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Quinta
Parte
Frei Vitório Mazzuco
Filho
Reencantar a vida é
voltar a sentir que ela não
é perigosa. Que nela
existe uma grande convocação,
um grande chamado. Então,
a nossa espiritualidade é
cosmo-vital. Ela olha a totalidade
da existência. No existe
ninguém sozinho. Vocês
gostam do texto do profeta
Isaías: "Antes
que te formasse no seio de
tua mãe, eu já
te escolhi".
O que significa isto? Significa
que antes de ser concebido,
você era um desejo.
A ciência diz que somos
concebidos quando o embrião
encontra a fecundidade do
óvulo. Mas isto é
um dado científico.
Não é nessa
hora que nós somos
concebidos, mas quando somos
de- se- já- dos. Na
hora que nós fomos
a- ma- dos.
Se nós esquecermos
isto, não vamos entender
o grito de Francisco, que
saía pelas ruas, pelas
estradas, dizendo: "O
amor não é amado".
Vocês conhecem aquela
música? Vamos cantar?
"Pois o amor, o amor,
não é amado,
a felicidade...."
Deus nos ama através
da visibilidade do morar junto,
do estar junto do Deus de
Nosso Senhor Jesus Cristo.
Esta é a grande paixão
de Francisco. Em Jesus, Deus
é um Deus apaixonado.
Somente os apaixonados são
criadores e criativos. Somente
os apaixonados são
capazes de uma aproximação,
de uma cercania.
Isto que temos de entender:
Francisco ficou impressionado
ao perceber que Deus não
era algo vago, distante de
nós, mas estava tão
presente a partir de testemunho
fontal, a essa novidade incontida,
a boa-nova do Evangelho.
Francisco se encanta com o
modo de como Deus ama, como
Deus se faz irmão,
amigo, filho, companheiro
na pessoa do Deus de Nosso
Senhor Jesus Cristo. Para
Francisco, a paixão
é o Evangelho. O registro
e a marca de um amor que deixa
dizer.
Para Francisco, o Evangelho
não é apenas
um documento espiritual da
comunidade primitiva, mas
é o testemunho inconfundível,
incondicional do modo de como
Deus ama.
Por isso, ao ler o Evangelho,
ele vai dizer a frase mais
fantástica do início
de sua caminhada: "É
isso mesmo que eu quero. É
isso mesmo que eu procuro.
É isso mesmo que eu
desejo de todo o coração!".
Para Clara e para Francisco,
Deus não é algo
distante de nós, mas
é Alguém. A
mística da espiritualidade
franciscana representa para
nós um encontro de
pessoalidade. E eles foram
capazes de fazer essa transposição
fantástica. "No
meu sonho, eu caminhava tão
feliz...."
Sonhar é preciso. Nós
temos de voltar a fazer como
o mundo bíblico: ler
a inspiração,
ler oráculos, acreditar
nas visões e nos sonhos.
Voltar a ler para dentro,
esse olhar interior que faz
voltar para dentro, a vertente
necessária. E ir todo
mundo para o seu núcleo,
para o seu centro, e dizer:
"Venha, é daqui
que nós saímos.
Daqui de dentro. Deus não
está nem à frente
nem atrás. Onde está
Deus? Dentro, está
aqui, dentro".
Francisco, em primeiro lugar,
fez um encontro com esta intimidade
que está dentro. Só
que ele sonhou e fez o sonho
natural de todas as pessoas.
Deus se encarna em alguém.
Existe um autor holandês
Johannes Rosinski, ele é
um pesquisador que escreveu
um livro fantástico
e está traduzido no
Brasil pelas Edições
Loyola: chama "O Homem
Lúdico". O título
orginal era em latim "Hommus
ludicus", um dos grandes
sucessos editoriais, onde
Johannes faz um estudo da
importância do jogo,
do lúdico, na vida
do humano.
O capítulo 5 deste
livro - e olha, Rosinski não
é franciscano, mas
um historiador famoso - dedica
um capítulo a Francisco.
Ele diz que Francisco é
capaz de jogar com as suas
fantasias.
A grande fantasia, o grande
sonho de Francisco foi esse:
ele é um homem profundamente
natural, profundamente humano.
A grande fantasia dele, como
de todo jovem, com o vigor
e a força que tinha,
era se apaixonar por alguém.
É natural. Estava buscando
a sua mulher, a sua dama,
a sua senhora. Só que
Deus o coloca no caminho do
Evangelho e, ao lê-lo,
ali, ele vai perceber como
uma virtude se encarna no
Deus de Nosso Senhor Jesus
Cristo.
Ele fica impressionado ao
perceber que a onipotência
e a grandeza de um Deus se
revela na fragilidade de um
menino. Então, ele
se encanta pelo presépio.
Mas, depois, ele também
vê que a potência
do Altíssimo, Onipotente
Bom Senhor se revela na simplicidade
de Jesus.
E ele vai perceber que é
um Deus humilde, desapropriado,
um Deus despojado de tudo.
Não precisa nada porque
tem a única riqueza
que satisfaz o coração,
que é o pai. E ele
se encanta tanto com esse
Deus.
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