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Décima
Parte
Frei Vitório Mazzuco
Filho
Recolher significa acolher novamente, trazer novamente para a fecundidade pessoal. Essa é a dimensão contemplativa. Francisco ia para as cavernas, para os bosques, para o silêncio das celas, para os lugares mais bonitos.
Ele escolhia os lugares mais bonitos, porque essa é a estética franciscana. Eu busco a harmonia externa para que ele influencie a minha harmonia interna. Porque diante uma paisagem linda é impossível não se enamorar. Diante da grandeza e da beleza do outro, da outra, é impossível não se apaixonar.
E muitas vezes nós não percebemos. Então, nós precisamos parar. Essa é a dimensão contemplativa. Eu dizia que Francisco ia para as cavernas da solidão. Ia para as cavernas para o mundo oriental, para o mundo da antiguidade, para o mundo dos padres da Igreja, para o mundo dos filósofos e pensadores da antiguidade.
Ir para a caverna é a mesma coisa que voltar para dentro do útero da mãe. Ir para dentro do ventre. Nascer novamente. E daí sair novamente para a luz. Às vezes, temos medo da solidão porque tememos o encontro com a gente mesmo.
O parto mais dolorido é a gente dar a luz a si mesmo. Dói. Mas é daí que sai uma pessoa transfigurada e transformada. A Legenda dos Três Companheiros, no capítulo 3, no parágrafo 2, fala que Francisco foi, um dia, com um camponês para as cavernas. Francisco entrou e ele ficou fora. E o camponês diz: quando ele saiu, era um outro homem.
Então, quando nós aprendemos a viver o nosso tempo do kairós, o nosso tempo oportuno do recolhimento, você pode dizer: eu mudei.
O nosso pai está chamando cada um de nós, filhas e filhos, para um grande encontro. Ele chama: venha, vem. Então, a contemplação é uma grande convocação, um chamado. É você voltar novamente para a casa do Pai e para a casa da Mãe. E dizer: enfim, cheguei.
O deserto é a caverna da solidão. O encontro com o silêncio, com a calma. Sentir a poesia dos próprios passos. Fazer como Francisco: caminhar na relva, nas pedras, sentindo com reverência que tudo estava a seu serviço, tudo ajudando ele se acalmar.
Uma vez perguntei para um grande
mestre franciscano como é que
ele entendia a oração franciscana?
Ele disse: faça um acróstico
da palavra ORAR.
O - Olhar interior
- Olhar para dentro. Nós olhamos
muito para fora, sobretudo para
a vida dos outros. Olhar para
dentro de si mesmo. Senhor,
quem sois vós, quem sou eu.
Essa é uma oração contemplativa
franciscana. Senhor, que queres
que eu faça. Meus Deus e Meu
Tudo. Isso é olhar interior.
R - Refletir
- Significa reflexão. Flexão
significa dobrar-se, inclinar-se
profundamente. Refletir significa
inclinar-se novamente para dentro
de si mesmo, para dentro do
seu pensamento, para o fervor
das palavras. Essa é a reflexão
franciscana. E aí você reflete,
porque quando você vai para
dentro de si mesmo, você vai
para dentro de sua luz. E deixa
transparecer uma pessoa iluminada,
que reflete. Mas a luz tem a
sua energia lá de dentro. Uma
vez perguntaram para uma senhora
que na sua idade avançada rezava
profundamente o terço. E o teólogo
chegou perto dela e perguntou:
o que a senhora está fazendo,
só para provocá-la. E ela disse:
"estou seguindo o fio da oração".
E ele falou: o quê? E ela falou:
"O senhor não sabe, não. Nunca
viu um fio de energia elétrica.
Tem o fio, mas a energia está
dentro". Então, refletir significa
buscar a energia que está dentro.
A - Afeição
- Afeto, afetividade, ser afeiçoado.
Sentir, saborear, sentir o sabor
das palavras. É preciso saborear
as palavras. Se a gente experimentar
saboreando as palavras. Não
é lindo? Aquele momento maravilhoso
da dor, do abandono, você dizer
assim: Salve Rainha, Mãe de
Misericórdia, Vida, doçura,
esperança, chorando e gemendo
neste vale de lágrimas e sair
dali para o vale das graças.
Então, a oração tem que ser
com afeto.
R - Resolução prática
- Transformar a inspiração de
uma oração numa obra. Numa prática.
Por isso que São Francisco dizia
para os frades: eremitério não
é para ficar, é para sair. Ele
queria que nós nos recolhêssemos
para dentro do eremitério e
daí saíssimos para pregar. Essa
é a dimensão contemplativa franciscana.
O deserto é fértil dizia D. Hélder Câmara. O deserto não é seco porque ele tem uma fertilidade do silêncio, do encontro, da sombra, do oásis, da fonte que tem de ser buscada.
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