23/04/2004
Carta do Ministro Geral por ocasião da Páscoa

Seguindo com a Igreja o caminho penitencial da Quaresma e vivendo com todos os seus filhos os sagrados mistérios da paixão e morte do Salvador, chegamos à solene celebração anual da Páscoa de Ressurreição. Cristo ressuscitou. Nos ouvidos daqueles que ainda buscavam entre os mortos Jesus de Nazaré, ressoa o evangelho mais inesperado, a notícia que enche de glória, de graça e de luz aqueles corações obscurecidos pela tristeza: por que procurais entre os mortos aquele que vive? Não está aqui, ressuscitou (Lc 24,5-6).

É a Páscoa de Cristo! É a Páscoa do mundo em Cristo! Cristo com a sua luz dissipa para sempre as trevas do mundo! Hoje, porque Cristo ressuscitou, é o primeiro dia de uma nova criação, e uma humanidade nova, revestida de justiça, abençoada com a paz e libertada da antiga escravidão do pecado e da morte, entra nos caminhos da história. Hoje, porque Cristo ressuscitou, no jardim, no qual Deus colocou o homem, voltam a crescer o perdão e a paz, a alegria e a esperança, a liberdade e a vida. Hoje, porque Cristo ressuscitou, se iluminam os nossos olhos com a luz da glória do Senhor, e ressoa em toda a terra o canto dos redimidos que, felizes pela salvação recebida, bendizem a Deus Pai, fonte da salvação, e enaltecem a Cristo, que de nossa salvação é o único mediador (cf. Ap 7,10).

O caminho de Cristo Senhor e de Francisco
Enquanto contemplamos atônitos a meta alcançada por Cristo e admiramos felizes a glória que em Cristo o amor do Pai oferece a toda a humanidade, não deixamos de considerar o caminho que conduz àquela meta, caminho que o altíssimo Filho de Deus quis percorrer na humildade da nossa carne, na verdade da nossa condição humana, que são, pela encarnação, sua carne e sua condição.

Este caminho do Filho, enquanto pessoas de fé, o encontramos se aderirmos às palavras, à vida, à doutrina e ao santo Evangelho daquele que se dignou a orar por nós junto ao seu Pai e a manifestar-nos o seu nome (cf. Rnb XXII,41). Em verdade, este caminho nos é indicado por Jesus Cristo com a sua atitude e os seus sentimentos, pois Ele, apesar de sua condição divina, não se apegou à sua igualdade com Deus; ao contrário, se despojou a si mesmo e assumiu a condição de escravo, fazendo-se um de nós. E assim, atuando como um homem qualquer, se rebaixou até submeter-se inclusive à morte, e uma morte de cruz (Fil 2,6-8).
Dia a dia, com todo o amor do coração, como irmãos e irmãs, nos esforçamos em aprofundar este mistério de infinita humildade, pelo qual o Senhor de todos veio a ser servo de todos. O altíssimo Filho de Deus se abaixou até o abismo de nossa miséria, e o dono de tudo, por puro amor, sendo rico, se fez pobre para enriquecer-nos a todos com sua pobreza (cf. 2Cor 8,9).
A fé nos permite ver que para a salvação dos pecadores e a redenção dos escravos o Senhor não escolheu o caminho da riqueza e do poder, mas aquele da pobreza, da humildade e do serviço. A partir da fé dos irmãos e das irmãs, podemos intuir que somente poderemos acolher a salvação e a redenção se pela pobreza, humildade e pelo serviço entramos no caminho de Cristo e seguimos suas pegadas (cf. 1Pe 2,21).

Nu nasceu entre nós Aquele que é a Palavra de Deus, e foi envolto em panos e em ternura com amor por sua mãe Aquele que é luz e vida de tudo o que existe. Despojado de suas vestes, morreu por nós o Filho de Deus. Despojado de toda a beleza, se entregou por nós Aquele que é a graça do universo.

Este foi o caminho que, movido pela graça de Deus, quis percorrer o bem-aventurado Francisco, e este é o caminho pelo qual, fiéis ao mandato do Senhor, procuramos seguir também nós, seus irmãos de hoje: Se queres ser perfeito, vai, vende quanto tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus, e vem e segue-me [Mt 19,21]. Não leveis nada pelo caminho [Lc 9,3]. Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo [Lc 9,23] (cf. 1Cel 24; 2Cel 15). Tal é a nossa vida e regra, e a de todos aqueles que querem unir-se à nossa companhia (LM III,3).

