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26/09/2002
Carta do
Definitório Geral por ocasião da Festa de São Francisco A todos os
Frades menores, a quem devemos reverência e grande amor, "saudamos
naquele que nos remiu e nos lavou em seu preciosíssimo sangue" (COrd
3)
Nesses cinco anos, do Capítulo geral de 1997 até hoje, nos diversos
encontros que tivemos, sempre em mútua escuta e diálogo fraterno,
vimos quantas palavras inspiradas e obras boas o Senhor Deus continua
a dizer e a operar em nossa Família, espalhada por todo o mundo mas
unida na caridade de Cristo.Por essas maravilhas, rendemos continuamente
graças àquele que é a fonte de todo o bem.
De nossos encontros emergiram também desafios e preocupações referentes
ao nosso modo de viver e de trabalhar na Igreja e no mundo neste início
do terceiro milênio. Por isso nasceram também indicações e propostas
que, ano após ano, partilhamos fraternalmente convosco, caros Confrades,
"clérigos e leigos, ocupados na pregação, na oração e no trabalho"
(Rnb 17,5). Queremos exprimir nosso sincero obrigado pelo acolhimento
dado às nossas sugestões e propostas, sobretudo às do documento Prioridades
para o Sexênio 1997-2003.
Nesta Carta, que vos escrevemos como Definitório geral por ocasião
da Festa de nosso Pai São Francisco, queremos evidenciar dois temas,
que consideramos fundamentais para a renovação profunda de nossa Ordem:
a centralidade da Palavra de Deus em nossa vida e o estudo a serviço
da vida e do anúncio do Evangelho.
Refletimos sobre esses dois temas, baseando nossa reflexão nas exortações
e no exemplo de Frei Francisco e de tantos co-irmãos que nos precederam
nas pegadas do Cristo pobre e crucificado. Entre esses últimos, lembramos
nosso contemporâneo Fr. Gabriel Maria Allegra, nascido na Sicília
e falecido em Hong Kong no dia 26 de janeiro de 1976, cuja beatificação
esperamos para breve. Nosso Confrade Gabriel Maria, homem enamorado
da Palavra e dela incansável servo, foi um claro exemplo de pessoa
que soube unir - como o fizeram, a seu tempo, os grandes mestres da
Escola Franciscana - uma grande sabedoria com uma autêntica humildade.
Levaram-nos a tratar desses dois temas também as reflexões feitas
pela Comissão Internacional para a Contemplação sobre a Leitura orante
da Palavra, e a recente publicação da Ratio Studiorum da Ordem "In
notitia veritatis proficere".
A Palavra de Deus constrói evangelicamente a pessoa e a Fraternidade
Há um nexo existencial recíproco entre Povo de Deus e Palavra: a Palavra
não existe sem o Povo e o Povo não existe sem a Palavra. O Povo de
Deus é o seio em que se gera a Palavra, mas, ao mesmo tempo, é a Palavra
que gera o Povo. Assim, a comunidade não subsiste sem a Palavra, porque
nela encontra sua identidade.
Também entre Francisco e a Palavra há um relacionamento íntimo e profundo.
Francisco inicia sua caminhada de conversão ouvindo a Palavra e morre
ouvindo a Palavra. Sabemos pelos biógrafos que, durante toda a vida,
Frei Francisco mostrou-se sempre um homem "feito escuta" da Palavra,
tornada para ele "sacramento", "sinal" e "ícone" da presença de Deus
e, de modo particular, da presença do Filho de Deus.
Por isso, ouvindo a Palavra, Francisco tem certeza de ouvir o Senhor.
Venerando a Palavra, tem certeza de estar honrando o próprio Senhor
que a pronunciou. Para ele, a Palavra, escutada na fé, é "espírito
e vida", porque não só nos permite "ver" e "reconhecer" o Filho de
Deus, corporalmente presente na Eucaristia, mas também trazer para
a vivência concreta de cada dia a experiência do encontro com o Cristo
vivo. Podemos por isso afirmar que a vida evangélica de Francisco
foi gerada, amadurecida e conservada pela Palavra. Podemos afirmar
que as Sagradas Escrituras, particularmente os Evangelhos, foram o
"manual" da formação de Francisco, o livro que tornou possível seu
encontro com Cristo. A familiaridade com a Palavra foi para ele uma
experiência tão alegre e envolvente, que se tornou sinônimo de bem-aventurança:
"Bem-aventurado o religioso que não encontra alegria e prazer a não
ser nas santíssimas palavras e obras do Senhor e, por elas, conduz
as criaturas em júbilo e alegria ao amor de Deus" (Adm 21).
