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Os traços do rosto franciscano
Por
Frey Neylor Tonin
Nós
temos um rosto, rosto conhecido, com traços acentuadamente
evangélicos, traços admiráveis em si
e admirados por meio mundo. É o nosso rosto franciscano.
Ninguém de nós, possivelmente, quererá
mudar de rosto. Temos orgulho dele, embora sintamos necessidade
de retocá-lo, de tempos em tempos, diante dos espelhos
da nossa casa.
Sem nos
ocuparmos com o rosto dos outros, que podemos aplaudir mais
ou menos, sentimo-nos felizes com o rosto teológico-espiritual-existencial
que temos. Este rosto tem muita história, vem lá
do fundo dos tempos, e teve um primeiro escultor: São
Francisco de Assis, a quem Pio XI chamou de "um quase
Cristo redivivo".
Em sua
cola, seguiram-se muitos outros escultores, que foram aprimorando
os traços do nosso rosto, sempre fiéis à
inspiração original. Ele foi tomando sempre
mais o jeito do rosto de Cristo. Poderíamos perguntar-nos
se não houve deformações, se não
se acrescentaram traços estranhos? Não seria
o caso de negá-lo.
Mas o
rosto continua aquele, que nos encanta e fascina, que nos
desafia e provoca. Hoje, com um esforço que já
tem seis anos, estamos tentando resgatar os traços
deste rosto para nossa ação evangelizadora.
Como franciscanos,
qual é a nossa vocação? Nossa vocação,
e razão de ser na Igreja e no mundo, é seguir
Jesus Cristo, vivendo encantados por ele, como fraternidades
evangelizadoras.
Na base
deste encantamento vocacional, já não existem,
em verdade, perguntas para uma definição, mas
tão-somente tentativas de respostas para uma adesão
mais superlativa.
Para nós,
viver é Cristo. Cristo é a nossa vida. Cristo
é nossa vida e morte, é o ar que respiramos,
é o chão que queremos pisar.
A qualquer
franciscano, pede-se apenas que saiba ler o evangelho vivo
que é Jesus, porque Jesus é a palavra que devemos
entender e a vida que mais prezamos e desejamos partilhar
com todas as pessoas.
Nenhum
outro projeto pode, por conseguinte, tomar o lugar de Cristo.
Cristo é a forma minorum, o projeto matriz da nossa
forma vitae
Por definição,
somos arautos do Grande Rei, a ele pertencemos numa aliança
de vida e morte. Ele é o tesouro onde deve estar nosso
coração.
Como ninguém
é avaro e vive só para si, à vocação
segue-se o imperativo da missão evangelizadora que
é nosso modus vivendi. Vivemos para o Reino, como frades
e como fraternidade. O mundo é nosso convento. A evangelização
é o nosso apanágio.
Como frades,
somos chamados a semear, a ir aos areópagos, a não
ter outra missão senão a de pregar o evangelho,
curar os doentes e leprosos e expulsar os demônios.
Esta é a nossa missão em sentido amplo. Num
sentido estrito, nossa missão tem um endereço
certo e obedece a uma inequívoca opção:
a vida e a casa dos pobres, dos mais pobres.
Estes
são, como desde o início foram para São
Francisco, os novos e privilegiados areópagos da missão
franciscana. Como Cristo, os pobres são o tesouro do
nosso coração evangelizador.
Mas para
bem evangelizarmos os pobres, temos que evangelizar, primeiro,
as nossas pobrezas, mudando e curando as raízes do
nosso eu. Isto inclui evangelizar nossos medos e aversões,
evangelizar nosso modo pecador de ser e o barro de nossa vida.
Em outras palavras, importa ser, fazer-se e sentir-se menor.
E este
minorismo que, purificando-nos de ambições e
vontades pessoais, de sonhos plausíveis mas não
de grupo, dará força para sermos fraternidades
evangelizadoras.
Identidade
franciscana
Colocadas estas duas premissas - vocação
e missão -, podemos nos voltar para a identidade
e elencar os valores do nosso modus vivendi e operandi.
Podemos perguntar-nos: De onde nasceu a inspiração
franciscana para nosso viver e agir?
As Fontes
testemunham que o móvel de ser e de agir de Francisco
lhe veio, em verdade, de dois exemplos: o de Cristo: crucificado,
fora dos muros de Jerusalém, e o dos leprosos execrados,
fora das muralhas de Assis.
O primeiro
se fez, para Francisco, ordem irrecusável, quando o
mandou reconstruir Sua Igreja. E os leprosos, os homens das
dores da Idade Média, cobraram-lhe a gratuidade de
um beijo, que lhe foi, inicialmente, penoso, mas que, finalmente,
lhe encheu a alma de gozo e doçura.
Estes
dois encontros abriram-lhe a alma para os grandes valores
de nossa espiritualidade: a providência de Deus e o
amor pela signora e donna povertá: o relacionamento
casto com Clara e com todas as mulheres; a convivência
benévola com os irmãos e estranhos, ladrões
e sultões, prelados da Santa Igreja e pobres de todas
as pobrezas; a cordialidade para com todas as criaturas, lobos
e cotovias, riachos congelados e pessegueiros em flor.
