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16/04/2005
Frei
Ulrich é ordenado bispo e assume o nome de Dom Leonardo
Aos 54 anos, Frei Ulrich Steiner é o mais novo bispo
franciscano. Natural de Forquilhinha (SC), ele foi ordenado bispo
no último dia 16, em Blumenau (SC) e assumiu o nome de Dom
Leonardo. Ele se torna o 11° bispo da Província Franciscana
da Imaculada Conceição, com sede em São Paulo.
Frei Ulrich recebeu das mãos do cardeal Dom Paulo Evaristo
Arns a bênção para seguir sua missão
como Bispo no noroeste do Mato Grosso, na Prelazia de São
Félix do Araguaia.
Dom Leonardo foi nomeado ao cargo pelo Papa João Paulo II,
em fevereiro, quando o pontífice acatou a renúncia
do antecessor, Dom Pedro Casaldáliga, de 77 anos. A data
de 16 de abril é muito significativa para os franciscanos,
pois foi nesse dia, em 1209, que o Papa Inocênio 3° acedeu
aos desejos de São Francisco de Assis e seus companheiros,
e, oralmente, aprovou-lhes a norma de vida que haviam escolhido.
Confira a entrevista de Frei Ulrich à
repórter Sicilia Vechi, do Jornal de Santa Catarina.
Jornal de Santa Catarina: O senhor passa por uma mudança
significativa em sua trajetória. De Roma para uma região
marcada por conflitos agrários, reivindicações
indígenas, poucos sacerdotes e uma área do tamanho
de Santa Catarina. O que espera desta experiência?
Dom Leonardo Ulrich Steiner: Para mim será uma riqueza
lidar com uma comunidade em que metade da população
vive em assentamentos. Apesar das dificuldades, é um povo
muito acolhedor. Outro ponto que me motiva é a convivência
com os índios. São três povos, metade da reserva
indígena do Xingu dentro da Prelazia de São Félix
do Araguaia. Eu me sinto encorajado, pois é a chance que
eu tenho de sair de uma realidade de sala de aula e de uma vivência
de Sul do Brasil para um contato direto, um compromisso com a cultura
e os anseios daquelas pessoas.
JSC: Em suas primeiras visitas a São Félix
do Araguaia, quais suas primeiras impressões sobre a estrutura
da Prelazia?
Dom Leonardo: O trabalho que já existe é muito
bonito e mostra um amparo à população. Aquela
é uma das regiões do mundo com maior índice
de hanseníase e um trabalho exemplar é realizado lá
com o apoio da Prelazia. Também há o crédito
a pessoas que pretendem montar seu pequeno negócio. Uma iniciativa
de uma empresa estimulada pela Igreja, que cobra juros reduzidos,
vem gerando oportunidade para que as pessoas tenham emprego e transformem
sua realidade. O trabalho ligado aos assentamentos de terra também
é muito bonito. Os agricultores são apoiados por profissionais
e religiosos que dão suporte nas pequenas plantações.
JCS: Seu antecessor, Dom Pedro Casaldáliga, trabalhou
fundamentado em idéias que o Vaticano repreendeu, como a
ampla pregação da corrente da Teologia da Libertação.
Em sua opinião, o modo como ele viveu a religião precisa
ser revisto ou deve ser seguido?
Dom Leonardo: O trabalho dele foi desenvolvido quase independentemente
destas questões. Não seriam questões teológicas
que impediriam o que ele conseguiu realizar na região. As
discussões aconteceram sim, mas para se compreender o seu
modo de viver, de ser Igreja. O trabalho social que Dom Pedro desenvolveu
sempre foi apoiado pelos superiores. Inclusive, devido ao apoio
de Paulo VI ele não foi expulso do Brasil na ditadura. O
bispo viveu um tempo em que a Igreja ainda não estava acostumada
a se engajar tão profundamente em questões políticas
e sociais, mas sem sua presença profética, a região
da Prelazia não seria o que é hoje.
JCS: Um irmão padre, uma irmã religiosa e
um primo cardeal, Dom Paulo Evaristo Arns. A decisão de seguir
a vocação do sacerdócio aconteceu por incentivo
da família?
Dom Leonardo: Na verdade, apesar dos bons exemplos, o que
fez despertar em mim a vontade de ser frei missionário foi
um frade alemão, que trabalhava no Oeste do Paraná.
Ele contava muitas histórias de encontros com as pequenas
comunidades. Dizia que se sabia até o nome dos cavalos nestes
lugares e eu me entusiasmava com a proximidade com as pessoas que
a vocação poderia me proporcionar. Assim escolhi o
meu caminho.
JCS: O que o senhor pensa sobre ser bispo, uma autoridade
da Igreja, em meio a pequenos povoados, capelas e do dia-a-dia simples
que, a partir de agora, vão fazer parte de sua missão?
Dom Leonardo: O homem do Evangelho que aquele povo quer ver
não depende dos trajes episcopais. As pessoas olham e querem
enxergar um bispo próximo, que assume o compromisso com a
vida da comunidade. Levo comigo muita esperança e um desejo
de viver o Evangelho. Meu único temor aconteceu na hora de
ser nomeado. Foi por causa da extensão geográfica
e da distância cultural que existe entre a região e
o lugar de onde eu venho. Mas hoje, conhecendo os sacerdotes, os
leigos e a comunidade engajada que vive lá, fiquei tranqüilo.
JCS: Depois de trabalhar durante quase uma década
em Roma, o que o senhor destaca dentro do legado do Papa João
Paulo II?
Dom Leonardo: Lendo os discursos do Papa, as homilias (sermões)
e vendo as celebrações, podemos sentir que houve uma
grande mudança na Igreja. Quem poderia imaginar que as danças
africanas pudessem acontecer dentro da liturgia em plena Basílica
de São Pedro? No sentido social também caminhamos
muito e, finalmente, olhar para o Papa era ver o homem da fé.
Ele não tinha medo de nada e a empatia que tinha com os jovens
era inexplicável.
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