Oitava Parte

Frei Vitório Mazzuco Filho

Queria dizer, também, que nós, franciscanos, falamos muito de São Francisco, mas não somos fanáticos por ele. Mas ele é um filtro por onde passa a nossa compreensão de Deus; é um filtro por onde passa a nossa compreensão da vida; é um filtro por onde passa nossa compreensão do Evangelho.

Deus é tão concreto, que Ele sempre na história manda alguém para mostrar como Ele ama. Assim como vocês estão reunidos aqui - é o sexto ano - eu queria dar um depoimento para vocês.

Eu tenho vindo a Agudos há catorze anos com um grupo chamado "Espiritualidade Franciscana". Em julho vai acontecer o 29º Encontro de Espiritualidade Franciscana. Esse grupo tem uma característica muito grande. Ninguém pertence ao Pró-Vocações. Ou melhor, acho que duas ou três pessoas. Porque a coisa mais linda que acontece com vocês é que nós só sabemos que vocês são vocês quando vêm para cá. Ou, então, quando o Frei que trabalha lá manda o cartão de aniversário e o Boletim.

Estou com um grupo que tem pessoas simpatizantes de São Francisco e conta com cerca de noventa pessoas, sendo que 70% são esotéricos, não-católicos. Depois absorvem a mística do esoterismo. Um grupo é católico, mas dentro desse grupo eu tenho um casal de judeus, um pastor batista e cinco muçulmanos. Simpatizantes de São Francisco.

O mais interessante é que esses muçulmanos são drusos. Eles fazem parte de um grupo onde têm uma mística religiosa, uma filosofia de vida fantástica. Só que são excluídos do mundo mulçumano porque são considerados hereges. Então, são perseguidos. Não digo de morte.

Por enquanto, são excluídos porque têm uma vivência muito interessante. Os drusos - eu só estou citando um exemplo, porque é uma mentalidade deles, não quero influenciar ninguém. Só quero dar um testemunho de ver como por caminhos diferentes estamos na mesma procura e na mesma busca - acreditam que Deus é tão grande, tão fantástico, que em determinadas épocas da humanidade envia um Iluminado. Ele envia alguém para mostrar concretamente quais são os vestígios. Colocar novamente a humanidade nos trilhos.

Citei antes o texto do Prefácio: "Quando chegou a plenitude do tempos, Deus enviou o seu próprio filho". Vocês lembram o Prefácio do Exultat, que é até inspirado no texto de Santo Agostinho: "Feliz culpa que mereceu para mim um Salvador".

Então, os drusos acreditam que Deus tinha de se manifestar através de alguém muito próximo da caminhada do humano. Eles acreditam em cinco: Zoroastro, Confúcio, Buda, Maomé e Jesus Cristo. Esses são os cinco grandes iluminados que Deus colocou em épocas diferentes da humanidade para mostrar que temos de ter uma vertente necessária e, cada um, dentro do seu modo de vida, dos mesmos ensinamentos, do mesmo caminho, do mesmo jeito.

Agora, vocês vão perguntar por que os drusos participam desta reflexão comigo? Porque eles não falam, eles deixam entender profundamente que o sexto já veio. E para eles, este sexto é São Francisco, a grande síntese dos outros cinco. Mas não que São Francisco seja um Deus. É humano, uma pessoa profundamente humana que vem ensinar para nós.

Jesus tem que ser revivido assim. O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo tem de ser testemunhado assim. Tem que ser expressado assim. Então, eles lêem as Fontes como um programa de vida. Eles lêem São Francisco como um programa de vida. Mas têm de ficar quietinhos porque vivem na clandestinidade. Até para não ser perseguidos. Mas vivem com alegria e a graça de Deus. Então, por caminhos diferentes, a gente tem a mesma consangüinidade de amor.

Vocês estão percebendo que as grandes religiões estão num processo de crise, por isso que crescem as espiritualidades, os movimentos. As religiões estão muito abaladas porque elas perderam este jeito cotidiano da mística e da espiritualidade.

Nós estamos vivendo o grande momento da espiritualidade. As religiões estão muito abaladas, por culpa delas. Porque elas passaram séculos investindo na estrutura hierárquica. Religião é poder. E passaram séculos organizando o poder e esqueceram de cuidar do sagrado.

Vocês querem ver, vamos pegar a nossa. O Cristianismo Católico. Passaram séculos infernizando a nossa vida, criando a pedagogia do medo, dizendo que nós não podíamos pecar contra o sexto mandamento. E quanto medo nos causou em nós! Esqueceu-se de nos dizer que o cristianismo não é a religião do sexto mandamento, mas do primeiro: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo". É preciso recuperar isto. Isto que Francisco fez: amar profundamente Deus e a fraternitas.

Então, as religiões sofreram este abalo - digo as grandes religiões, o judaísmo, o islã, protestantismo, estão passando por uma revolução muito grande. Elas têm de voltar para dentro das suas estruturas como uma grande conversão. Isso acontece dentro da história. Nos séculos 12 e 13 aconteceu isso. Francisco não sai da estrutura eclesial, mas vai para dentro dela, levando novamente a pureza, a essência, a simplicidade do Evangelho.

Por isso, os protestantes são profundamente admiradores de São Francisco. Eu pesquiso isso há muitos anos. Os maiores pesquisadores que consulto são protestantes. Por quê? Porque eles consideram São Francisco um verdadeiro Lutero. Porque se Lutero tivesse feito como São Francisco, nós não estaríamos separados. Não haveria cisma.

Nós temos de entender isso. Não é que São Francisco é um Deus. Ele não pode estar no lugar de Deus, mas ele é o nosso jeito. Por isso que dizia: ele é um momento antes de nós. Ele é um arquétipo humano, um modelo referencial de santidade, sim, mas é alguém que diz assim: "Deus é possível". Essa possibilidade de Deus que não é complicada. Nós é que complicamos a vida. Por isso é que nós temos de retomar a pureza de uma Igreja primitiva. Voltarmos às nossas fontes. E Francisco é fontal.

Em tempos de crise, as estrelas-guias aparecem. É nos momentos mais difíceis que nós precisamos de estrelas-guias. Há oitocentos anos, São Francisco continua sendo e segurando aquilo que a humanidade tem de melhor.

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