Quarta Parte

Frei Vitório Mazzuco Filho

Temos de ocupar o nosso espaço. Temos de voltar a reencantar a vida a partir de uma cidadania de encontros e relacionamentos. Hoje, se fala muito de cidadania. O que é cidadania? É viver na cidade. E nós temos medo da cidade. Quem vive na cidade, hoje, são os sem-teto, os sem-casa, os sem-lugar, os sem nada. Eles que vivem na cidade. Os mendigos, os que não têm nada, eles estão na rua e nós fugimos dela. Então, temos de recuperar a cada instante o lugar do convívio e da presença.

Francisco pensou tudo isso e criou um termo belíssimo: fraternitas. A fraternidade. Por isso, um dos aspectos importantes de sua mística e da espiritualidade é o fraternismo universal e o universalismo fraterno. Nós não somos estatísticas. Nós somos irmãos e irmãs. Ele diz isso no seu Testamento. "E depois que o Senhor me deu irmãos".

É o espírito que nos dá. Isso que é bonito. Nós não escolhemos as pessoas. É Deus que as coloca em nosso caminho. Essa certeza que Francisco tem. Deus nos toca através do outro e da outra. O Deus da vida, o Deus providente e criador nos tocou maravilhosamente através de Jesus Cristo. Isso é o encantamento de Francisco.

E já que estamos no aspecto teológico, vocês lembram que nós aprendemos muitas coisas de nossos pais e avós. E uma das coisas que eles nos ensinaram - sem grandes discursos, sem grandes piruetas pedagógicas, aliás, eles nem sabiam o que era Pedagogia, eles amavam simplesmente -, e nos educaram foi a bênção. Vocês lembram? "Deus te abençoe, minha filha; Deus te abençoe, meu filho; bença mãe, bença pai!". Foi um passado de bênçãos.

Hoje em dia, poucas pessoas pedem a bênção. Nós temos de voltar abençoar os sobrinhos, os netos, os filhos. Nós temos de voltar a abençoar mutuamente. Francisco gostava de abençoar: "O Senhor te dê a paz!". "O Senhor te abençoe e te guarde!".

Ele vai buscar lá no livro bíblico dos Números e depois ele retoma, reencanta, reinventa, amplia como se fosse sua. Porque é assim quando a gente pega uma coisa que é de Deus.

Ele fala assim: "Já não é mais minha, é sua". Porque Deus se esconde nos bastidores para dar impressão que é a gente que faz. De modo que a gente tem de perceber isso. Temos de voltar a nos abençoar.

Abençoar significa chamar o outro para sua grandeza. "A minha alma engrandece por ter encontrado você. A minha alma engrandece por estar com você, por viver com você!".

Por isso, a espiritualidade franciscana, o reencantamento da vida, é uma bênção; é graça. Temos de voltar a abençoar. Deus nos abençoa com a lua e as estrelas. Deus cuida de nós com um teto iluminado de estrelas. Não existe noite na existência que não tenha uma luz. E essa manhã é como uma manhã da ressurreição, porque Deus nos ilumina.

Então, reencantar a vida é acender, iluminar, mostrar uma presença ungida, ser uma bênção para o outro e para outra, deixar-se abençoar. Abençoar significa levar em conta a grandeza do outro, da outra, e tudo aquilo que existe.

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