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08/04/2005
Testamento
espiritual de João Paulo II
Leia, a seguir, a íntegra do "testamento espiritual"
de João Paulo 2º, que foi divulgado nesta quinta-feira,
dia 7 de abril. O texto foi traduzido para o português.
Testamento, João Paulo 2°
Primeira Parte, 6/3/1979. Totus Tuus ego sum [lema do papa, "Sou
todo teu"], em nome da santíssima trindade, amém.
"Vigiais, pois não sabeis quando vosso Senhor retornará"
(Mateus 24,42). Estas palavras me fazem recordar o último
chamado, que virá quando o Senhor assim o desejar. Almejo
segui-lo e quero que tudo que faz parte de minha vida terrena me
prepare para esse momento.
Vaticano apresenta original do documento escrito pelo papa João
Paulo 2º
Não só o retorno, mas tudo o mais, deponho igualmente
nas mãos da Mãe de nosso Senhor: Totus Tuus. Nas mesmas
mãos maternais deixo tudo e todos aqueles aos quais liguei
minha vida e minha vocação. Nessas mãos deixo,
acima de tudo, a Igreja, e também meu país e toda
a humanidade. Agradeço por tudo. Peço perdão
a todos. Peço também orações, para que
a misericórdia de Deus seja maior que minhas fraquezas e
indignidades. Durante esse exercício espiritual, reli o testamento
do Papa Paulo 6°. A leitura me inspirou a escrever o presente
testamento.
Não deixo posses de que seja preciso dispor. Quanto às
coisas de uso cotidiano que me serviam, peço que sejam distribuídas
da maneira que pareça mais oportuna. Que as minhas anotações
pessoais sejam queimadas. Solicito que essas tarefas sejam supervisionadas
por dom Stanislao, a quem agradeço pela colaboração
e ajuda tão prolongada, por tantos anos e em tantas coisas.
Todos os demais agradecimentos, porém, faço-os em
meu coração a Deus, porque é difícil
exprimi-los. No que tange ao funeral, peço que sejam respeitadas
as disposições estabelecidas pelo Santo Padre Paulo
6° (nota à margem esclarece: sepultamento no solo, não
em um sarcófago, 13/3/1992). "Apud Dominum misericordia
et copiosa apud Eum redemptio."
Segunda Parte, Roma, 6/3/1979. Depois da morte, uma Santa Missa
e orações, 5/3/1990.
Terceira Parte. Folha sem data: Exprimo aqui minha profunda fé
em que, a despeito de todas as minhas fraquezas, o Senhor me venha
a conceder a graça necessária a enfrentar, de acordo
com Sua vontade, qualquer prestação de contas, prova
e sofrimento que venham a ser requeridos de Seu servo, no curso
da vida. Tenho igual fé em que Ele não permitirá
que por quaisquer palavras, atos ou omissões de minha parte
sejam traídas as minhas obrigações com relação
à Sede Petrina.
Quarta Parte, 24/2 e 1/3/1980. Ainda no curso desse exercício
espiritual, refleti sobre a verdade do sacerdócio de Cristo,
na perspectiva daquele trânsito que, para cada um de nós,
se torna necessário no momento da própria morte. Deixar
este mundo --para nascer no outro, no mundo futuro-- é sinal
eloqüente (correção acima do texto: decisivo),
para nós, da Ressurreição de Cristo. Li com
freqüência o que deixei registrado em meu testamento
no ano passado, também redigido como exercício espiritual
--e o comparei com o testamento de meu predecessor e Pai Paulo 6°,
sublime testemunho sobre a morte de um cristão e de um Papa--,
o que renovou em minha consciência a questão à
qual se refere o que escrevi em 6/3/1979, um testemunho que preparei
de modo bastante provisório.
Desejo acrescentar a isso, hoje, que todos devem ter presente a
perspectiva da morte. E devem estar preparados para se apresentar
diante de seu Senhor e Juiz --e, simultaneamente, Redentor e Pai.
O fato é que eu tenho esse momento em consideração
continuamente, e deposito minha fé na Mãe de Cristo
e na Igreja --mãe de minha esperança-- para o momento
decisivo. Os tempos que vivemos são terrivelmente difíceis
e inquietos. Difícil e tensa se tornou também a vida
da Igreja, que enfrenta provações características
do nosso tempo -tanto para os fiéis quanto para os pastores.
Em alguns países, como por exemplo naquele sobre o qual li
durante os exercícios espirituais, a Igreja se encontra em
um período de tamanha perseguição que a situação
é semelhante à do século 1, e talvez possa
ser considerada como ainda mais grave, em virtude do grau de desesperança
e de ódio que impera. Sanguis martyrum - semen christianorum.
