Sexta Parte

Frei Vitório Mazzuco Filho

Mas Francisco e Clara nos ensinaram uma coisa muito importante - não se esqueçam: não basta seguir o Senhor. É preciso se apaixonar por ele. Não há seguimento se não houver paixão, não há imitação se não houver um amor intenso. Não basta seguir, tem que se apaixonar.E ele consegue, no seu jogo lúdico, na sua fantasia extraordinária, ao ler o Evangelho.

Para ele, a virtude também é alguém, aliás, ele fala isso. Vocês conhecem as Fontes Franciscanas, no trecho do "Elogio às Virtudes". Ele fala que a simplicidade é irmã da sabedoria e cria um laço consangüíneo entre as virtudes e os valores. Ele começa a perceber que o Evangelho tem uma virtude que é alguém.

E qual a virtude que ele mais apaixona no Evangelho e que se caracteriza para ele a grandeza de um Deus revelado em Jesus? A pobreza. Porque pobreza, como Francisco entendeu, não é "ter ou não ter". Porque hoje nós temos categorias econômicas que dizem que pobre é aquele que não tem ou que está excluído de uma categoria que está abaixo do salário mínimo.

Ou, então, dentro do patamar social e da exclusão social, pobre é aquele que não tem as oportunidades que qualquer pessoa normal necessariamente teria que ter. Ou, então, divide-se o mundo: Primeiro Mundo, Terceiro Mundo. Isso é categoria econômica, não interessa. Nós não podemos pensar a pobreza como categoria econômica.

Francisco entendeu pobreza como a coragem de ter em comum. A alegria de ter em comum, o gosto, o prazer de dividir. De partilhar tudo: o que se é, as idéias, o pensamento, a vontade, o que é mais difícil, o bolso, as coisas, o bem, o pão, o convívio, a palavra, o mundo das idéias. Tudo aquilo que eu sou, posso e tenho, eu coloco em comum.

E Francisco foi percebendo isso porque, no Evangelho, Jesus se reparte. Primeiro, entregou grande parte anônima de sua vida para cuidar da mãe, que era viúva, e depois largou tudo e foi cuidar do Reino do Pai.

E dividiu: um dedinho de conversa, um olhar, um gesto, um toque, ia curando coxos, paralíticos, escutava, cuidava, comia a espiga de milho com os discípulos, repartia o pão, pescava junto, repartia a palavra, vigiava e orava. Dividiu a oração, dividiu seu tempo, sua vida, até encontrou um jeito para que nunca mais não esquecêssemos isso, porque se fez pão para durante séculos e séculos continua sendo dividido e repartido.

E Francisco percebeu isso e disse: "Isto é a pobreza!". Isso é a coisa mais feminina que existe, porque é mãe. São os cuidados de mãe. Aí Francisco criou a Senhora Dama Pobreza. Transformou essa virtude no Evangelho, o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, na Senhora Dama Pobreza. E sabe o que ele fez? Casou-se com ela. Porque não basta seguir, tem de se apaixonar. Pela Senhora Dama Pobreza.

Então, a pobreza não é uma categoria econômica, mas é o encantamento de que eu valho, eu sou, por aquilo que ofereço e não por aquilo que eu acumulo, pelo que eu tenho.

Valemos por aquilo que dividimos. Por isso, temos de dividir espírito e afeto. E quando a gente divide, em primeiro lugar o espírito e o afeto, a gente aprende a dividir até as nossas coisinhas.

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