Décima Quarta Parte

Frei Vitório Mazzuco Filho

Queria chamar a atenção para uma outra coisa que temos de despertar em nós. O pessoal está aqui há muitos anos na Ordem Franciscana. Os que conhecem a nossa mística há muito tempo, sabem que a nossa Ordem, no início, tinha um nome e que nós paramos de usar e esquecemos. Qual é esse nome? Ordem Primeira, Segunda e Terceira. Ordem da Penitência, também. Penitência não é castigo. Penitência no sentido franciscano significa eliminar excessos. Excessos de egoísmo, de vaidades, de mau humor, né? De ostentação, de cobiça. Mas no início era chamada Ordem Seráfica. Porque Francisco, no momento pleno do seu amor, foi tocado pelo Serafim.

A dimensão educativa é que nós temos novamente de despertar em nós o anjo. Mas dos irmãos e irmãs, nós somos anjos. Uns dos outros. Nós paramos de falar isso, os esotéricos começaram a falar.

Nós paramos de falar de uma coisa que é nossa, o mundo da nova era, o mundo de todos os empirismos e amadorismos espiritualistas que existem por aí começaram a falar. Temos de voltar a esta dimensão da Ordem Seráfica. Uma fraternidade tocada pelo anjo.

O que é isso? Tocada pelo cuidado. Anjo semeia o melhor de mim. O anjo semeia o melhor do outro. Anjo semeia o melhor de Deus. Nós somos angelicais quando acolhemos, quando marcamos uma presença de cuidado e de atenção e de carinho.

O anjo é o eco do Absoluto. Ele sempre está falando em nome de alguém. Deus sempre manda alguém falar coisas para nós como se Ele mesmo estivesse falando. Às vezes, não escutamos, não percebemos. Anjo, sim, é o eco do Absoluto, é o reflexo que eu comunico ao mundo do humano, quando o meu coração é capaz de pôr-se nas mãos, nos olhos, na voz, em tudo o que eu falo. Aí, eu estou sendo um anjo. É o melhor de mim. Dar ao outro o melhor de nós mesmos. Acolher é dar o melhor de nós mesmos.

Nós não podemos esquecer a nobreza que habita em cada humano. Eu aí, falo da dimensão da cortesia. Se os homens e mulheres deste mundo se amassem profundamente não haveria nenhum conflito sobre a terra. Porque nós perdemos essa dimensão do amor e do cuidado e os conflitos acontecem.

Nós temos de retomar a isso. Francisco viveu essa dimensão. Cuidou de cada frade, de cada ser, de cada detalhe, todo verme que rastejava ele tirava do caminho para não ser pisado.

Francisco, nesse momento, viveu a dimensão do anjo: essa união comunicativa do divino. Essa união da imagem de um Deus que se espelha através dos seres, das criaturas. Conhecer Deus no coração de cada relacionamento. Não esqueçam disso. Por isso que São Francisco diz: "Depois que o Senhor me deu irmãos".

Conhecer Deus no coração de cada relacionamento. Até os relacionamentos de marido e mulher, namorado e namorada, noivo e noiva. Vida a dois se deteriora, acaba porque falta o principal. Anjo é essa energia criadora que se comunica. Não podemos esquecer isso.

Encontrar-se com a pessoa de um modo inteiro. Francisco não tinha nada, mas ele se dava inteiramente. A imagem de algo mais profundo: o encontro com o seu anjo. E quantas pessoas trabalharam para que este encontro acontecesse. Não é verdade?

Até aqueles gestos mais expressivos, mais simples, mais bonitos, até alguém que desce do ônibus antes de você e lhe dá a mão porque aquele degrau do ônibus não foi pensado em você. Ele é muito alto. A gente se torna aquilo que conhece.

A gente se torna aquilo que dá, a gente se torna aquilo que ama. Então, Deus sempre faz essa convocação e envia. O Senhor enviava os apóstolos, dois a dois, e assim enviou vocês pelo mundo e, de repente, nós nos encontramos aqui.

Conviver é uma missão. Nós todos temos uma missão. É envio. Essa é uma imagem de Deus, porque na qualidade de nossos relacionamentos é que se dá a revelação de Deus. Por que nós amamos vir para um encontro como esse? Porque vocês são pessoas qualificadas. No encontro de humanos qualificados, Deus se faz presente. Ele se revela.

Quanta qualidade não tinha Marta, Maria, José, Lázaro, Pedro, João, Clara, Francisco, Hortolana, Masseo, Ângelo, Rufino, Leão, os companheiros. Nunca procurar converter o outro naquilo que nós não somos ainda. Um ser que é verdadeiro sempre procura a verdade do outro, da outra. Isso o mundo franciscano sempre fez.

Francisco amava profundamente, vocês podem ler nas Fontes Franciscanas, o Capítulo 85, do Espelho da Perfeição. É tão bonito quando ele fala daquela somatória de virtudes de um frade perfeito. Não existe um frade perfeito. E fala, o frade perfeito é o frei Ângelo Tacredi, com sua gentileza, sensibilidade; é o Frei João com o seu vigor físico; é o frei Gil, que quer acordado quer dormindo seu espírito estava no nome do Senhor; é o frei Lúcio, que tinha uma formiguinha na parte ocidental do nosso corpo e não parava sentado e estava sempre mudando de lugar em lugar.

Um dia perguntaram para ele: "Por que o senhor não pára?".
Ele disse: "Não tenho morada aqui. Só tenho morada no céu".
Francisco coloca tudo isso lá. A soma das virtudes - e do jeito de cada um - é que dá isso. Vocês nunca vão encontrar um franciscano igual. Todos são diferentes, úicos, originais, mas todos têm a mesma virtude. Ou esse conjunto de virtudes.

Então, todos nós estamos na mesma busca. Nesse caminho, de estarmos juntos, descobrimos tanta coisa linda. E no caminho de estarmos juntos é que descobrimos a nossa alma.

Existe um caminho para a santidade que leva a uma sublimação. A gente se sublima na convivência com o outro. Essa é a nossa dimensão formadora. Essa é a nossa dimensão educativa.

No nosso relacionamento, no buscar a grandeza do outro e da outra, existe um caminho espiritual. Porque encontrar a irmã, encontrar o irmão é encontrar o outro de Deus. Isso que é de nossa dimensão contemplativa, nossa dimensão formativa.

voltar
franciscanos.org.br