24/09/2004
Franciscanismo
e Jesuitismo na educação brasileira
No dia 22 de setembro último, na Faculdade de Educação
da Universidade Federal Fluminense (Niterói - RJ), Luiz
Fernando Conde Sangenis defendeu a Tese Doutoral intitulada "Gênese
do Pensamento Único em Educação: Franciscanismo
e Jesuitismo na Educação Brasileira".
"Escovar a contrapelo" a memória educacional brasileira:
a metáfora benjaminiana explica o intento da Pesquisa empreendida.
Isso significou controverter as reminiscências do ensino de
História nas escolas, reforçadas pelos manuais e livros
didáticos que, obrigatoriamente, reportam à atividade
missionária/educacional da Companhia de Jesus, a partir de
sua chegada à Bahia, em 1549. Os autores que tematizaram
a História da Educação Brasileira, ao considerarem
tão expressiva a ação educativa dos jesuítas,
entre 1549 e 1759, caracterizaram esse lapso de mais de dois séculos
pelo presumível exclusivismo jesuítico, apesar do
protagonismo - em geral, ignorado ou silenciado - de franciscanos,
de beneditinos, de carmelitas, de mercedários, de oratorianos
e de outros religiosos na cena educacional brasileira do período
colonial. Desse conjunto de lembranças, a começar
pela implantação da escola, no Brasil, estão
destacadas a fundação do Colégio da Companhia
de Jesus que deu origem a São Paulo, maior cidade da América
do Sul, a obra evangelizadora/educacional realizada pelos inacianos
entre os guaranis, as figuras dos Padres Manoel da Nóbrega
e José de Anchieta, este denominado Apóstolo do Brasil,
com suas biografias estreitamente vinculadas a nossa história
educacional, entre outras.
De fato, os jesuítas empreenderam no Brasil uma significativa
obra missionária e evangelizadora, especialmente fazendo
uso de novas metodologias, das quais a educação escolar
foi uma das mais poderosas e eficazes. Em matéria de educação
escolar, os jesuítas souberam construir a sua hegemonia.
Não apenas organizaram uma ampla "rede" de escolas
elementares e colégios, como o fizeram de modo muito organizado,
contando com um projeto pedagógico uniforme e bem planejado,
sendo o "Ratio Studiorum" a sua expressão máxima.
À pesquisa empreendida por Luiz Fernando Sangenis interessou,
em especial, a atividade missionária/educacional dos franciscanos,
presentes no Brasil, desde 1500, marcada por disputas com os jesuítas.
Quais as possíveis explicações para esse estranho
e generalizado silenciamento sobre a matéria? Por que pouco
se ouviu falar da iniciativa educacional desses outros grupos, no
Novo Mundo, especialmente dos franciscanos, no Brasil? Quais as
possíveis explicações para um estranho e generalizado
silenciamento sobre essa matéria? Livros didáticos,
manuais e compêndios de História da Educação,
materiais audiovisuais, sites da Internet não contêm
nem mesmo uma linha, uma imagem sobre a ação educacional
dos franciscanos no Brasil, apesar de tantas pesquisas motivadas
por ocasião das celebrações dos "quinhentos
anos do descobrimento".
A história registra, no entanto, que os primeiros missionários
a chegarem ao Brasil foram franciscanos. Esse acontecimento foi
eternizado na tela de Victor Meirelles, que faz parte do acervo
do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, retratando a
Primeira Missa, celebrada pelo franciscano Henrique Soares de Coimbra.
Esta cena está gravada no imaginário nacional como
o acontecimento fundante do Brasil.
Nesse campo de investigação, esbarra-se com uma série
de problemas que vão desde o tratamento acrítico das
fontes documentais disponíveis às cristalizações
de conceitos equivocados, construídos ao longo do tempo,
ainda, hoje, persistentes. Ao buscar fontes documentais e bibliográficas
sobre a educação brasileira, entendendo-as como elaborações
complexas de memórias e de projetos plurais, deparamos com
uma realidade asfixiante, que parece contrapor-se à diversidade,
na própria História da Educação Brasileira:
o predomínio da narrativa histórica num tipo de influência
educacional que desvaloriza as contribuições que divergiram
do padrão dominante. A presença dos franciscanos na
educação brasileira é um tema quase intocado.
Para vir a lume, há que se juntar pedaços, reconstituir
fragmentos, identificar e valorizar indícios considerados
secundários, reler documentos e fontes, sob nova perspectiva,
estabelecer conexões entre acontecimentos nacionais e supranacionais.
A análise das rivalidades e das questões disputadas
entre o franciscanismo e o jesuitismo, no Brasil, considerando-se
as suas conexões internacionais, permitiu a compreensão
dos processos que instituem o pensamento único, na educação,
à medida que as práticas uniformizadoras buscaram
suprimir o pensamento e a ação permeados pelo valor
da diferença, defendido pelo franciscanismo.
A ação educacional e missionária dos franciscanos,
resistindo a tantas intempéries, permeou quinhentos anos
de história ininterrupta. Seu esforço de educar os
filhos da terra e os que aqui chegaram, através da catequese,
da criação de escolas nos seus diversos níveis,
bem como sua dedicação às ciências e
às letras, foram marcados por uma forte empatia com o povo,
cujos interesses e aspirações comungaram. Indissociavelmente
vinculado à formação das nossas gentes, o franciscanismo
é parte da alma do Brasil.
A Tese foi aprovada por unanimidade pela Banca Examinadora, sendo
ressaltado o caráter inédito da pesquisa, a coleta
original das fontes, a contribuição transdiciplinar
para repensar a história política da educação
brasileira. Por essas razões, a Banca recomendou "com
veemência a publicação da Tese".
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