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       São Paulo, 21/11/2008, 19:34          
 
Notícias

26/08/2005
A conversão de Francisco Bernardone - 800 anos
Frei Elzeário Schmitt

Quando escreve 2005, o mundo franciscano e franciscanizante deve estar lembrado de que escreve o oitavo centenário da conversão para Cristo do seu Seráfico Pai, antes disto seresteiro, rei da mocidade e árdego ginete da cidade de Assis.
A data merece evocação: 1205. É que, paralelo ao Francisco da história, há o São Francisco da fé, como destacava nosso confrade Frei Ildefonso Silveira num de seus melhores escritos. Ainda era a manhã do século XIII, quando aquele moço, de vida até aí sem rumo, e que não fora feliz na guerra de sua cidade contra Perusa, prisioneiro, ferido, a liberdade e a saúde cortadas, precisou purgar, em escura solidão, os seus sonhos de mundanidade, cujo nevoeiro, denso até ali, abriu-lhe pelo menos uma brecha. Mas longa convalescença, mesmo ela, ainda não conseguia fazê-lo abafar completamente as miragens de cavalaria. Foi preciso que na primavera de 1205 retomasse todo o ajaezamento de cavaleiro rico, alistando-se no exército do conde Gentil della Pagliara, o que foi sua última aventura guerreira; pois a meio caminho, em Espoleto, teve sua "Damasco": a "voz" interrompeu-lhe o sono, chamando-o pelo nome e mostrando-lhe o magnífico palácio, descrito na Legenda dos Três Companheiros. Francisco perguntou o que era aquilo, e respondido lhe foi que tudo aquilo era dele e de seus companheiros. Acordando, começou a saltar de incontida alegria, declarando aos espantados amigos: "Sei que vou ser um grande príncipe!" Obedecendo à "voz" que o perseguia, voltou para Assis, beijou um leproso, mistura-se à sua turma folgazã em última festa, mas já bem alheio a essas vaidades; pois a "voz" lhe mandara escolher entre a servidão ao Senhor e a servidão ao servo, ao que Francisco respondera como Saulo na estrada: "Senhor, que queres que eu faça?" A clássica pergunta tornou-se emblemática para quantos e quantas, em seus descaminhos de cansaço e náuseas, encontraram por fim o Caminho.
O famoso filho de Pietro Bernardone, a seguir, fez aí o seu primeiro retiro. Isto é, retirou-se. Na descomposta e triste capelinha de San Damiano, um Crucifixo que se tornou totalmente histórico deu-lhe, na mais humilde solidão, o histórico recado: "Francisco, vai e reconstrói minha casa!" Sem muita demora, ele ia saber de que "casa" realmente se tratava. Aconteceu isto em fins de 1205.
Toda a seqüência é do conhecimento, também ela, de qualquer franciscano cioso das origens de sua Ordem. Em meus 75 anos de inquieto e ingrato filho espiritual de São Francisco, desde o remotíssimo noviciado em 1930 com o místico mestre Frei Januário, comecei a descobrir, com encantamento, que o começo da Ordem Franciscana estava ali, em 1205, na hora excepcional do grande chamamento para uma nova construção, dentro da castigada Idade Média: a meia-volta, que em seu mundano descaminho o moço de Assis teve graça e ânimo para fazer.
Assim, "festejando" os 800 anos da Ordem Franciscana, vou pedir licença, no dia 4 de outubro de 2005, para acender uma vela especial, já em memória desta confissão imortal: "Dominus dedit mihi", mesmo que possa não ser a angulação dos historiadores.


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