25/11/2002
Virei em breve!

Roma, Advento - Natal de 2002
Caros Irmãos e Irmãs,
O Senhor lhes dê paz!
Como todos os anos, preparamo-nos para acolher o Senhor que vem e mais uma vez bate à nossa porta: "Se alguém me abrir, eu virei a ele" (Ap 3,20). A fidelidade amorosa e obstinada do Senhor que vem a nosso encontro é sempre a mesma, mas se deixa depender de nossa liberdade e disponibilidade. Só se "abrirmos", ele entrará na nossa solidão insatisfeita, para transformá-la em relacionamento vital e fazer de nós sua casa.
Celebrar o Natal do Senhor significa, sim, comemorar um evento de salvação do passado, mas significa também refazer em nós Sua Presença viva e purificar essa presença de tantos obstáculos e de tantas outras presenças perturbadoras que a sufocam.

Ninguém terá esquecido a ocupação e o cerco da basílica de Belém, alguns meses atrás. Vejo, na experiência dolorosa e dramática da impotência daqueles dias diante do perigo que corriam nossos irmãos e diante da violência das armas dentro e fora do lugar santo, vejo uma "parábola" da situação crítica em que nos encontramos na nossa vida cotidiana: estamos ameaçados dentro e fora por tantas formas de violência; parece que não conseguimos mais guardar as portas de nossa interioridade e deixamos entrar toda espécie de "hóspedes", queridos ou não, que atraem a nossa superficial curiosidade. De fora sentimo-nos continuamente agredidos por um mundo sedutor e sem valores, um mundo que nos distrai do essencial e não sabemos mais como defender-nos dele.

Precisamos de um acréscimo de discernimento espiritual, para reencontrar em nós aquela Presença que dá paz, serenidade e confiança. "O tempo está próximo... sim virei em breve" (Ap 22,10.20). Essas palavras do Apocalipse garantem a nossa esperança: o Senhor veio, o Senhor virá e, sobretudo, o Senhor vem. O tempo da espera será o tempo que levarmos para abrir-lhe a porta e acolhê-lo: "O Reino de Deus está no meio de vós" (Lc 17,21). De fato, o tempo que vivemos depois de sua primeira vinda já é o tempo de sua Presença. De nós se pede apenas de abrir os olhos para percebê-la, aviventá-la, torná-la dinâmica e libertadora em nós e em torno de nós. Parece-nos ouvir novamente a voz do Senhor: "Levantai os olhos e vede como os campos lourecem prontos já para a messe" (Jo 4,35).

Precisamos de olhos novos para ver os sinais da messe que principia a lourejar, os sinais das transformações que estão acontecendo e que vão além daquilo que aparece à primeira vista; olhos novos que consigam perceber o sentido do verdadeiro da história e da vida; olhos novos que saibam reconhecer o rosto do Senhor no pobre, marginalizado e humilhado, nas feridas interiores e exteriores do "leproso" do nosso tempo. Só assim nossa existência não será uma aventura egoística sem sentido, ou uma viagem sem porto, mas estará coinvolta na transformação lenta e progressiva do mundo, transformação de que só Deus conhece os tempos e os modos de sua plena realização. De nós pede-se um olhar "penetrante" para os horizontes ainda não delineados; e sobretudo pede-se um coração não dobrado sobre si mesmo, mas aberto a todos, um coração que saiba esperar mesmo antes de ver a mudança acontecer.

"Vinde, Senhor Jesus": sim, que a chegada de Jesus em nós, neste ano, não nos surpreenda distraídos, adormentados ou despreparados, como se fosse a chegada de um hóspede desconhecido e indesejado; a Presença do Senhor seja como um encontro festivo entre amigos que se visitam regularmente e desejam estabelecer novos laços de relacionamento e de amor, a ponto de o nosso coração sentir-se pacificado, hospitaleiro e reconciliado com todos.

Estes são os meus votos de Natal: que cada um de nós possa reavivar esta Presença e tornar-se transparência de Deus e de sua imagem, uma epifania (manifestação) de Deus no meio dos irmãos e das irmãs que encontrarmos. Assim, o novo ano será um kairós, um tempo privilegiado de libertação e de amadurecimento para o encontro que não terá fim.

O Senhor que vem conceda a todos e a todas de viver as Festas do Natal na paz e na serenidade.

Fraternalmente,
Frei Giacomo Bini, ofm
Ministro geral




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