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26/08/2005
A
conversão de Francisco Bernardone - 800
anos
Frei
Elzeário Schmitt

Quando escreve 2005, o mundo
franciscano e franciscanizante deve estar lembrado
de que escreve o oitavo centenário da conversão
para Cristo do seu Seráfico Pai, antes
disto seresteiro, rei da mocidade e árdego
ginete da cidade de Assis.
A data merece evocação: 1205. É
que, paralelo ao Francisco da história,
há o São Francisco da fé,
como destacava nosso confrade Frei Ildefonso Silveira
num de seus melhores escritos. Ainda era a manhã
do século XIII, quando aquele moço,
de vida até aí sem rumo, e que não
fora feliz na guerra de sua cidade contra Perusa,
prisioneiro, ferido, a liberdade e a saúde
cortadas, precisou purgar, em escura solidão,
os seus sonhos de mundanidade, cujo nevoeiro,
denso até ali, abriu-lhe pelo menos uma
brecha. Mas longa convalescença, mesmo
ela, ainda não conseguia fazê-lo
abafar completamente as miragens de cavalaria.
Foi preciso que na primavera de 1205 retomasse
todo o ajaezamento de cavaleiro rico, alistando-se
no exército do conde Gentil della Pagliara,
o que foi sua última aventura guerreira;
pois a meio caminho, em Espoleto, teve sua "Damasco":
a "voz" interrompeu-lhe o sono, chamando-o
pelo nome e mostrando-lhe o magnífico palácio,
descrito na Legenda dos Três Companheiros.
Francisco perguntou o que era aquilo, e respondido
lhe foi que tudo aquilo era dele e de seus companheiros.
Acordando, começou a saltar de incontida
alegria, declarando aos espantados amigos: "Sei
que vou ser um grande príncipe!" Obedecendo
à "voz" que o perseguia, voltou
para Assis, beijou um leproso, mistura-se à
sua turma folgazã em última festa,
mas já bem alheio a essas vaidades; pois
a "voz" lhe mandara escolher entre a
servidão ao Senhor e a servidão
ao servo, ao que Francisco respondera como Saulo
na estrada: "Senhor, que queres que eu faça?"
A clássica pergunta tornou-se emblemática
para quantos e quantas, em seus descaminhos de
cansaço e náuseas, encontraram por
fim o Caminho.
O famoso filho de Pietro Bernardone, a seguir,
fez aí o seu primeiro retiro. Isto é,
retirou-se. Na descomposta e triste capelinha
de San Damiano, um Crucifixo que se tornou totalmente
histórico deu-lhe, na mais humilde solidão,
o histórico recado: "Francisco, vai
e reconstrói minha casa!" Sem muita
demora, ele ia saber de que "casa" realmente
se tratava. Aconteceu isto em fins de 1205.
Toda a seqüência é do conhecimento,
também ela, de qualquer franciscano cioso
das origens de sua Ordem. Em meus 75 anos de inquieto
e ingrato filho espiritual de São Francisco,
desde o remotíssimo noviciado em 1930 com
o místico mestre Frei Januário,
comecei a descobrir, com encantamento, que o começo
da Ordem Franciscana estava ali, em 1205, na hora
excepcional do grande chamamento para uma nova
construção, dentro da castigada
Idade Média: a meia-volta, que em seu mundano
descaminho o moço de Assis teve graça
e ânimo para fazer.
Assim, "festejando" os 800 anos da Ordem
Franciscana, vou pedir licença, no dia
4 de outubro de 2005, para acender uma vela especial,
já em memória desta confissão
imortal: "Dominus dedit mihi", mesmo
que possa não ser a angulação
dos historiadores.
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