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Os Sermões,
de onde se extraiu este trecho
aqui apresentado, encontram-se
na íntegra em: Sermões
Dominicais e Festivos de Santo
Antônio. Doutor Evangélico,
por Henrique Pinto Ramos
(Org.), Editorial Restauração,
Lisboa 1970.
O Bom Cristão segue
o exemplo das abelhas
Lê-se na história
natural que as abelhas pequeninas
trabalham sem descanso. Têm
asas fininhas e são de
cores mais escuras, como se
fossem queimadas.
Abelhas pequenas são
os bons cristãos sem
pretensões que só
se ocupam de boas e úteis
obras, de forma que o
diabo não os encontra
nunca de mãos vazias
ou desocupadas.
Têm asas finas, isto é,
desprezam as vaidades e os prazeres
do mundo e se inflamam de amor
pelo Reino Celestial. Com essas
asas sobem alto, voando
livres no ar puro, com o coração
fixo na Glória de Deus.
As abelhas trabalhadeiras são
de cor escura, como se fossem
queimadas. A respeito disto,
a alma cristã exclama
no Cântico dos Cânticos
(1.5-6): "Sou morena, mas
formosa, ó filhas de
Jerusalém, sou como as
tendas de Cedar, como os pavilhões
de Salomão. Não
repareis na minha tez morena,
pois foi o sol que me queimou!"
Oh! anjos do céu, oh!
almas santas, sou morena porque
as abstinências, os jejuns,
as vigílias e outras
penitências me tomaram
assim. Porém, sou bela
na alma pela pureza da mente
e pela integridade da fé.
Sou morena como as tendas de
Cedar, que quer dizer nômade;
habito de fato em tendas móveis
que se transportam de um lugar
para o outro, das quais os soldados
atacam ou nas quais são
atacados, "porque não
temos aqui embaixo nenhuma cidade
permanente, andamos em busca
da que há de vir"
(Hb 13,14).
Não deis importância
ao fato de eu ser morena, pois
sou morena porque o sol me queimou.
O sol em eclipse descora todas
as coisas. Assim Jesus Cristo,
o verdadeiro sol, "que
conheceu seu ocaso" (SI
103,19) quando na cruz padeceu
o eclipse da morte, deixou a
atração das vaidades,
as falsas glórias, todas
as honras mundanas.
Por isso, a alma cristã
pode afirmar com razão:
"Sim, sou morena, minha
pele é escura, o sol
me queimou". Enquanto,
com efeito, com os olhos da
fé eu contemplo a meu
Deus, meu esposo, meu Jesus,
pregado na cruz, atravessado
por cravos, alimentado com fel
e vinagre, e coroado de espinhos,
toda a beleza, toda a glória,
toda a honra, toda a pompa mundana
empalidece a meus olhos e perde
todo o valor... Eis aqui, estas
são as abelhas pequenas
e escuras, como se fossem queimadas.
Assim pensam e atuam os verdadeiros
cristãos.
Abelhas de bela aparência
são ao contrário
todos os cristãos inautênticos
e todos os que não sabem
fazer outra coisa senão
agitar aos quatro ventos as
falsas credenciais de sua falsa
honestidade e bondade, enquanto
na realidade são somente
sepulcros, de aparência
bela e solene, porém
cheios por dentro de podridão
e ossos ressequidos...
As tentações do
maligno atacam especialmente
aquelas pessoas honestas e virtuosas
que, quando percebem que não
agiram corretamente, logo reconhecem
suas culpas e se apressam a
confessá-las e a fazer
uma justa reparação.
E aí, então, que
na consciência dessas
pessoas retas o maligno procura
penetrar e instalar-se com o
fim de transtornar sua sensibilidade
moral. O bom cristão,
porém, sabe opor-se com
todas as forças a esses
intentos e nunca permitir que
tal projeto se realize.
Os bons cristãos deveriam
seguir o exemplo das abelhas.
Diz-se que as abelhas se colocam
com todo o cuidado nos buracos
da entrada da colméia
e, na eventualidade de que algum
bichinho consiga entrar, elas
não o deixam em paz e
o perseguem por todos os lados
até expulsá-lo
para fora da colméia.
O nome em latim das abelhas
parece derivar do fato de que
elas se entrelaçam entre
si por melo das patinhas as
quais, no entanto, elas não
possuem no momento do nascimento.
Por isso é que se chamam
"apes", isto é,
"sem pés".
Os cristãos também
se encontram unidos entre si
por sentimentos de caridade,
de recíproco amor. Esta,
porém, não é
uma prerrogativa natural; até
São Paulo (cf. Ef 2,3)
afirma que "somos destinados
por natureza à cólera".
É, antes, um dom gratuito
depositado em seus corações
por Deus.
Como as colméias, assim
são os nossos corpos:
possuem cinco entradas que são
os cinco sentidos. Entre estes,
de especial importância
são os olhos com os quais
temos que vigiar atentamente
para que não penetre
em nós algo estranho
e turvo. Se alguma sugestão
diabólica ou algum instinto
perverso perturbar nosso espírito,
não devemos de jeito
nenhum e por nenhum motivo permitir
que permaneça por muito
tempo em nós. Com efeito,
sua demora transforma-se em
perigo e, assim o afirmam os
moralistas, um pensamento mau,
conservado com complacência,
já constitui uma falta
mortal. Portanto, logo que a
consciência adverte que
o pensamento está indo
para o ilícito e não
o afasta, está permitindo
que se forme o assim chamado
pensamento mau cultivado.
Como as abelhas, assim o bom
cristão deve movimentar-se
prontamente e, com o ferrão
de sua boa consciência
e da oração, tem
que perseguir sem se cansar
os intrusos até expulsá-los
para fora da colméia
do seu coração.
(Dom. III in Quadr. 153,
27155, 10). |
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