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A
passagem de Maria para a Eternidade |
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Frei Clarêncio Neotti, O.F.M.
Ao longo da história, tanto os teólogos
quanto a piedade popular se dividiram
na opinião se Maria morreu de fato
ou se apenas adormeceu e foi levada
ao céu em corpo e alma pelos anjos.
A basílica em sua honra em Jerusalém
chama-se exatamente "Dormitio Mariæ"
e um dos documentos mais antigos que
temos sobre os últimos dias de Maria
também leva esse título. O dogma da
Assunção de Maria, proclamado em 1950,
não dirimiu a questão, afirmando que
"a Imaculada Mãe de Deus, a sempre
Virgem Maria, terminado o curso de
sua vida terrestre, foi assunta em
corpo e alma à glória celeste". O
corpo de Maria, elevado ao céu, podia
já ser um corpo glorificado, como
o de Jesus após a ressurreição.
Tanto os que falam em morte natural
de Maria quanto os que falam em sono
profundo da Mãe de Deus têm seus bons
argumentos. Estes últimos argumentam
com sua conceição imaculada. Se a
morte é conseqüência do pecado, Maria,
sem pecado e sem sombra de pecado,
não podia morrer. Lembram também que
a imortalidade é uma característica
da Igreja. Ora, sendo Maria o protótipo
da Igreja, bem podia Deus realizar
nela o que fará com a Igreja no final
dos tempos, ou seja, ressuscitar os
que morreram e "arrebatar com eles
para as nuvens, ao encontro do Senhor
nos ares os que ainda estão vivos"
(1Ts 4,16-17).
Os que afirmam sua morte natural lembram
que também Jesus era imaculado e santíssimo
e passou pela morte, destino de todos
os filhos de Adão, porta e parto necessários
para a imortalidade. Maria é o modelo
de todos os resgatados pelo Cristo
através de sua morte e ressurreição.
Também Maria, que se uniu a Ele no
Calvário, ter-se-á configurado a ele
na morte e na ressurreição. Assim
como ela, sem pecado, passou por dores,
angústias, desconfortos, perseguição,
também terá passado pela prova maior:
a morte corporal. Sem que com isso
se afirme que seu corpo sofreu a decomposição.
As duas tradições são antiqüíssimas.
Em nossos dias prevalece a tese de
que Maria passou pela morte à imitação
de Jesus. Mas é ainda e continuará
a ser uma questão em aberto. Também
não temos certeza de onde e quando
Maria encerrou sua passagem terrena.
Sabe-se que, na dispersão dos Apóstolos,
Maria acompanhou João, como recomendara
Jesus na Cruz (Jo 19,16-27). O Apóstolo
João teria migrado para Éfeso, hoje
sudoeste da Turquia, uns 600 km ao
sul de Istambul. Maria teria findado
seus dias em Éfeso. Esta tradição
tomou corpo a partir do século XVIII
com as visões da camponesa alemã Ana
Catharina Emmerich (1774-1824) que,
em sonho ou numa revelação, "viu"
no alto da montanha popularmente denominada
"Colina do Rouxinol", distante 7 km
da antiga cidade portuária de Éfeso,
a capela Meryem Ana Evi (Casa
da Mãe de Deus), que seria a casa
em que Maria teria terminado seus
dias. Catharina viajou para lá, encontrou
tudo como "vira" em sonho e começou
a restaurar a antiga capela-casa de
Maria, que até hoje os peregrinos
podem visitar. Mães turcas, católicas
e muçulmanas visitam continuamente
aquele santuário, para terem um bom
parto e sorte na educação dos filhos.
No entanto, não há documentos históricos
que favoreçam essa tradição e as escavações
arqueológicas mostraram que a capela
é certamente posterior ao século VI.
Uma outra tradição faz Maria terminar
sua jornada terrena em Jerusalém,
no Monte Sion e ser sepultada no lugar
onde se encontra hoje a Basílica da
"Dormição de Nossa Senhora", na região
do Vale do Cedron, local tradicional
de sepulturas. Os estudos arqueológicos
e outros indícios fazem remontar o
túmulo aos tempos romanos, ou seja,
ao primeiro século da nossa era. Além
disso, foram encontradas grafites,
escritas pelos primeiros cristãos,
que iam honrar o local do túmulo de
Maria. Foram encontradas também algumas
sepulturas judeu-cristãs, que ladeiam
a câmara mais interna. Temos ainda
a tradição oral de dois mil anos:
os cristãos sempre foram lá venerar
o túmulo da Mãe de Deus. E temos,
além disso, alguns relatórios de peregrinos
(famoso é o de Etérea), que por lá
passavam e registravam suas impressões
sobre a visita e a liturgia celebrada
no local. Maria teria voltado de Éfeso
para Jerusalém, onde moravam seus
parentes, quando o Apóstolo João retornou
para participar do primeiro Concílio
Ecumênico da Igreja (At 15,6-29).