E, além disso, tantas pessoas contemplam inocentemente o
que transcorre, mesmo neste país em que vivemos... Quero
depositar-me ainda uma vez completamente à mercê da
graça de Deus. Cabe a Ele decidir quando e como devo encerrar
minha vida terrena e meu ministério pastoral. Na vida e na
morte, Totus Tuus com as graças da Imaculada. Aceitando desde
já a morte que me seja destinada, espero que Cristo me conceda
graças para a última passagem, para a (minha) Páscoa.
Espero ainda que minha morte seja útil para a muito importante
causa a qual procuro servir: a salvação dos homens,
a salvaguarda da família humana, e no seio desta todas as
nações e povos (com consideração especial
à minha pátria terrena), que seja útil para
as pessoas que confiaram em mim, particularmente, para as questões
da Igreja e para a glória de Deus. Não desejo acrescentar
nada àquilo que escrevi há um ano --só exprimir
minha prontidão e ao mesmo tempo a minha fé, às
quais o presente exercício espiritual uma vez mais me dispuseram.
João Paulo 2°.
Quinta Parte. Totus Tuus ego sum, 5/3/1982. No curso do exercício
espiritual deste ano, li (por diversas vezes) o texto do testamento
de 6/3/1979. Ainda que continua a considerá-lo provisório
(não definitivo), pretendo deixá-lo na forma pela
qual existe. Não mudo nada (por enquanto), e tampouco acrescento
alguma coisa às disposições que ele contém.
O atentado contra a minha vida em 13/5/1981 confirmou, de muitas
maneiras, a exatidão das palavras escritas no período
de exercício espiritual de 1980 (24/2 a 1/3). Sinto tão
profundamente que me encontro nas mãos de Deus --e continuo
à disposição de meu Senhor, confiando-me a
ele por intermédio de sua Imaculada Mãe (Totus Tuus).
João Paulo 2°, Papa.
Sexta Parte, 5/3/1982. Em conexão com a última frase
do meu testamento de 6/3/1979 ("quanto ao local", ou seja,
o local do funeral, "a ser decidido pelo colégio cardinalício
e pelos compatriotas"), esclareço o que tenho em mente:
o arcebispo de Cracóvia ou o conselho geral de bispos poloneses
--mas ao colégio cardinalício peço no entanto
que satisfaça, na medida do possível, os pedidos dos
indicados.
Sétima Parte, 1/3/1985 (no curso do exercício espiritual).
Ainda uma vez --no que tange à expressão "colégio
cardinalício e compatriotas", o colégio cardinalício
não tem obrigação alguma de interpelar "os
compatriotas" quanto à questão, mas poderá
fazê-lo caso venha a considerar justo fazer essa consulta.
JP2°.
Oitava Parte. Os exercícios espirituais do ano [para o testamento]
1. Quando, em 16 de outubro de 1978, o conclave de cardeais me
elevou ao Papado como João Paulo 2°, o cardeal primaz
da Polônia, Stefan Wyszyski, me disse que "a responsabilidade
do novo Papa será conduzir a Igreja ao Terceiro Milênio".
Não sei se estou citando exatamente suas palavras, mas esse
era pelo menos o sentido daquilo que ele me disse. Foram as palavras
de um homem que entrou para a história como o cardeal primaz
do milênio. Um grande primaz. Fui testemunha de sua missão,
de sua dedicação completa à sua luta, e de
sua vitória. "A vitória, quando chegar, será
uma vitória por intercessão de Maria" --estas
palavras de seu predecessor, o cardeal August Hlond, eram repetidas
freqüentemente pelo primaz do milênio. Dessa forma, eu
estava razoavelmente preparado para a responsabilidade que me foi
atribuída no dia 16 de outubro de 1978. No momento em que
escrevo estas palavras, o ano do Jubileu, 2000, a previsão
dele já se tornou uma realidade em ação. Na
noite de 24 de dezembro de 1999, foi aberta a simbólica Porta
do Grã-Jubileu, na Basílica de São Pedro, seguida
por suas correspondentes em São João Laterano e Santa
Maria Maggiore. Depois da virada do ano, no dia 19 de janeiro, abriu-se
a porta da Basílica de São Paulo "fuori le mura".
Essa última cerimônia, por força de seu caráter
ecumênico, se ficou em minha memória de maneira especial.