Facilmente percebemos que também entre Fraternidade franciscana e
Palavra há uma forte ligação. São Francisco não só "concebe e dá à
luz o espírito da verdade evangélica" (a forma vitae em geral), graças
aos méritos "daquela que concebeu o Verbo cheio de graça e verdade"
(LM III,1), mas também a própria Fraternidade nasce da escuta da Palavra,
como Francisco reconhece em seu Testamento: "O Senhor [que se revelou
a Francisco na escuta do Evangelho] me deu irmãos" (Test 14). A Fraternidade
alimenta-se da Palavra e tem como Regra suprema a Palavra: "A regra
e a vida dos Frades menores é esta: observar o santo Evangelho de
Nosso Senhor Jesus Cristo" (Rb 1,1).
Qual é a nossa atitude diante da Palavra? É a Palavra que guia nossas
escolhas, que nutre nossa oração, que transparece na nossa evangelização?
Francisco, depois de nos ter convidado à "veneração" da Palavra de
Deus, exorta-nos a ser Fraternidade em obediente escuta da mesma Palavra:
"Escutai, Filhos do Senhor e irmãos meus… Inclinai o ouvido do vosso
coração e obedecei à voz do Filho de Deus" (COrd 5).
Um dos aspectos característicos da escuta da Palavra, segundo Francisco,
é a imediata obediência. Para Francisco a escuta e a obediência formam
uma só realidade inseparável. De fato, a escuta da Palavra no Espírito
se reconhece no "santo modo de operar". A garantia de que a escuta
da Palavra foi vivificada pelo Espírito é esta: ter a capacidade de
devolvê-la ao Altíssimo, ao qual pertence todo o bem, "com palavras
e com o exemplo". Para alcançar esse escopo somos convidados a fazer
da leitura orante da Palavra (lectio divina) o alimento da vida, da
oração e da caminhada diária da conversão.
Caros Confrades, por vocação somos chamados a ter constantemente "o
coração voltado para o Senhor" e "rezar sempre ao Senhor com o coração
puro". Podemos alcançar estas prioridades somente através das "palavras
de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é o Verbo do Pai, e as palavras
do Espírito Santo" (2CFi 3) contidas na Sagrada Escritura. Nos últimos
anos muitos Confrades desenvolveram um contacto mais vivo e imediato
com a Palavra de Deus. Em plena comunhão com Francisco e com a Igreja
inteira, devemos continuar nessa estrada, com sempre mais intensidade,
procurando na Palavra um sinal que dê um sentido, uma luz que ilumine
o caminho, uma raiz que garanta estabilidade, uma ocasião propícia
para nos refazer evangelicamente e para reavivar nossa criatividade
apostólica.
O estudo a serviço da vida e do anúncio do Evangelho
Não faz muito tempo, por ocasião do Congresso dos Reitores de nossas
Universidades, João Paulo II nos convidava a "pôr o Evangelho no coração
da cultura e da história contemporânea". Naquela ocasião o Signor
Papa repetia o que dissera ao Capítulo geral de 1991, isto é, que
para nós a formação intelectual e o estudo são uma exigência fundamental
para a evangelização.
Chamados a fazer "saber que não há outro onipotente senão ele" (COrd
9), chamados a observar para, depois, "administrar as odoríferas palavras
do meu Senhor" (2CFi 2), nós, Frades menores do terceiro milênio,
temos necessidade de estudar não para "parecer mais sábios que os
outros" ou para "saber só palavras e interpretá-las aos outros" (Adm
7, 2-3), mas para alimentar a fé nossa e dos outros, para basear seguramente
nossa opção de vida segundo o Evangelho, para dar solidez à nossa
vocação e preparar-nos para a missão. De fato, o estudo "itenerário
e caminho para sermos iluminados por Deus na mente e no coração",
ajuda-nos ao mesmo tempo a progredir na fé e prepara-nos para sermos,
"com grande humildade, testemunhas, anunciadores e servidores da Verdade
e do Bem" (Ratio Studiorum 13), dando a razão da esperança que está
em nós.
