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24-03-2003
Testemunhas e anunciadores da paz

Queridos irmãos e irmãs,

Vivemos trágicos tempos de violência e destruição. Às 24 guerras já em curso se está unindo outra todavia mais perturbadora para a humanidade inteira. Tantas pessoas de boa vontade de todas as religiões e de condições sociais querem dissociar-se dos propósitos de morte, que ofendem a Deus e ao homem. Dizem: "Basta a guerra! Basta a violência! Basta os atropelos e toda forma de terrorismo! Basta o desejo desenfreado de poder! Basta as injustiças e os desequilíbrios sociais que são a causa de toda discórdia e divisão!"

Nós franciscanos não podemos permanecer em silêncio, à margem deste movimento pela vida. São Francisco nos pede que sejamos artífices de paz onde quer que vivamos.

· Com a oração constante e intensificada neste tempo privilegiado de Quaresma: uma oração pessoal e prolongada, uma oração mais constante em fraternidade, junto às pessoas que freqüentam as nossas igrejas para pedir a Deus o perdão e a paz. A esperança da paz renasce e se fortalece neste próprio diálogo com Deus e nos ajuda a re-situar a nossa existência na harmonia das relações; a oração é sempre abertura e encontro, é sempre etapa de reconciliação conosco mesmos, com os outros e com Deus.

· Com nossa vida pacificada, harmoniosa e re-centrada em Deus. Seremos portadores de paz quando estivermos pacificados dentro de nós mesmos.

· Com nossa presença dialogante em meio aos homens e mulheres de boa vontade, indo ao encontro de todos, amigos e inimigos, acolhendo e valorizando todos os desejos de comunhão. Cada irmão e cada fraternidade devem encontrar os meios e os instrumentos para expressar este tipo de presença no ambiente onde vivem.

· Com jejum e penitência. A fome mata como a guerra e mais que a guerra: devemos empenhar-nos numa co-participação fraterna. São Francisco nos recorda que tudo vem do único Deus, Pai de todos, e que se deve compartilhar tudo com os outros, como simples dever de restituição. O jejum orientado a Deus e à partilha é um instrumento de paz muito importante, pois nos ajuda a purificar-nos da avidez de possuir e do supérfluo, que é sempre uma forma de violência em confronto com pobre. O jejum e a penitência apóiam a nossa oração e dão credibilidade à nossa palavra.

· Com o anúncio explícito de paz feito em fraternidade com valentia e criatividade. Cada um é responsável em seu próprio âmbito e atividade, por este empenho e tem o dever de anunciar a paz com a vida e a palavra. São Francisco recorda que o silêncio pode ser culposo e que a inação pode ser uma "vergonha" (cf. LP 84b). Não podemos abandonar-nos a uma resignação estéril: o admirável exemplo de sua Santidade João Paulo II deve incitar-nos a usar todos os meios possíveis para construir a paz e reconciliação.

Irmãos e irmãs: como franciscanos, somos chamados a ser profetas de paz, homens e mulheres que sabem entrever e recorrer com outras pessoas sentimentos de paz; que sabem apresentar gestos fraternos de reconciliação e comunhão; testemunhas valorosas do amor, pois o Deus da paz não nos abandona e toda a semente de fraternidade lançada no campo do mundo produzirá sem dúvida seus frutos.

Profetas de paz que, com sabedoria evangélica, sabem viver e anunciar a esperança cristã, embasada na fidelidade de Deus ao homem, não obstante os tempos críticos e difíceis que estamos vivendo. Devemos ter os olhos fixos na misericórdia do Pai, da que somos todos devedores.

Como profetas, e como franciscanos somos chamados a viver e a proclamar com sensibilidade evangélica esta misericórdia do Pai a todos os homens, "maus e bons, justos e injustos" (Cf. Mt. 5, 45). Somente assim poderemos evitar toda forma de fundamentalismo, de terrorismo, de ameaça ou de vingança que se alimentam sempre de uma visão parcial e redutora da vida, com o risco de difundir terror, guerra e morte em torno a nós.

A Virgem da paz interceda por nós.

Deus, Pai-nosso: Tu vês nossa terra ensangüentada por tantas guerras e abatida por tantos sofrimentos; uma vez mais - e mais que no passado - as vítimas do ódio são civis inocentes, mulheres e crianças. Apresentamos-te esta dor como sacrifício que unimos ao de teu Filho na Cruz para redenção do mundo!

Senhor, pedimos-Te o dom da paz: Faze de todos nós instrumentos de tua paz!

Roma, 16/03/2003.
Frei Giacomo Bini, OFM
Ministro Geral