Nona Parte

Frei Vitório Mazzuco Filho

Três aspectos são importantes na nossa reflexão sobre reencantamento da vida, através da espiritualidade franciscana.

O que nós falamos sobre Clara. Ela está dentro do primeiro aspecto que gostaria de falar agora, que é a dimensão contemplativa. O que é a dimensão contemplativa?

Contemplar significa estar junto com o templo, junto com o espaço sagrado. Clara ensinou para nós que é preciso transformar o nosso tempo em templo. O que é isso? Nós somos muitos presos ao cronos, ao tempo do relógio. A nossa vida é uma vida apressada.

O pessoal paulistano conhece muito bem o prefixo da Jovem Pan: "Vão embora, vão embora, tá na hora, vão embora...". Esse é o hino de São Paulo. A sinfonia paulistana. É aquela pressa. A vida é um metrô. Temos que chegar, temos que acontecer, tudo é marcadinho. É a funcionalidade da vida. Isso é o cronos. Os deuses do cronos nos devoram.

Os gregos nos diziam que é preciso amar mais o Deus do kairós, que significa o tempo presente, o tempo oportuno, a plenitude do instante.

Amar intensamente a plenitude do instante. Thomas Merton, o grande místico, o monge trapista do século 20. Ele tem um poema que acharam após a morte dele na gaveta. Um poema tão simples, mas tão necessário, que diz assim: "Céu azul, nuvens claras, tarde calma. Esse momento nunca mais voltará nos confins da história".

Isso é a plenitude dos tempos. Esse dia, esse momento nunca mais vai se repetir. Por isso nós temos que curti-lo plenamente. Vivê-lo intensamente. O reino de Deus está próximo. É chegada a hora e é agora. Deus está no instante. E, às vezes, as nossas tensões para o depois faz com a gente não perceba que esse momento é sagrado. Nós estamos vivos, respirando, transpirando.

A ciência e a Medicina podem explicar tudo, mas só não podem explicar de onde veio o hálito, o sopro. É um mistério. Nós sentimos o ar. Vamos todo mundo sentir o ar... Bem levemente. De onde vem isso? Que milagre é este? A ciência não sabe quem colocou lá no início este sopro da vida. O Gênesis diz: "Deus soprou".

Nós temos de sentir a vida. Isso é o kairós. Viver intensamente o momento presente. Chiara Lubich, a mística italiana fundadora do Movimento dos Focolari, a obra de Maria, diz que é preciso viver intensa e solenemente cada momento presente.

Isso é o tempo oportuno, o tempo do sagrado. Perceber que esse é o momento de uma grande reverência diante de nós mesmos. Diante da vida. Quando nós estamos bem, as coisas começam a se encaixar. Chuang Tzu, o sábio que viveu quatrocentos anos antes de Cristo, tem uma frase a meu ver fantástica: "O calmo é certo. Comece calmo e estarás certo".

Às vezes as coisas não dão certo porque nós tomamos decisões em cima de tensões, com a cabeça quente. Por isso, é preciso acalmar o corpo. Acalmar tudo. Deixar operar o espírito. Isso é a contemplação.

Não viver do cronos mas do kairós. Aquilo que a mística clareana nos ensina: transformar o nosso tempo em templo. São Francisco chamava isso de eremo. Os momentos do Eremitério.

Eremitério franciscano não é para ficar. É ir se encontrar com o Deus, o Deus do silêncio, da solidão, escutar a fala do silêncio e voltar.

O eremo para Francisco é chegar e partir. Ir lá beber da fonte do silêncio, tão importante porque é fecundo. É sossegar a vida, a alma, para não haver precipitação. Fugir das ansiedades. Sair de um estado de ansiedade para um estado de oração.

Celano diz que Francisco era um homem feito oração. É possível a gente reconstituir a nossa vida com uma pessoa humana feita silêncio, feito oração.

Nós aprendemos a conviver com os ruídos da mecanicidade da vida. A nossa vida é apertar botões para que tudo funcione. É preciso a gente fazer também funcionar o nosso silêncio e a nossa fecundidade interior.

Essa é a dimensão contemplativa. É solidão, mas não alienação. Há uma diferença muito grande entre solidão e alienação. O alienado foge porque não quer encontro, porque não quer convivência, tem medo de si mesmo. Foge porque não quer ouvir a voz do Senhor.

Agora, a verdadeira solidão é dom de estar só. Há certos momentos em que nós temos de aprender a nos recolher ao encontro de nossas raízes. Da profundidade pessoal. Quem vai bem para dentro de si mesmo vai melhor para o comunitário.

Hoje, muita gente que fracassa publicamente porque não tem o recolhimento da profundidade pessoal. Ser social significa saber também estar só.

Cuidar do coração, cuidar da transpiração. Orar. A oração é a linguagem da intimidade. Se, para o amor, as palavras são puro encantamento e docilidade e os amantes e os amados, e os que se amam, sabem o que dizer para o outro, mesmo na limitação e na pobreza das palavras, porque quando a gente ama, não tem o que dizer; nem precisa dizer.

A gente silencia. Mas quando a gente fala, fala sempre a mesma coisa. Mas a linguagem do amor tem essa densidade do eu, uma coisa tão forte que se derrame em direção do outro e a outra.

Imagine a linguagem transcedente!. A oração é a linguagem de quem ama e passa pelo filtro do saber estar no silêncio. No recolhimento.

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