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Primeira
Parte
Frei Vitório Mazzuco
Filho
Esse foi o tema pedido para
o primeiro dia do 6º Retiro
Franciscano. A espiritualidade
franciscana é uma espiritualidade
de encanto, de admiração,
de apaixonamento, de sensibilidade,
de percepção.
São características
que vão determinando
essa espiritualidade tão
fontal (que dá origem),
tão rica, que há
oitocentos anos reúne
uma família que respira
o mesmo espírito.
Francisco, mais do que um personagem
medieval, mais do que um santo
cristão e católico,
mais do que filho de Pietro
Bernardone, é um momento
dentro de nós. Ele é
a expressão cristalina
de todas as virtudes que nós
sonhamos. Por isso, dizemos
reencantamento.
O mundo precisa de Francisco.
Precisa de Francisco porque
ele mostrou para nós
que é possível
estar na vida sem passar desatento
por ela; que é possível
estar no reencantamento de todas
as criaturas e de todas as pessoas.
Francisco é a presença
da louvação, do
êxtase, da gratidão,
da gratuidade. Tem os olhos
abertos para ver que, se existe
esse mundo de criaturas, é
preciso haver o Cântico
das Criaturas. E por isso criou
uma espiritualidade fontal,
próxima, caseira.
A espiritualidade de Francisco
é como um pão
caseiro: nós colocamos
a mão na massa e vamos
moldando e trabalhando até
encontrar o sabor que tem de
ser saboreado. Ela não
é uma coisa complicada.
É alegria de estar juntos,
o prazer de se conviver, de
se encontrar, de se relacionar.
Se existe algo característico
na espiritualidade franciscana
é que ela une espírito
e afeto. Para ela, espiritualidade
e afetividade não se
separam. Por isso, Francisco
revoluciona a sociedade e a
eclesialidade da época.
Religiões, muitas vezes,
têm o discurso do sagrado
e do eterno, mas negam aquilo
que o humano tem de mais sagrado
e eterno, que é o seu
afeto.
Muitas religiões passaram
séculos dizendo não.
Religião que diz "não"
com muita frequência,
não pode ser coisa boa.
A espiritualidade de Francisco
entra na religiosidade dizendo
um sim à vida,
trazendo o canto da louvação:
"louvado sejas meu Senhor
por todas as tuas criaturas.
Altíssimo, Onipotente
Bom Senhor".
É preciso ver e admirar
a bondade presente em todas
as coisas. A vertente da bondade,
do acolhimento, da simpatia,
da alegria, mostra a dignidade
e a beleza do humano e de todas
as coisas.
Francisco não é
complicado. Nós, pós-modernos
e filhos e filhas da modernidade,
é que complicamos mais
a vida, porque nós passamos
de um modo desapercebido por
todas as experiências.
Nós vamos perdendo o
fervor da experiência,
o fervor das palavras, a alegria
de estar juntos e, às
vezes, não percebemos
as coisas.
Por exemplo, se Francisco estivesse
aqui, ele já nos teria
apresentado um irmão,
um irmão muito querido.
Está aqui: o ARLINDO.
Alguém viu o Arlindo?
O ar lindo entrou pela janela.
Nós enchemos os pulmões
e pudemos dizer: "como
é bom respirar o ar desse
lugar. Louvado sejas meu Senhor
pelo ar lindo!"
Se Francisco estivesse aqui,
ele teria feito, no silêncio
do coração, uma
prece assim: "Louvado sejas
meu senhor pela cadeira, meio
apertadinha, anatomicamente
não muito assim boa,
mas muito obrigado porque ela
presta uma bondade, um serviço
imenso para o meu corpo".
Quem de nós agradeceu
a cadeira hoje? (todo mundo
diz não) Nem eu.
E a irmã água?
Que de manhã nos encontramos
com ela na torneira, no chuveiro,
lavamos o rosto, o corpo, as
remelas dos olhos, escovamos
os dentes. Quem de nós
lembrou de agradecer pela água,
tão pura, levinha, aqui
no poço, bem ao lado
desta sala?
Então, a espiritualidade
de Francisco é a espiritualidade
da convivência, do relacionamento.
É não passar de
um modo distraído pela
vida. Então, isso é
reencantar a vida, porque reencantar
significa estar junto.
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