Não estaria à base da fragilidade de certas opções vocacionais uma
fraqueza de pensamento, uma falta de formação integral - e por isso
também intelectual - sólida e adequada aos nossos tempos? Reconhecemos,
com verdadeira alegria, que, nos últimos anos, aconteceu uma retomada
dos estudos, em sintonia com a grande tradição da Ordem. As novas
Faculdades, os Centros de Estudo e particularmente o fato que entre
nós vem aumentando dia a dia o número dos que descobrem a importância
dos estudos para um serviço qualificado ao Evangelho e a nossos irmãos,
é motivo de confiança e de esperança.
São ainda numerosos, porém, os Frades que vêem no estudo uma oposição
à "pura e santa simplicidade", amada e saudada por nosso pai Francisco,
ou os que não consideram o estudo como uma tarefa que exige dedicação
e disciplina, não avaliando que se trata de um investimento prolongado,
profundo e austero. Essa mentalidade não faz mais que empobrecer nossa
vida e nossa capacidade de diálogo com o mundo e a cultura hodierna.
É verdade que para o pequeno e ignorante Francisco o Senhor Deus é
o absoluto, é "toda a nossa riqueza e suficiência". É verdade que
nada deve "desviar a mente e o coração do Senhor" (Rnb 22,22) e que
"acima de tudo" precisamos "ter o espírito da santa oração e devoção"
(Rb 5,2). Mas é também verdade que não tem o coração voltado para
o Senhor quem se desinteressa da "verdadeira sabedoria do Pai". Tem-no
quem procura, com o coração orante, os caminhos da Verdade e do Bem
presentes na criação e na pessoa humana, que convergem para Deus,
fonte de toda Verdade e de todo o Bem.
O estudo, se unido à vida - que é conhecimento e devoção, procura
e contemplação, ciência e caridade - além de ajudar-nos no crescimento
humano, cristão e franciscano, permitir-nos-á tirar do grande depósito
espiritual, teológico e filosófico da escola e da sabedoria franciscana
"respostas adequadas também para as dramáticas interrogações da humanidade
nesse início do terceiro milênio cristão", e assim "conseguir um encontro
fecundo entre o Evangelho e as diversas expressões culturais do nosso
tempo" (João Paulo II, Mensagem ao Congresso dos Reitores OFM, 19.09.2001).
Nesse contexto, não duvidamos em repetir, com a Ratio Studiorum da
Ordem, que o estudo "é fundamental na vida e na formação, permanente
e inicial, de todo o Frade menor" (RS 3).
Caros Confrades, na primeira carta que vos escrevemos como Definitório
geral, em outubro de 1997, afirmávamos que o Frade menor do terceiro
milênio deveria ser um homem apaixonado por Jesus Cristo e pela criatura
humana; dizíamos que deveria ser um homem fraterno, de diálogo e itinerante.
Ao terminar nosso serviço, estamos convencidos de que a paixão por
Deus e pela criatura humana, a nossa vocação e missão, pedem-nos pôr
no centro da nossa vida a Palavra de Deus e de fazer do estudo um
instrumento a serviço da contemplação, do anúncio do Evangelho e dos
nossos irmãos.
O testemunho de Frei Gabriel Maria Allegra - homem de cultura vastíssima
em teologia, história universal (em particular chinesa), patrística
e literatura - que fez da oração, da caridade e do estudo da Sagrada
Escritura seu programa de vida e que tornou possível o maior monumento
da literatura religiosa chinesa do último século (a tradução da inteira
Bíblia em chinês) seja-nos exemplo no serviço da causa do Reino e
da humanidade hoje.
"Abençoados sejais pelo Senhor vós que isto fizerdes E o Senhor
esteja convosco eternamente. Amém!" (COrd 49)
Frei Kapistran Martzall, OFM (Def. gen.)
Frei Antonio Riccio, OFM (Def. gen.)
Frei Peter Williams, OFM (Def. gen.)
Frei Peter Schorr, OFM (Def. gen.)
Frei Sean Collins, OFM (Def. gen.)
Frei Gerardo Moore, OFM (Def. gen.)
Frei José R. Carballo, OFM (Def. gen.)
Frei Xavier Yu Soo Il, OFM (Def. gen.)
Frei Estevão Ottenbreit, OFM (Vic. gen.)
Frei Giacomo Bini, OFM (Min. gen.)
Frei Antonio Franjic, OFM (secr. gen.)
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