Terceira Parte

Frei Vitório Mazzuco Filho

Eu dizia, a Religião da Encarnação. A religião do desejo. É preciso desejar o espírito do Senhor e o seu santo modo de operar. Isto está na regra-não bulada. É preciso ter um desejo de Deus.

Religião não é professar. Nós achamos que é apenas professar um credo. Não!. Religião é sentir Deus, desejar Deus. Hoje, muita gente professa. Nunca se falou tanto de Deus. Nunca se falou tanto o nome de Jesus: Jesus! Jesus! Jesus na televisão, nos rádios, nas canções, nos adesivos dos carros, nas camisetas.

Mas alguém está sentindo, está desejando ou simplesmente fazendo um marketing bonito? Porque religião vende, e vende muito. É preciso desejar o espírito do Senhor e o seu santo modo de operar. É preciso sentir.

Vocês querem saber qual é o credo de Francisco? Vou até pedir para o Florival (Frei músico) tocar.

Nós vamos fazer agora o credo de Francisco, porque religião tem que ter a redescoberta daquilo que está nos salmos. Quem é o salmista? Ele é alguém que nos ensinou a contar uma história sentindo Deus, desejando Deus...

Doce é sentir em meu coração,
humildemente vai nascendo o amor.
Doce é saber não estou sozinho.
Sou uma parte de uma imensa vida.
Que generosa reluz em torno a mim
Imenso dom do seu amor sem fim.
O céu nos deste e as estrelas claras
Doce irmão sol nossa irmã a lua
Nossa mãe terra com cores campos flores
O fogo e o vento, o ar e água pura
Fonte divina de tuas criaturas
Imenso dom do teu amor sem fim.

Então, temos de voltar a sentir e a perceber o que é dizer: "Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra".

A música do filme "Irmão Sol, Irmã Lua" é lindíssima e mostra, por exemplo, que Deus tem de ser percebido na sacramentalidade de tudo aquilo que existe.

Eu dizia para vocês que a nossa espiritualidade tem como argumento teológico a encarnação. Deus quis estar junto. Desejar tem como significado usar todas a células do nosso corpo, todo o potencial dos nossos sentimentos, toda nossa capacidade de coração para perceber e amar. Desejo vem do coração.

A palavra-chave da espiritualidade franciscana é coração. A vida não conquistamos pelo intelecto mas pelo coração. O que toma conta do coração toma conta do corpo inteiro. O que toma do coração toma conta da vida. O que toma conta do coração, toma conta das palavras, das mãos, dos gestos. Nós somos o que colocamos no coração. Quem não tem nada no coração, é vazio.

Por isso, um dos aspectos mais lindos da espiritulidade popular é o Sagrado Coração de Jesus. O Sagrado Coração de Maria, que Francisco nos ensinou a perceber e, junto com eles, a perceber o Sagrado Coração da Terra, o Sagrado Coração de toda a existência.

Por isso, falamos que o desejo, o gozo de estarmos juntos, a alegria, a prazeirosidade de estarmos juntos. A encarnação é mistério glorioso? não; é doloroso? não; é luminoso? não. A encarnação é mistério gozoso. O prazer de estar juntos. Deus quis assim: essa proximidade.

O desejo na espiritualidade franciscana é mostrar para nós que o amor é vizinhança, é proximidade, é cercania, traz tudo para perto.

Vocês lembram do Evangelho de domingo retrasado? O Ressuscitado chega diante do grupo e diz assim: "A paz esteja com vocês!". E tem um que não está junto: Tomé.

E nós cometemos uma injustiça muito grande com Tomé. Nós dizemos que ele é aquele que não creu e ele passou a ser durante vinte séculos o protótipo daquele que não crê. Esse é o problema de Tomé? Não.

O problema de Tomé é que ele estava fora do grupo. Estava fora. Se você está fora você não percebe. Nós temos que entender a partir da teologia franciscana que ressurreição é o toque. É a presença, a proximidade. E vocês lembram que Tomé disse assim: "Eu não acredito no que estou vendo", como querendo dizer "não é possível". Ele estava assim: extasiado, encantado; ele queria estar perto do Senhor, mas estava fora, chegou depois. Quando contaram, ele falou "mas eu preciso tocar!".

Vocês lembram o que Jesus falou para ele? "Tomé, vem cá. Coloca o dedo aqui, bem aqui, do meu lado direito". Vocês lembram dos versos do consagrado compositor Fernando Brant, cantados pela bela voz do Milton Nascimento? "Amigo é coisa pra se guardar, do lado esquerdo do peito. Dentro do coração, assim falava a canção, que na América ouvi".

Como é que a gente conquista a vida? Pelas mãos... pelo toque. Vocês lembram quando estávamos no berço? Éramos todos lindos, maravilhosos e ficávamos ali contemplando e olhando as nossas mãozinhas, pegando o dedão do pé e colocando na boca. E nós íamos conquistando, passando a mão pelo rosto da nossa mãe, do nosso pai e não sabíamos quem era quem.

Não sabíamos falar, mas sabíamos tocar. Não falávamos, mas tínhamos brilho nos olhos. Sabíamos o que era doce ou amargo; fomos colocando a mão na coberta, no brinquedinho, no xixi, no cocô, mas conquistando a vida. Descobrindo: isso é vida.

Nós tocávamos e depois fomos crescendo e aprendemos o que é o colo, o abraço, o beijo. Nós fomos criados na unção e no colo, no carinho e na proximidade, e depois fomos colocar o dedo no doce da mãe, furamos o bolo, passamos a mão na massa do pão e percebemos: "isso tem gosto". Levamos um tapa, também. Mas ninguém pode dizer que no toque nós não conquistamos a vida.

Por isso, Jesus chama Tomé e diz: "Vem cá, coloca o dedo aqui. Venha aqui para perto de mim". E, naquele momento, ele diz: "Meu senhor e meu Deus!". Isso é ressurreição.

Você percebe quando a pessoa está viva quando você a toca. Isso que Francisco fez.
Nós não vamos acreditar se o Deus está vivo, presente, se nós não sentimos a bênção da água, a bênção da sibipiruna, do plató, da relva, do irmão e da irmã que está ao nosso lado.

Hoje nós afastamos tudo. Programas como Canal livre, Cidade Alerta, esses programas todos dizem que viver é perigoso. O outro é perigoso; tem que estar longe da cidade, longe das ruas, longe de tudo. E nós criamos uma tensão, uma neurose do medo. E aí perdemos o brilho das coisas e o brilho ressurreição.

Por isso, reencantar a vida a partir da mística franciscana é voltar de novo para a cercania, para vizinhança, para o estar-juntos.

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