|
|
 |
 |
Décima
Quinta Parte
Frei Vitório Mazzuco
Filho
Falei que eram três aspectos:
a dimensão contemplativa e a
dimensão educativa. A terceira
dimensão, tão importante hoje,
é a dimensão terapêutica.
Não esqueçam disso, porque a
gente pensa que terapia é coisa
do especialista. Do terapeuta
que é médico, médica, massagista,
de quem faz massagens holísticas,
que trabalha com fitoterapia,
remédios, psiquiatra, psicólogo,
que marca horário para que a
gente possa fazer a nossa terapia.
Ótimo, eles são grandes terapeutas, grandes profissionais. Fazem disso uma missão e um serviço. Mas terapeuta é aquele que cuida do sadio do humano. Todos nós podemos ser terapeutas quando nós cuidamos deste lado sadio.
Do latim, salus. Daí vem salvação. História da salvação é história de uma humanidade sadia. Agora, o que é saúde? Saúde é ausência de sintomas? Não. Saúde é fazer o que o coração pede. Muitas vezes nós ficamos doentes porque não fazemos o que o nosso coração está pedindo.
Então, a dimensão terapêutica é ajudar o outro a soltar o seu coração. Essa dimensão do sadio. É a coragem de você voltar a ser profundamente natural e original. Porque nós estamos doentes, sim. Que doenças nós temos hoje? Aqui vou citar um autor, Jean Jacques Lelouh. Por sete anos eu tive a graça de ser editor da Vozes e trouxe para o Brasil as obras de Jean -Yves Leloup, que é o fundador do Colégio Internacional dos Terapeutas. Um dos pais da holística.
Todo mundo sabe o que é a holística, que olha a totalidade da existência, que olha a totalidade do humano.
Jean Leloup criou uma expressão - mas não é só uma expressão mas uma preocupação - que ele tem e escreveu um livro que saiu pela Editora Verus de Campinas. Ele se chama "Normose, a patologia da normalidade".
Estranho, mas eu vou explicar. Existe psicose, existe neurose. O que significa aquilo que não está no puro aberto do natural. É contrário do sadio. Mas existe a normose. Essa doença que a pessoa tem de querer ser igual àquilo que outros querem que ela seja.
Ou melhor: que a sociedade quer ele seja. E hoje essa grande doença que a modernidade nos legou e que, nós, na pós-modernidade temos que revirar isso. Existe, por exemplo, as normoses alimentares.
Olhem só as gôndolas dos supermercados, as prateleiras de cantinas de escola. Olhem quantas porcarias químicas nossas crianças comem. Ninguém questiona. Nós mesmos abrimos, rasgamos com prazer aqueles saquinhos que lá dentro têm aquelas coisas: sabor isso, sabor aquilo, mas aquilo é pura química e a gente.... croc..., croc..., croc...E come um. É impossível comer só seis pacotinhos. A gente come doze, dez, vem cerveja junto e vai, porque é sabor pizza, polenta, mas aquilo é tudo aromatizado artificialmente.
Nós comemos, gente, tanta porcaria! E ninguém questiona, porque alguém manda a gente comer. A propaganda manda comer. Nós não questionamos. Isso é uma normose alimentar. E hoje tem tantas. É só aparecer lá um potinho de iogurte novo e todo mundo vai comer, mas ninguém questiona. E aí acontecem as mutações humanas e nós não sabemos.
Nós esquecemos do que é bionatural, nós esquecemos das coisas que são tão puras e nós empanturamos de química e corantes e não percebemos que o metabolismo humano está mudando. Que filho mata com facilidade o pai, o avô, a mãe, tragédias.
Alguma coisa está errada na humanidade. Nós nos envenenamos a tal ponto que perdemos até a nossa centralidade. Será que não é por causa disso? Em vez de sermos pessoas que estamos no fluxo natural das coisas, nós somos seres mutantes.
Nós somos frutos, muitas vezes de experiências extremanente artificiais, porque para vendê-los, envenenam.
Não vemos as normoses midiáticas? Se a novela, sei lá qual, mandar você usar um tipo de linguagem, você vai usar. Vende-se milhões. A Globo estava em crise porque o CD da Som Livre, da novela "Celebridade", não vendeu mais do que 330 mil cópias, quando eles vendem um milhão. Porque a única finalidade é vender. Vender idéias, expressões, ideologias, moda, vender tudo.
A única função da televisão, que é a mãe da mídia, é vender. Então, nós temos essas normoses midiáticas. Nós nem percebemos que nos sentamos de um modo confortável, às 17h30, na nossa poltrona, e podemos acompanhar belos programas, chamados "Cidade Alerta", "Canal Livre"..... Com notícias dizendo que há seqüestros, há morte, há violência, há estupro, há tudo.
E vai mostrando que viver é perigoso e abaixa a nossa auto-estima, colocando-nos lá embaixo porque mostram a humanidade decadente. Quando a nossa estima está bem abaixada, nas pausas, eles vendem plano de saúde, lá vem o São Nunca vendendo os carros da Ford, lá vem cerveja, lá vem refrigerante.Ali, que eles vendem tudo.
E a pessoa sofrida por toda aquela miséria humana, carente, sai, na pausa, e, na primeira geladeira que ela abre, vai beber exatamente o que eles venderam. Ninguém questiona. Porque a função do mercado é abaixar a sua auto-estima para fazer de você um consumidor em potencial.
As normoses midiática fizeram misérias com as nossas crianças. Porque elas sabem muito bem que nossas crianças têm um potencial consumidor muito grande. Qual pai, qual mãe, tia madrinha, avó, que nega o pedido de uma criança? Aí apareceram Xuxas, Angélicas, Elianas, Maras, vendendo tudo. Tiveram até coragem de dizer que amavam nossas crianças. Não amam. Amam o seu extrato bancário e a sua conta bancária. E criaram todo um erotismo precoce nas nossas crianças e hoje nós estamos arcando com isso.
Isso são as normoses midiáticas. A televisão existe somente para isso. Muitas vezes, até os programas religiosos vendem uma imagem de uma Igreja que não existe. Muito cuidado, porque a função do mercado é mostrar que apenas quatro coisas vendem: beleza, juventude, saúde e postura.
Nós não somos manequins. Por isso, a televisão ajudou a criar uma geração de padres dançantes, rebolantes, que venderam milhões de cds, mas o mundo não ficou melhor. Não existe uma experiência de Deus. Não existe. Onde está a experiência de Deus?.
Muito cuidado. Existe realmente quem passa uma experiência de Deus e quem é fruto do mercado. Os filhos das trevas são os filhos do mercado, são mais espertos que os filhos da Luz, diz o Evangelho. Isso são as normoses midiáticas. Graças a Deus tenta-se fazer uma guinada na história. Tenta-se mudar.
Mas nós passamos madrugadas inteiras vendo as pessoas falarem em Deus, mas embaixo aparece telefone para você fazer a sua doação. Muitas vezes, temos que ter um grande exame de consciência, nós mesmos, para não fazermos a mesma coisa com vocês.
voltar
|
|
|
|
 |
|
|
|
|