Exortava
os irmãos a que pregassem a Paz e ensinava-lhes que
a única tristeza possível seria a do pecado.
Rezava e queria que rezassem. Ele mesmo foi feito uma sarça
ardente de oração, porque não só
se ajoelhava diante de Deus, como reverenciava até
mesmo os indignos ministros do sacratíssimo Corpo do
Senhor.
Mesmo
sem castelos, foi cavaleiro e tinha um espirito repassado
de cortesia. Cultivou dois locais emblemáticos para
a espiritualidade franciscana: viveu no estábulo de
Rivotorto e na capelinha da Porciúncula. No primeiro
tinha a companhia de animais; no segundo, a dos anjos que
esvoaçavam
em tomo à Santíssima Virgem.
A cada
ano, fazia questão de levar dois peixinhos do riacho
que corria junto à igrejinha para o Abade de Monte
Subásio, deixando claro que a Porciúncula continuava
sendo dele, mesmo sendo o berço da Ordem e o lugar
afetivo em que cortara as tranças da Irmã Clara.
Tinha entranhada devoção filial à Santa
Mãe de Deus e ardente paixão pela humanidade
de Jesus.
À
moda de conclusão, não ignorando as muitas falhas
desta sumária lista de valores, diríamos que
a identidade franciscana tem as seguintes caraterísticas
que lhe dão um rosto inconfundível: ela é
casta e livre, é de serviço e de companhia,
é misericordiosa e universal, é alegre e de
paz. É vertical e horizontal, como uma cruz que é
de vida e morte.
Francisco
não teve vaidades, jamais foi arrogante, embora a graça
de Deus o trabalhasse generosa e visivelmente. Não
alimentou sentimentos de inferioridade diante de reis e príncipes,
nem foi mesquinho e insensível frente aos necessitados,
mas só sentia inveja de irmãos que pudessem
ser mais
pobres do que ele. "Ao chegar aos pobres, não
se contentava em dar-lhes o que possuía.
Desejava
dar-se a si mesmo e, quando já não tinha mais
dinheiro, entregava suas vestes, descosendo-as ou rasgando-as
às vezes para as distribuir" (LM 1,6). Foi firme
com os gananciosos e desarmado diante dos poderosos.
Paciente
nas tribulações e doenças, não
apreciava títulos e honrarias e queria que todos fossem
simplesmente irmãos. A si mesmo se considerava menor,
pecador e indigna criatura do Deus Altíssimo.
Por isso,
"seu modo de vida o transformou radicalmente: nas idéias
e sentimentos, nas vestes e no comportamento" (LM 2,1).
Como arauto do Grande Rei, morreu deixando para a história
a imagem de um crucificado e colocando nas mãos de
seus seguidores a bandeira da Paz e do Bem.
A utopia
franciscana
Dentro do mundo dividido por roupas bufantes e andrajos vis,
medos e discriminações, classes e guetos, São
Francisco entendeu que a mais radical mensagem evangélica
vinha do céu, mas tinha que ser construída,
aqui, na terra. Cristo trouxe a morte dos exclusivismos, decretou
o fim dos privilégios e abriu as portas do banquete
para todos, indistintamente.
Na pregação
de Cristo, o paraíso não tem cercas. Nem o convento.
Por causa do fratemismo. Pobres, doentes e pecadores são
os privilegiados destinatários do anúncio da
Boa Nova. Com Cristo, o Reino de Deus chegou e são
reinagurados os tempos divinos da Fraternidade definitiva.
Somos todos irmãos, porque temos todos um Deus que
é igualmente Pai de todos.
Isto São
Francisco intuiu e quis dar corpo a esta realidade dentro
e fora da Ordem..Por isso, não quis que ninguém
fosse Abade ou Prior, mas que todos fossem simplesmente irmãos.
Fora dos conventos, também. A começar pelos
leprosos, pelos pecadores e por Dona Pobreza, todos deveriam
ser tratados da mesma forma. IRMÃO, eis o grande título
resgatado pela utopia franciscana!
SER
IRMÃO é o maior e o único titulo
de honra dentro da espiritualidade franciscana. Não
só Deus lhe deu irmãos, mas quis que os frades,
como irmãos, fossem pais e mães uns dos outros.
Uns dos outros e de todas as criaturas.
Outros
poderão ostentar nobilíssimos apanágios:
o nosso, o apanágio franciscano, é o de ser
irmão, dentro e fora dos conventos. Seremos franciscanos,
quando irmãos em espirito e de verdade.
Formar
um frade é formá-lo para ser irmão. Trabalhar
como frade é servir como irmão. Viver como franciscano
é viver, teimosamente, como irmão.
Podemos
não ter outras virtudes, mas só a falta de fraternismo
adulteraria nossa identidade e nos excomungaria da utopia
franciscana. Santos seremos e nos santificaremos junto com
os outros na cruz da convivência fraterna. O nosso maior
pecado, o pecado mortal de nossas vidas, por isso, será
o da falta de amor fraterno.
Entre
nós, quem não for irmão será um
estranho no ninho. O maior elogio que podemos dar a uma pessoa
é o de chamá-lo de irmão. Esta é
a nossa utopia, a utopia franciscana para a qual devemos,
como Província, somar alma e
coração.
Frei
Neylor, irmão menor e pecador
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