Na missão de Deus com Maria de José

A contemplação da vida de Nossa Senhora parece ter alimentado toda a vida evangélica de Francisco e Clara. Desde que o Espírito Santo entrou na vida de Maria e ela teve que perguntar "Como vai ser isso?" até situações duras como a do reencontro: "Filho, nós o procuramos há três dias", ela caminhou na escuridão e na dor até a Páscoa, mas também já foi sendo anunciadora desde a visita a Isabel até Caná, até o Calvário. Foi por enxergar tão claramente como Maria estava sendo o Povo de Deus em sua aventura da busca de Deus que Francisco deve ter exclamado: "Virgem feita Igreja!"

De fato, Maria foi a primeira criatura humana a acolher o Reino da salvação. Ficou cheia de graça e transbordante de todas as virtudes da Boa Nova. Ela tinha que ser toda especial para Francisco e Clara, quando a viram rica de "todas as santas virtudes que, pela graça da iluminação do Espírito Santo, são difusas no coração dos fiéis e que, infiéis como somos, tornam-nos fiéis a Deus". Essa é a base de toda a sua missão, pois ensina tanto a acolher o Reino de Jesus como a fazê-lo nascer no coração de cada um.

Uma das originalidades de Francisco foi lembrar Nossa Senhora como uma missionária batendo estradas com Jesus e os apóstolos. Escreveu na Regra não-bulada: "Quando for preciso, que vão pedir esmola. Nem se envergonhem disso, mas antes recordem que nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho e Deus vivo todo-poderoso... foi pobre e peregrino, e vivia de esmola, ele mais a bem-aventurada Virgem e seus discípulos" (RnB 9,3-5).

De fato, ele a via como uma espécie de duplo feminino de Jesus: pobre como ele, mas também senhora e rainha como ele era rei e Senhor. Comprendeu que, sem Maria, a redenção teria sido Impossível.

Ela, nossa Irmã, representou toda a humanidade acolhendo a Redenção. E já o acompanhou na kênose, o fato determinante para Francisco e Clara: "Ele que era rico, acima de tudo, quis escolher neste mundo, junto com beatíssima Virgem, sua mãe, a pobreza" (2CtF 5).

Ser apóstolo não é só levar Jesus Cristo onde ele não está, mas também - e principalmente - saber descobrir e proclamar a presença do Verbo onde ela se tornou manifestação clara de adesão ao Reino.

Francisco foi inspiradamente apostólico quando escreveu a Clara e a suas irmãs: "Como, por Inspiração de Deus, vocês resolveram tornar-se filhas e servas do altíssimo e soberano rei, Pai dos céus, e porque se deram como esposas ao Espírito Santo adotando uma vida conforme à perfeição do santo Evangelho.." Nessa carta ele usou para as irmãs os mesmos qualificativos que reservava a Nossa Senhora na sua antífona do Ofício da Paixão.

Deve ter sido por essa maneira de considerar as irmãs integradas com a atitude de Maria e Maria tão envolvida no mistério da salvação que Francisco pediu que elas não jejuassem nas festas marianas (Cf. 3Ctln 33-36). Ele mesmo comemorava essas festas e "em Maria, depois de Cristo, depositava toda a sua confiança; por isso a constituiu advogada sua e de seus irmãos" (LM 9,3).

Os filhos de Francisco e Clara continuaram essa tradição e produziram, através dos séculos, algumas das mais significativas homenagens à Mãe de Deus.

A Imaculada Conceição já foi defendida por seus grandes mestres muitos séculos antes da proclamação do dogma. Acredita-se que o Ângelus teve origem no próprio Francisco e foi amplamente difundido pelos franciscanos, que seriam responsáveis inclusive pela "Santa Maria", a segunda parte da saudação angélica.

A tradição guardou jóias marianas como o "Stabat Mater" de Jacopone de Todi e as homenagens de toda uma galeria de grandes pregadores de Nossa Senhora. Foi ela quem sempre deu forças para anunciarem a expansão dessa família de que era Mãe a toda a humanidade.

Texto do livro "Olhos do Espírito", de Frei José Carlos Pedroso, OFMCap, publicado pelo Centro Franciscano de Espiritualidade de Piracicaba (SP).