Segunda Parte

Frei Vitório Mazzuco Filho

O Movimento Franciscano é chamado, lá no início do século 13 - final do século 12 - de a "Religião da Encarnação". É por isso que Francisco tem uma paixão muito grande pelo presépio. Foi ele quem montou plasticamente, até de um modo teatral, a cena da Encarnação.

Em 1221, no bosque de Greccio, ele monta o presépio: o grande encontro de todos os seres juntos à fonte de todas as fontes, a vida de todas as vidas; o grande encontro entre o sagrado e o humano.

O presépio é a paisagem profunda do sagrado, a paisagem do humano. Tudo se encontra num grande respeito. Um reverência profunda: pai, mãe, pastores, ovelhas, boi, burro, estrelas, noite, tudo num único grito: a glória de Deus nas alturas e o coração do humano que tem uma vontade boa. Este é apelo dos anjos.

Quando nós estamos numa profunda reverência, remontamos aquele momento da reencarnação. O presépio não é só para dezembro, mas para cada dia. Quando nós levantamos, adoramos a grandeza de um Deus que na sua onipotência se reveste da fragilidade de uma criança, de uma água, de um sol, de uma cadeira, dessa relva verde, filho da filha, do neto, da sobrinha, das coisas mais simples.

A grandeza de um Deus, a potência de um Deus, o mistério de um Deus nos toca. Se deixa derramar na bondade de tudo aquilo que é, de tudo aquilo que existe. Isto é a Religião da Encarnação.

Encarnar-se significa morar junto. Quando chegou a plenitude dos tempos, diz o texto bíblico e litúrgico, Deus enviou o seu próprio filho. Ele veio morar, pisar no chão da terra dos humanos. Tocar, curar, pescar, assar peixe, comer pão, falar, pregar, dar atenção à viúva de Naim, ao coxo, ao cego, ao paralítico, comer na casa de Zaqueu, mas morar junto do humano.

Por isso, a espiritualidade franciscana é espiritualidade do prazer, da alegria e do desejo. São palavras que nós temos medo de pronunciar, porque nós não vivemos. E nós deixamos que o mundo do erótico, que explora isso, fale por nós.

Mas a nossa espiritualidade, da prazeirosidade da vida, temos de reconquistar. Isso porque nós a perdemos. Quem diz o que temos de gostar, comer, saborear e vestir não é mais o prazer da vida mas o consumo. É o mercado que diz o que temos de comer, vestir, usar.

Mas a mística franciscana não é a espiritualidade do uso das coisas, mas do convívio com todas as coisas. Usar é uma coisa, conviver é outra bem diferente. Senão, passamos pela vida de um modo descartável e a mística franciscana não é descartável!

Eu já vi jovens que têm 23 pares de tênis para combinar com 23 tipos de camisetas e jeans. Mas não amam nenhum. Quando a nossa velha vovó, a nossa mãe, que tem uma bolsa de 45 anos de idade e está sempre juntinho dela, onde quer que vá. É porque tem amor. Isso não é apego; é história. É muito diferente.

Aprendemos a eliminar todas as coisas que são entulhos porque nós, consumistas, achamos que trocar é inovar. Nosso tempo vive a histeria das novidades, mas nós amamos o novo daquilo que junto com a gente vive uma história. Como aquela tigela amarelada de macarrão que a mãe tem e que reúne a família aos domingos, há anos, e que está lá escondida num canto do armário e que filho nenhum percebe. Mas que é um lugar de encontro. Porque, às vezes, quebramos a tigela da mãe e não sentimos nada. Não percebemos no cantinho do olho dela que uma lágrima desce, porque aquilo foi encontro, convivência, reunião e mesa se quebrou.

Essa é a verdadeira Eucaristia. O coração pulsando quando todos estão juntos. Por isso, o Ressuscitado, quando aparece, sempre está comendo peixe e pão, partilhando alguma coisa. Francisco gostava de estar junto com seus frades, com as pessoas, dividindo, dando e recebendo. Então, a espiritualidade franciscana é a espiritualidade de um grande encontro e uma grande convivência.

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