Contemplando Cristo crucificado, o irmão Francisco gravou no mais íntimo de seu coração a memória da paixão do Senhor e, compreendendo que se dirigiam particularmente a ele as palavras do Evangelho: Se queres vir após mim, nega-te a ti mesmo, toma a tua cruz e segue-me (Mt 16,24) se revestiu do espírito de pobreza, do sentimento da humildade e do afeto de uma terna compaixão, que o levou a abraçar a Cristo nos mais pobres, nos leprosos, prestando-lhes seus humildes e humanitários serviços (LM I,5-6), e a imitar Cristo, Filho de Deus bendito e glorioso, seguindo seus passos pelo caminho da humildade e da pobreza (cf. Rnb IX,1).

Como seu Senhor Jesus Cristo, também o irmão Francisco entrou nu no caminho da conversão, livre de tudo o que é do mundo, livre de todo o cuidado de si mesmo, livre de todo impedimento para o combate espiritual (cf. 1Cel 15). E, como fiel imitador de Cristo, chegada a hora de seu trânsito desde a luz temporal à luz perpétua, o irmão Francisco fez com que o pusessem nu sobre a terra nua, e assim, despojado da túnica de saco, voltou, segundo o costume, o rosto ao céu e disse aos irmãos: "Concluí minha tarefa; Cristo vos ensine a vossa" (cf 2Cel 214).

Nosso caminho com Cristo Senhor e com Francisco
Há uma pobreza que, antes de ser pobreza do religioso, o é do cristão. Esta pobreza cristã, por sua natureza, é prolongação na Igreja do mistério da pobreza de Cristo.

O Filho de Deus, bendito e glorioso, que se ofereceu a si mesmo como sacrifício e vítima sobre o altar da cruz (Carta a todos os fiéis, 2.ed, I,11), segue vivendo através da Igreja, na Igreja, que é seu corpo, o mistério de sua pobreza abraçada para enriquecer a todos os pobres do mundo.

Esta pobreza de Cristo em sua Igreja a viveu de forma exemplar e sublime a bem-aventurada Virgem Maria, que, sendo cheia de graça e Mãe de Deus eleita pelo santíssimo Pai do céu (cf. Saudação à bem-aventurada Virgem Maria 1-2), quis ser escrava do Senhor para ser toda de seu Deus, a cuja palavra obedeceu, e ser toda de seu Filho, a quem com amor acolheu, e ser toda de todos, os quais como filhos recebeu.

Esta pobreza de Cristo em sua Igreja é a que nós desejamos com todo o coração tornar visível em nossa forma de vida, uma forma de vida que, aproximando-nos da vida e condição dos pequenos da sociedade, mostre a todos que é possível tornar presente na terra o Reinado de Deus (cf. CCGG 66 §1).

"Servo" quis fazer-se Aquele que é Senhor de todos; "serva" quis ser sua santíssima Mãe, que é Rainha e Senhora do Universo; e nós, irmãos, fiéis à própria vocação de menores, queremos ir pelo mundo com gozo e alegria como servos e súditos de todos, pacíficos e humildes de coração (CCGG 64), pois, dos que assim são, diz o Senhor: Felizes são eles porque herdarão a terra e serão chamados filhos de Deu (cf. Mt 5,5.9).

Somente a pobreza, abraçada pelos irmãos como esposa e amiga, fará possível que nos dediquemos totalmente a Deus sumamente amado (cf. CCGG 1) e levemos, guiados pelo Espírito Santo, uma vida em tudo conforme à vida de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. LM, Prólogo 1).

Somente esta pobreza, que é de Cristo e que nós, irmãos, professamos por amor a Cristo, fará possível em cada um de nós a obediência perfeita, a disponibilidade do coração, da mente, de todo o ser para acolher a Palavra do Senhor e aderirmos à sua santíssima vontade, reconhecendo a Ele como sumo bem, como nosso único bem (cf. CCGG 65).
Somente esta pobreza, que nos faz imitadores de Cristo e de sua santíssima Mãe e dos santos Apóstolos, possibilitará que cumpramos a missão à qual fomos chamados, pois somente os que nada têm que os amarre ou que lhes sirva de impedimento poderão ser enviados a proclamar no mundo o Evangelho a toda a criatura.

