JOÃO PAULO II NOS DESAFIA COM A MENSAGEM DA CRUZ

George Weigel

Cinco dias antes de deixar a Polônia para o conclave que o elegeria papa, o cardeal Karol Wojtyla foi a uma festa pelo 20º aniversário de sua consagração como bispo. A casa dos amigos Gabriel e Bozena Torovski, na Cracóvia, era decorada com fotografias de 25 anos de caminhada e outras atividades com eles e outros amigos, que o chamavam de "Wujek" - tio em polonês -, nome de guerra que lhe deram quando era um jovem seminarista na Polônia stalinista. Sobre os retratos havia uma faixa na qual se lia "Wujek vai continuar sendo Wujek" -, exatamente o que Wojtyla havia dito aos amigos quando voltou de uma canoagem em 1958 com a notícia de que havia sido sagrado bispo.

Mais de um quarto de século depois, o homem que o mundo conhece como João Paulo II ainda é Wujek. Durante as semanas de sua doença, todo tipo de questão foi levantada: o papa já pensou em abdicar? O que aconteceria se ele ficasse gravemente incapacitado? As questões não são desinteressadas. Mas passam pelo ponto mais constrangedor neste drama. O mundo está vendo um homem viver intensamente, até o fim, uma das convicções que moldaram sua vida e seu impacto na história: a de que a luz da Páscoa é sempre precedida pela escuridão da Sexta-Feira Santa, não só no calendário, mas no reino do espírito.

A cultura ocidental contemporânea não tem bagagem para agüentar o sofrimento. Nós o evitamos se for possível. Abraçar o sofrimento é um conceito estranho a nós. E mesmo assim o sofrimento abraçado em obediência aos desejos de Deus está no coração do cristianismo. O Cristo, cuja paixão mais de um bilhão e meio de cristãos celebram nesta semana, é retratado nos evangelhos como alguém que alcança e abraça o sofrimento como seu destino, sua vocação - e é vingado naquele auto-sacrifício da Páscoa.

É isso que João Paulo II, não um velho teimoso, mas um dedicado discípulo cristão está fazendo: dando o testemunho de que abraçar o sofrimento em obediência e amor pode ser redentor.

Há alguns dias em Roma, perguntei ao cardeal nigeriano Francis Arinze o que essa fase do pontificado de João Paulo II significava. Ele sugeriu que, do hospital, o papa estava pondo algumas questões sérias na agenda mundial - o sofrimento significa algo ou é um absurdo? Contribui em algo para o restante de nós? Para o cardeal, o exemplo de João Paulo II oferece uma resposta: sim, o sofrimento pode ter um significado. Ele nos lembra que não podemos controlar nossa vida e invoca uma compaixão que nos enobrece. Sua luta aberta para sobreviver ao compromisso que abraçou em 1978 deve lembrar a todos que este homem é, antes de mais nada, um pastor cristão que vai nos desafiar com a mensagem da cruz - a mensagem da Sexta-Feira Santa e da Páscoa - até o fim.

Como Hanna Suchocka, ex-primeiro ministro polonês, disse recentemente: "Ele está sobrevivendo à sua via-crúcis". Devemos reconhecer isso pelo que é e ser gratos pelo exemplo.

George Weigel - The Washington Post
(O Estado de São Paulo - pág. A13 - 25.03.2005)

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