Na década de 60, quase ao mesmo tempo
em que o franciscano Frei Bellarmino
Bagatti fazia as escavações científicas
junto ao túmulo de Maria, foi descoberto,
na biblioteca do Louvre, em Paris,
um documento em grego que possibilitou
chegar a outros documentos, sobretudo
a três, muito próximos entre si tanto
na informação quanto no estilo. São
eles: De Transitu Mariæ (em
língua etíope), Dormitio Mariæ
(em grego) e Transitus Mariæ
(em latim). Estes textos devem ser
datados do final do segundo século
até começos do século quarto. Os três
textos concordam em que Maria tenha
terminado seus dias em Jerusalém.
A última referência bíblica a respeito
de Maria a temos nos Atos, ainda quando
os Apóstolos estavam no Cenáculo,
depois da Ascensão de Jesus: "Todos
permaneciam unânimes na oração com
algumas mulheres, Maria, Mãe de Jesus,
e seus irmãos" (At 1,14). Mas até
o século VIII o texto grego "Dormitio
Mariæ" encontrava-se no final
da bíblia, depois do livro do Apocalipse.
Hoje esse texto é considerado apócrifo,
isto é, não pertencente ao conjunto
dos livros da Sagrada Escritura, portanto,
não revelado. Mas de todo respeito.
Podia-se perguntar por que a Igreja
não aceitou esse livro como revelado.
Porque seu estilo é todo diferente
e, no IV século, quando se fixou a
canonicidade dos livros da Escritura,
esse livro tinha muitos acréscimos
heréticos e tendenciosos contra a
divindade de Jesus, contra a maternidade
divina de Maria, contra a Santíssima
Trindade, e já não se sabia mais qual
era o texto original. O texto descoberto
agora é anterior a esses acréscimos
e, por isso, merece algum crédito
e, diria, alguma veneração.
Segundo este texto e segundo o texto
intitulado "Transitus Mariæ",
teríamos os seguintes passos: Maria
recebe o anúncio de sua morte e garantia
de amparo no momento da passagem;
os Apóstolos se reúnem milagrosamente
em torno de seu leito; Maria morre
à semelhança de todos os seres humanos;
durante o funeral, os judeus promovem
uma manifestação hostil; depois do
sepultamento, segue-se a ressurreição,
sendo levada ao céu. Não podemos esquecer
que não estamos num terreno de fé.
Mas de piedosa crença popular. Na
verdade, os últimos dias de Maria
e sua passagem para a eternidade estão
envoltos num véu de mistério que dificilmente
a história ou a teologia conseguirão
desvendar.
Que idade teria Nossa Senhora quando
terminou seus dias na terra? Há um
texto antigo que diz: "Dois anos depois
de Cristo ter vencido a morte e subido
ao céu, Maria começou a chorar no
refúgio de seu quarto", ou seja, Maria
passou a viver seus últimos dias.
O texto passa a contar esses últimos
dias, inclusive sua assunção ao céu.
Se Maria concebeu Jesus aos 14 anos,
deu à luz aos 15 (idade normal naquele
tempo na Ásia Menor para casar) e
Jesus morreu em torno dos 33 anos,
Maria teria 50 anos ao morrer. Sabe-se
que era a idade média de vida das
mulheres naquele tempo e naquela região.
Há uma tradição, que vem dos primeiros
tempos da Igreja, que conta que, chegado
o momento do trânsito de Maria, Jesus
teria vindo buscá-la, acompanhado
dos Arcanjos Miguel e Gabriel. O Arcanjo
Miguel foi o anjo vencedor de Lúcifer
no paraíso terrestre (Ap 12,7-9) e
o vencedor do dragão de sete cabeças,
que quis devorar o filho da mulher
revestida de sol (Ap 12,3-5). No passamento
de Maria, hora mais de triunfo e vitória
do que de morte, retorna, na piedade
popular, o grande Arcanjo, como que
para re-arrumar o paraíso perdido
e introduzir nele, agora celestial,
a humanidade inteira, representada
em Maria Imaculada, virgem, esposa
e mãe, Mãe de Deus. Retorna Miguel,
o protetor da Igreja contra Satanás,
para acompanhar na entrada da glória
aquela que é o protótipo da comunidade
cristã redimida e santificada.
Retorna também, na piedosa crença
popular, com o Cristo glorioso, o
Arcanjo Gabriel, o embaixador de Deus
na Anunciação (Lc 1,26), a testemunha
da escolha da jovem Maria de Nazaré
como Mãe do Filho de Deus, o Messias
Salvador. O Arcanjo, presente no início
da história da salvação trazida pelo
Cristo e na qual Maria se envolvera
cem por cento, retorna no momento
em que ela termina sua missão e seus
dias na terra, entra gloriosa no seio
da Trindade para ser, no tempo e na
eternidade, a Mãe da Igreja, a terníssima
Rainha do Céu e da Terra.
Maria esteve associada a Jesus a vida
inteira (de fato, os teólogos a chamam
"Sócia de Cristo"). Associada no corpo,
fazendo uma unidade com ele. Associada
na missão redentora a ponto de ser
chamada "Mãe da Redenção". Associada
na morte e associada por toda a eternidade
na glória. Passando pela morte, Maria
tornou-se para a humanidade a "feliz
porta do céu, para sempre aberta".

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