Esta pobreza de Cristo, que nos permite ser de Deus pela obediência, é também a que nos permite ser dos homens pela missão.

Somente a pobreza de Cristo torna visível a esperança. Somente a partir da pobreza de Cristo se torna verdadeira a confiança em Deus. Somente a partir da experiência da pobreza de Cristo, a confiança filial em Deus se faz abandono total nas mãos do Pai.

Na verdade, somente o seguimento de Cristo pobre e crucificado torna possível que a paz do Senhor Ressuscitado tome posse do nosso coração agitado, que a alegria da Páscoa cure pela raiz a tristeza de nossa existência, e que Deus chegue a ser de verdade todo o nosso bem, de modo que nenhuma outra coisa desejemos, nenhuma outra queiramos, nenhuma outra nos agrade e deleite, a não ser nosso Criador e Redentor e Salvador, o único verdadeiro Deus, que é o bem pleno, todo o bem, o bem total, o verdadeiro e sumo bem (cf. Rnb XXIII,9).

Conclusão
Queridos irmãos: nossos olhos não se cansam de contemplar Cristo ressuscitado que, tendo abraçado com infinita caridade nossa pobreza, entrou na glória do Pai. De nossa memória não queremos afastar tampouco a imagem do bem-aventurado Francisco que, tendo-se feito em sua vida imitador de Cristo pobre e crucificado, libertado já em sua morte das ataduras da carne, mergulhou glorificado no abismo da claridade eterna (cf. LM XIV,6). Cristo completou pobre sua obra. Francisco concluiu pobre sua tarefa.
Agora cabe a nós:
>> o Assumir, como atitude existencial, o viver sempre em atitude de conversão (cf. Rb II,17), denunciando, deste modo, os falsos valores de nosso tempo.

>> o "Viver sem nada de próprio" (Rb I,1), como prometemos; livres e desapegados de lugares, pessoas e coisas, como "peregrinos e estrangeiros neste mundo" (Rb VI,1); colocando as estruturas a serviço da vida e não esta a serviço daquelas.

>> o Trabalhar "fiel e devotamente", fugindo da ociosidade, "inimiga da alma" (Rb V,1-2) e colocar o fruto do trabalho ou qualquer outro ganho a serviço da fraternidade (cf. CCGG 79,2).

>> o "Restituir ao Senhor, "com a palavra e o exemplo", todos os dons que dele temos recebido." E considerando que somente a ele pertencem (cf. Adm 7), nos sentimos obrigados a compartilhá-los fraternalmente com os que tem menos que nós.

>> o Ser "afáveis, pacíficos e modestos, mansos e humildes" (Rb III,11), anunciadores de paz e de justiça, sem julgar a ninguém, nem irritar-se ou perturbar-se por coisa alguma, nem mesmo pelo pecado do irmão (cf. Adm 11).

o Assumir a vida e condição dos pequenos da sociedade, comportando-se entre eles como menores e sem distanciar-se, pelo nosso modo de viver, dos que menos recursos têm (cf. CCGG 66), e "aceitando de bom grado sermos tidos por vis, simples e desprezados" (cf Adm 19).

E não esqueçamos nunca, irmãos e irmãs, que a vontade de Francisco é esta e é o que prometemos: seguir sempre a doutrina e as pegadas de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Rnb I,1) e amar sempre "a nossa senhora a santa pobreza" e observá-la fielmente (Testamento de Siena).

Ora, enquanto olhamos no espelho de Cristo a pobreza e humildade do altíssimo Filho de Deus, e contemplamos no Senhor ressuscitado a glória que se oferece a toda a humanidade, exaltamos e proclamamos vencedor Aquele que por sua única graça nos conduziu da escravidão à liberdade, da tristeza à alegria, do luto ao dia da festa, das trevas à sua luz admirável, da servidão à redenção, e entoamos em sua presença um cântico novo:

Aleluia!Que nos acompanhe sempre a bênção do Seráfico Pai.

Roma, 19 de março de 2004.
Fr. José Rodríguez Carballo, OFM - Ministro Geral
Fr. Sandro Overend Rigillo, OFM - Secretário Geral

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