25/09/2002
A visão franciscana da ecologia

Quando Francisco amava e respeitava a natureza e todos os seres que nela vivem não o fazia de maneira abstrata ou convencional, impessoal e anônima. Seu acentuado respeito para com todo o criado e seu forte instinto de diferenciação levavam-no a tratar cada ser, cada animal, cada coisa com delicada cortesia, sempre respeitando sua própria individualidade, seu modo peculiar de ser e seu lugar privilegiado no cosmos. Francisco rompia com a consciência habituada, como diria Rilke, e com isso se capacitava a descobrir os cotidianos prodígios de uma natureza viva e exuberante.

A visão do Poverello sobre o mundo apoiava-se em outra dimensão mais profunda: sua fé cristã. A partir desta fé, vivida e experimentada, descobria a profundidade do mundo e dos seres com os quais sentia, vivia e celebrava a grande presença de Deus na ciração que, em sua Trindade, se manifesta a quem é capaz de ver e de sentir.

O olhar de Francisco sobre as coisas nunca foi interesseiro e egoísta, nem tampouco instrumentalizador. Estava liberto da cobiça e do doentio e desproporcional desejo de posse e de domínio. Eliminada a arrogância e revestido de imensa simpatia e cordialidade, convidava a todos os seres para que com ele cantassem e celebrassem. Certo dia, enquanto caminhava, vendo um bando de pássaros, convidou-os a cantar e disse a seu companheiro: "Nossos irmãos pássaros estão louvando o Criador; associemo-nos a eles para também nós cantarmos os louvores do Senhor" (LM 8,9).

Francisco se coloca no meio das criaturas, não por sobre ou acima delas. Somente uma relação assim vivida e de fraternidade compartilhada pode criar um novo estilo de viver e de estar no mundo. Francisco cantou o Senhor por e através das criaturas. Nunca deixou de estar com elas porque com elas e a partir delas pode expressar a verdadeira relação fraterna. Somente quem se abre à alteridade humana e mundana é capaz de descobrir a própria qualidade do eu como possibilidade vinculativa.

Francisco era um homem que acreditava profundamente e, ao mesmo tempo, homem sensível e poeta. Por isso nele estão, como que sincronizadas, a experiência religiosa, a experiência estética e a experiência poética como se manifesta claramente no Cântico das Criaturas, canto exponencial e sapiencial de sua visão cósmica e de sua relação ecológica e religiosa com o Deus fundante e as coisas fundadas.

O mundo interior do Poverello sintonizava com o mundo exterior, e, de algum modo, este era símbolo daquele, porque seu próprio componente psíquico e espiritual gozava da intimidade e consangüinidade dos seres criados. Conseguiu uma síntese dificilmente superada entre arqueologia interior e ecologia exterior. Isto demonstra que um sincero encontro com a natureza pressupõe um iluminador encontro consigo mesmo e o dinamismo da própria intimidade exige a presença e a realidade do mundo.O cosmos e a psiqué são polos de uma mesma expressividade: "Auto-expresso-me ao expressar o mundo; descubro minha própria sacralidade tentando decifrar o mundo" (P. Ricoeur).

O santo de Assis, mesmo manifestando grande simpatia para com as coisas e os seres da natureza e estabelecendo relações fraterna com eles, não pára neles, mas sobe até o autor e fonte originária de onde tudo recebe sua consistência própria e seu sentido concreto. Todas as presenças criadas, ao mesmo tempo que conservam sua própria consistência, remetem e encaminham para a grande presença fundante. O olhar cristão de Francisco o levava a ver em todos os lugares e em todos os seres a fraternidade universal que Deus havia criado. Não somente souber ver, como também participar e celebrar no maravilhoso cenário da natureza, até o pontode entabolar profundas relações vitais e afetivas com todas as criaturas.

Elementos Franciscanos para uma sensibilidade ecológica
Na educação do homem frente à natureza, Francisco de Assis e a escola franciscana podem oferecer uma atitude alternativa diante das exigências de uma nova mentalidade e uma sensibilidade ecológicas. Para tanto, algumas propostas de uma ecologia operante que a todos compete realizar:

1. Descobrir e respeitar todo o universo como nosso horizonte vital necessário, agindo com justiça para com a natureza e para com todos os seres que nela existem.

2. Partilhar fraternalmente as coisas e os seres da criação com todos os homens, uma vez que formamos todos uma fraternidade. Agiremos assim de maneira justa para com os homens mais fracos, mas desamparados ou desafortunados.

3. Unir todos os nossos esforços no sentido de estabelecer uma paz universal com todos os homens, com os seres da natureza e as coisas. Somente uma desinteressada simpatia transformará nossas relações egoístas.

4. Humanizar a natureza através da técnica. Substituir as técnicas destruidoras e transformar as perigosas por outras mais sadias e humanizadoras.

5. Proclamar e defender uma Carta Magna dos direitos da natureza como realidade viva.

6. Opor-se com todos os meios possíveis: técnicos, econômicos, políticos, culturais, éticos, religiosos a todo tipo de forma de destruição de partes ou regiões de nosso planeta bem como à extinção de espécies da flora e da fauna.

7. Sanear os ambientes perigosamente contaminados, como os oceanos, os mares, os rios, as montanhas, as selvas, etc. e revitalizar todas regiões exauridas ou infecundas.

8. Promover uma pedagogia ecológica que ensine os homens a arte de estar no mundo e a arte de tratar os seres e as coisas. Uma pedagogia que hominize os seres irracionais e humanize nossas relações com as coisas.

9. Trabalhar para a criação de um sistema alternativo em que seja substituído o conceito de progesso mensurável em termos quantitativos de posse e exploração egoísta pelo conceito de progesso baseado na qualidade de vida.

10. Passar do utilitarismo cósmico à celebração cósmica. Para tanto é preciso promover uma cultura ecológica baseada no amor, no respeito e na justiça. Desta forma faremos do mundo nossa própria casa acolhedora onde poderemos aprender a estar, a viver, a compartilhar e celebrar. (Fonte: Cadernos Franciscanos/3 - FFB, 1991, p.9-30)

Por Frei José Antonio Merino, OFM

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