No entanto, 'sonhar é preciso'! Porque o sonho é "vírus" de esperança.

O Natal é este rito de esperança; é sonho de um mundo pacificado onde vigora a reciprocidade: pessoas e povos se aproximam, se respeitam, se aceitam, mutuamente se reconhecem, e até mesmo se amam, porque se descobrem semelhantes, solidários e irmãos.

O presépio é a expressão poética do Natal, este sonho universal e eterno da humanidade, que continuamente anuncia: " paz na terra" ! No entanto, o próprio Deus experimentou a rejeição e a exclusão, a miséria e a fome, a dor e o sofrimento, a solidão e a morte. Por isso, o Menino, o Filho de Deus, continuamente volta e, a cada ano, assume nossa fragilidade e vive essa contradição da vida humana. Porque o amor de Deus não se deixa vencer; porque a vida é mais forte que a morte; porque o sonho não pode acabar.

O sonho de paz do Profeta Isaías vislubrava um tempo em que não haveria mais guerra entre as nações; em que as espadas seriam fundidas e transformadas em arados, e as lanças em foices (2,1-5). Tempo em que Deus "vai tirar o véu de luto que encobre os povos todos, e a mortalha que se estende sobre todas as gentes" (25,7-8). Tempo em "o lobo e o cordeiro habitarão juntos e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos e um menino os poderá tanger; a vaca e o urso comerão na mesma pastagem e juntos repousarão os seus filhotes; o leão comerá palha como o boi;
a criancinha de peito brincará na cova da serpente e no covil das víboras a criança porá a mão. Não causarão mal nem dano algum, porque o conhecimento do Senhor encherá a terra" (11,6-9).

O Natal quer acordar no coração humano esse sonho de paz, porque "nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado: seu nome é 'Príncipe da Paz" (Is 9,5). Precisamos ouvir a lição do presépio: "é de paz que ele fala" (Sl 84,9). A cena e as personagens do presépio falam de encontro: Deus encontrou Maria; os pastores e os reis encontraram um Menino. Nele, descobriram que "amor e verdade se encontram, justiça e paz se abraçam" (Sl 84,11).


Ao contemplar o presépio, possamos experimentar a inquietação que faz o coração sonhar e desejar, procurar e construir a paz. Então, o Natal será realidade em todos os dias do ano.


FREI REGIS DAHER, OFM

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