06/12/2004
Katepa,
o desafio de ser Missionário
Fr. Samuel F. Lima, ofm.
Estar nas missões significa cada dia desinstalar-se para
abrir-se ao novo e ao diferente, na gratuidade de Deus, sem grandes
sonhos ou realizações, apenas buscar, no dia-a-dia,
dar o melhor de si para corresponder ao chamado do Pai diante dos
desafios que o seguimento impõe nas mais diversas situações.
Foi assim que, do dia 24 de julho até 29 de outubro, realizou-se
todo o itinerário missionário de nossas comunidades
do Interior angolano, numa extensão de 400 quilômetros,
envolvendo nove regiões e 750 aldeias, tendo de cruzar rios
sem pontes, estradas destruídas, picadas com risco de minas,
trilhas esburacadas, dormindo pelos caminhos e comendo daquilo que
o povo dispõe com tanto carinho.
O que encontramos foi um povo faminto de Deus, que chegava na igreja
às 2 da madrugada para conseguir um lugar, sendo que a celebração
só se realizaria às 8 da manhã. Os catequistas,
implorando por mais assistência e missionários, material
de catequese, cursos de formação e vontade de tirar
os anos de atraso de isolamento e abandono religioso.
Todo este esforço humano e material é muitas vezes
duramente questionado, pois na visão moderna não é
lógico, não dá lucro, não resulta em
ganhos pastorais, não dá status e ibope, ao contrário
é muito desgastante: doenças, danos aos veículos,
burocracia, demasiado tempo em esperas para se residir no país,custo
financeiro alto, um povo com muitas crenças, grandes lacunas
sociais, principalmente na educação etc..
Celebrar o mês missionário deve levar cada um de nós
a um sério questionamento sobre a missão que Deus
confiou a cada um de nós como consagrados a Ele. Sobre a
responsabilidade que temos na construção do Reino
e na promoção da paz. Não basta dar coisas,
incentivo e apoio, se faz necessário se consumir, doar-se
sem limites e reservas, abraçar a cruz do nosso amado de
todo o coração, pois quem carrega a cruz não
somos nós, mas Ele em nós.
Por que ainda temos tantas reservas ao projeto missionário
da Ordem e da Igreja? Por que alimentamos medos que diluem a nossa
fé? Por que pensamos tanto nos gastos e nos recursos humanos
se tudo é pertença de Deus? Por que retemos o muito
que temos com receio de nos faltar? Por que vemos problemas em tudo
sendo que a vida é apenas desafios? Por que nos apegamos
às coisas se tudo é passageiro? A missão não
é slogan de campanha e,nem propriedade de "loucos"
e "aventureiros", ao contrario é participação
no projeto do Reino de Deus, no nosso tempo e na história.
Ser gratuito e generoso dando a Deus aquilo que é de Deus
- a própria vida e os frutos que surgem.
Como nos revela a grande missionária de nosso tempo, Madre
Teresa de Calcutá: "Ninguém deve recusar qualquer
trabalho, por mais pequeno que seja. Qualquer tarefa de amor é
uma tarefa de paz por mais insignificante que pareça."
Vivemos num mundo "doente", "gravemente enfermo",
que necessita de mãos bondosas que desejam servir, e de corações
generosos, que desejam amar, pois todo o gesto de amor realizado
com sinceridade de coração, tem a capacidade de aproximar
as almas de Deus.
Só nos compreendemos como missionários naquilo que
fazemos e no lugar que estamos se podemos realmente fazer, em tudo,
a vontade do Pai. Devemos ser gratos a Deus por enviar cada um de
nós a uma missão especial que só cada um pode
realizar na implantação do Reino de Deus.
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