2. À medida que avança o ano do Jubileu, 2000, dia
a dia o século 20 se fecha dentro de nós, enquanto
o século 21 vai se abrindo. De acordo com os desígnios
da Providência, me foi dado viver o difícil século
que está se tornando parte do passado, e agora, no ano em
que minha vida chega aos oitenta ("octogesima advienens"),
é preciso que eu me pergunte se não é hora
de seguir o exemplo de Simeão, na Bíblia --"Nunc
dimittis". No dia 13 de maio de 1981, o dia do atentado contra
o Papa durante audiência geral na praça São
Pedro, a Divina Providência me salvou de modo miraculoso da
morte. Aquele que representa o único Senhor da vida e da
morte decidiu prolongar minha vida, e de certa forma deu-me vida
nova. E daquele momento em diante, a vida que me foi dada só
podia pertencer a Ele. Espero que o Senhor me ajude a reconhecer
até quando devo continuar esse serviço, ao qual me
convocou em 16 de outubro de 1978. Peço-Lhe que me chame
quando assim preferir. "Na vida e na morte, pertencemos ao
Senhor... somos do Senhor" (Romanos, 14, 8). Espero ainda que
enquanto me for dado realizar o serviço Petrino na Igreja,
a misericórdia de Deus me dê as forças necessárias
a realizar o trabalho.
3. Como a cada ano durante os exercícios espirituais, li
meu testamento de 6/3/1979. Continuo a manter o disposto em seu
conteúdo. Aquilo que veio a ser acrescentado agora, e ao
longo dos exercícios espirituais passados, constitui um reflexo
da difícil e tensa situação geral que marcou
os anos 80. Depois do outono de 1989, a situação mudou.
O último decênio do século passado se viu livre
das tensões precedentes, o que não significa que não
tenha acarretado novos problemas e dificuldades. Agradeço
em especial à Divina Providência por o período
da dita "guerra fria" se ter encerrado sem um violento
conflito nuclear, um perigo que pesava sobre o mundo no período
precedente
4. No limiar do terceiro milênio, "in medio Ecclesiae",
desejo ainda uma vez exprimir minha gratidão ao Espírito
Santo pelo grande dom do Concílio Vaticano Segundo, ao qual,
em companhia de toda Igreja, e de todo episcopado, me sinto devedor.
Estou convicto de que as novas gerações poderão
desfrutar por muito tempo das riquezas que lhes foram legadas por
esse concílio do século 20. Como bispo participante
do evento conciliar do primeiro ao último dia, desejo confiar
esse imenso patrimônio a todos aqueles que são e no
futuro serão convocados a realizá-lo. De minha parte,
agradeço ao Pai eterno que me permitiu servir a essa grandiosa
causa no curso de todos os anos de meu pontiticado. "In media
Ecclesiae", desde os primeiros anos de serviço episcopal,
indicado graças ao concílio, me foi dado experimentar
a fraterna comunhão do episcopado. Como sacerdote na arquidiocese
de Cracóvia, já havia experimentado a rica comunhão
do presbitério --o Concílio abriu uma nova dimensão
para essa experiência.
5. Quantas pessoas devo mencionar! Provavelmente o Senhor Deus
chamou a Si a maior parte delas, mas com relação àqueles
que ainda estão deste lado, as palavras deste testamento
os recordam, todos e por tudo, onde quer que se encontrem. Nos mais
de 20 anos em que estou a serviço Petrino, "in medio
Ecclesiae", tantos sacerdotes, tantas pessoas consagradas --frades
e freiras-- bem como número incontável de laicos,
no ambiente da Cúria, no vicariato da diocese de Roma, e
também fora desses ambientes. Como não abraçar
com gratas recordações todos os membros do episcopado
no mundo, com os quais pude me encontrar na sucessão de visitas
"ad limina Apostolorum". Como não recordar ainda
os tantos outros irmãos cristãos, não católicos.
E quantos representantes do mundo da cultura, da ciência,
dos meios de comunicação social!
6. À medida que se avizinha o limite de minha vida terrena,
volto às minhas primeiras memórias, aos meus pais,
ao meu irmão e minha irmã (a quem não conheci
porque morreu antes que eu nascesse), à paróquia de
Wadowice, onde fui batizado, à cidade que eu amo, às
pessoas de minha época, colegas de escola elementar, ginásio,
universidade, até o tempo da ocupação, quando
trabalhei como operário, e a seguir a paróquia de
Niegowi, a igreja de São Floriano em Cracóvia, a pastoral
dos acadêmicos, o ambiente, todos os ambientes, a Cracóvia
e Roma, às pessoas que me foram especialmente fiéis
em nome do Senhor. A todos, desejo dizer só uma coisa: "Dio
vi ricompensi".
"In manus Tuas, Domine, commendo spiritum meum." 17/3/2000
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