Décima Primeira Parte

Frei Vitório Mazzuco Filho

Outra questão é muito importante: a Dimensão Educativa.
O franciscanismo é um movimento, que tem oitocentos anos. Uma vez eu falei isso num congresso para franciscanos e franciscanas e fui contestado. "Não é um movimento, não, porque se não fica uma coisa assim, igual ao movimento disso, movimento daquilo, movimento do catecumenato. Não, esses são movimentos de espiritualidade", disseram.

O franciscanismo também é um movimento de espiritualidade, sociológico, antropológico. Ele influencia da Sociologia à Teologia. E influencia a arte, a escultura; de norte a Sul do Brasil. No mundo inteiro, em qualquer feira de antiguidades, vocês vão achar um São Francisco. Não existe Feira de Artesanato hoje que não tenha ele. Por que será?

Então, é um movimento. É viver a intensidade do momento. Esse é um movimento. E Francisco colocou numa dinâmica a Idade Média, que precisava naquele momento daquelas respostas. E, mais do que nunca, hoje ele é atual. Ele é um caminho para que a gente chegue à resposta.

Vamos falar um pouco da dimensão educativa e até peço desculpas porque sei que, aqui, está cheio de professores e professoras. Tem professora com muito mais autoridade que eu para falar sobre isso. Mas é importante que a gente fale. O que significa a dimensão educativa na mística e na espiritualidade franciscana, neste processo de reencantar a vida? Eu vou até pedir licença para nossos irmãos e irmãs da Ordem Franciscana Secular e para a a Teologia de Bragança para repetir um fato que gosto muito e que ajuda a entender o que é essa dimensão educativa dentro do reencantamento da vida, a partir da mística franciscana.

Existe um sábio muçulmano, que faz parte do movimento sufismo. Ele é um dos mestres sufis, os místicos muçulmanos. O mundo muçulmano tem uma mística muito própria muito bonita. E um desses grandes mestres - ele faleceu mais ou menos há oito anos - era muito conhecido pela originalidade do seu ensinamento. Nunca escreveu nada. Não gostava de escrever. Nunca publicou nada. Vocês não vão encontrar um livro sobre ele ou escrito por ele. Também nunca gostava de falar em público.

O nome dele: Nussaldin. Conhecido como mulah, o grande homem. E ele tinha uma originalidade para ensinar, sobretudo, porque o seu ensinamento era surpreendente. Você esperava que ele fosse falar uma coisa e ele vinha por outro caminho, o que surpreendia todo mundo, mas ele chegava onde queria. Tinha muito bom humor e foi também o precursor das pegadinhas. Gostava de pegar o público.

Ele já estava assim com quase 80 anos e os admiradores, seus discípulos, queriam muito ouvi-lo publicamente porque ele ensinava para poucos e pedia multiplicassem os ensinamentos. Mas ele nunca aceitou assessorar um encontro, um retiro. Ele ficava sempre escondido. Era o jeito dele. Até que um dia, de tanto insistir. Falava assim:
- "O senhor está chegando a uma idade bastante avançada, chegou o momento de falar para uma multidão".
E ele dizia: - "Mas, onde, quando, para quem?".
- "Mas existem tantas pessoas que querem ouvi-lo".
- "Se a gente organizar um grupo, o Senhor vai?"?
- Ele disse: "Vou. A esta altura da vida, eu vou".
Fizeram, em Istambul, um Congresso que não tinha nem lema nem tema. Era simplesmente para ouvi-lo. Porque ele era uma coisa tão fontal, tão diferente.

E chegou o dia do Congresso e ele foi. Chegando lá, deram o microfone para ele para falar a mais de 480 pessoas. Então, ele pegou com tranqüilidade, olhou para todo mundo e fez a seguinte pergunta:
- "Vocês sabem o que eu vou falar?".
Ninguém sabia por que não foi anunciado tema nem lema. Então, ele olhou para o pessoa, que estava meia surpresa, e ele repetiu a pergunta:
- "Vocês sabem o que eu vou falar? Quem sabe o que eu vou falar, levante a mão". Ninguém levantou, porque ninguém sabia. E pessoal ficou olhando para ele. Ele olhou para o pessoal e disse:
- "Muito bem, já que vocês não sabem o que eu vou falar, eu não tenho nada o que fazer aqui". E foi embora. Entregou o microfone e saiu.
Os organizadores do Congresso foram atrás dele e insistiram:
- "Mas santo homem o senhor tem que voltar. Essas pessoas vieram de tão longe. Esperaram tantos anos. Querem ouvi-lo, somente ouvi-lo. Vai lá, fala alguma coisa".
Então, ele voltou. Olhou bem tranqüilo para o pessoal, mas repetiu a pergunta: "Vocês sabem o que eu vou falar? Quem sabe o que eu vou falar, levante a mão".
Todo mundo levantou a mão, teve gente que levantou até as duas. E olhou aquelas mãos, todas levantadas e falou assim:
- "Muito bem, já que vocês sabem o que eu vou falar, então eu não tenho nada o que fazer". E foi embora, saiu da sala.
Novamente , a comissão organizadora foi atrás dele e insistiu:
- "Mas Santo Homem, volte. Você tem que dizer alguma coisinha".
Ele voltou. O pessoal já tinha combinado e quando ele voltou, o pessoal falou:
- "Agora, vamos perdê-lo para sempre".
Mas a partir daí, ele disse:
- "É isso que vou falar . Esse vai ser o tema desse encontro, deste fórum, já que vocês querem me ouvir. Ninguém tem nada novo para falar. Ninguém tem uma novidade nenhuma para falar., Mas a nossa função é sempre despertar. Despertar aquilo que já está em vocês".

Esse foi, antes, seu grande ensinamento. Foi isso que quis trazer aqui para vocês. Tenho certeza que não vim trazer nada de novo. Mas o que vim fazer, exatamente, foi sacudir o coração de cada um e de cada uma, naquilo que já está dentro de nós, porque na dimensão contemplativa franciscana, nesse reencantamento da vida é que se forma um santo e uma santa.

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