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Notícias

27/09/2005
Bispo franciscano faz greve de fome para defender o Rio São Francisco

Barra (BA) -
Nesta segunda-feira, às 12 horas, na capela de Cabrobó (PE), próximo ao local da tomada d'água do eixo norte da Transposição do São Francisco, dom Frei Luiz Cappio, bispo da Diocese da Barra (BA), iniciou uma greve de fome em defesa do Rio São Francisco, contra o projeto de transposição e a favor de soluções verdadeiras para o Nordeste Setentrional. Ele há 40 anos vive no Médio São Francisco. Em 1997, tornou-se o bispo da Barra. Antes, circulava pelas comunidades ribeirinhas, de quem tornou-se muito querido. Entre 1993 e 1994, na companhia de mais três companheiros, realizou a Peregrinação do São Francisco, caminhando por um ano da nascente à foz, numa mobilização popular religioso-ecológica em defesa do Rio, que marcou a história ribeirinha.
Frei Luís Flávio Cappio também fez o registro em cartório de uma declaração em que explica os motivos da greve de fome e assegura que só irá suspendê-la quando o presidente assinar um documento revogando e arquivando o projeto de transposição.

Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Felix do Araguaia, Mato Grosso, manifestou sua solidariedade à ação de frei Luís: "Estamos de coração unidos ao querido irmão Dom Luís e, com ele, ao clamor nacional e internacional que exigem que o Governo Federal reveja sua decisão, tão contestada e com argumentos tão sérios, de levar a cabo o projeto da transposição do rio São Francisco".

Em apoio a seu gesto em favor do rio São Francisco e contra a transposição, a Comissão Pastoral da Terra também emitiu uma nota de solidariedade ao religioso. Na nota, a entidade destaca que foi D. Luís, junto com Adriano Martins, Ir. Conceição e Orlando Araújo que, numa peregrinação ao longo do São Francisco entre 1993 e 1994, chamaram a atenção para a degradação do rio. "Foi a partir daí que a sociedade se organizou para exigir a revitalização do São Francisco, hoje um consenso em nível nacional. Quem sabe seu gesto também não obrigue a sociedade brasileira e o governo a serem mais sérios e responsáveis diante de uma obra insana como a transposição", diz o documento.

CARTA DE DOM CAPPIO PARA O PRESIDENTE LULA

“Senhor Presidente Paz e Bem! Quem lhe escreve é Dom Frei Luiz Flávio Cappio, OFM, bispo diocesano de Barra, na Bahia.

“Tive a oportunidade de conhecê-lo por ocasião da passagem do senhor por Bom Jesus da Lapa, na Caravana da Cidadania pelo São Francisco, em 1994[...]. Fui-lhe apresentado por meu professor de teologia, Frei Leonardo Boff.

“Sempre fui seu admirador. Participei ativamente em todas as campanhas eleitorais do PT, alimentando o sonho de ver o povo no poder. Desde que o Governo Fernando Henrique apresentou a proposta de transposição do Rio São Francisco, fomos críticos acirrados deste projeto. Desde então acentuamos a necessidade urgente de revitalização do rio e de ações que garantam o verdadeiro desenvolvimento para as populações pobres do nordeste: uma política de convivência com o semi-árido, para todos, próximos e distantes do rio.

Esperávamos do senhor um apoio maior em favor da vida do rio e do seu povo. Esperávamos que, diante de tantos e consistentes questionamentos de ordem política, ambiental, econômica e jurídica, o governo revisse sua disposição de levar a cabo este projeto que carece de verdade e de transparência.

Quando cessa o entendimento e a razão, a loucura fala mais alto. Em meu gesto não existe nenhuma atitude anti-Lula neste momento delicado da vida nacional. Pelo contrário. Quem sabe seja uma maneira extrema de ajudá-lo a entender pelo coração aquilo que a razão não alcança.

Tenha certeza, é um profundo testemunho de amor à vida. Minha vida está em suas mãos.
Receba minha saudação fraterna e amiga, Dom Frei Luiz Flávio Cappio, OFM
Paz!


DECLARAÇÃO DE DOM CAPPIO
Uma Vida pela Vida

Em nome de Jesus Ressuscitado que vence a morte pela vida plena, faço saber a todos:

1. De livre e espontânea vontade assumo o propósito de entregar minha vida pela vida do Rio São Francisco e de seu povo contra o Projeto de Transposição, a favor do Projeto de Revitalização.

2. Permanecerei em "greve de fome" até a morte, caso não haja uma reversão da decisão do Projeto de Transposição.

3. A "greve de fome" só será suspensa mediante documento assinado pelo Exmo. Sr. Presidente da República revogando e arquivando o Projeto de Transposição.

4. Caso o documento de revogação, devidamente assinado pelo Exmo. Sr. Presidente, chegue quando já não for senhor dos meus atos e decisões, peço, por caridade, que me prestem socorro, pois não desejo morrer.

5. Caso venha a falecer, gostaria que meus restos mortais descansassem junto ao Bom Jesus dos Navegantes, meu eterno irmão e amigo, a quem, com muito amor, doei toda minha vida, em Barra, minha querida diocese.

6. Peço, encarecidamente, que haja um profundo respeito por essa decisão e que ela seja observada até o fim.

Barra, Bahia, domingo de Páscoa de 2005.

Dom Frei Luiz Flávio Cappio, OFM
RG. 3.609.650
CPF. 291.828.835-72

TRANSPOSIÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO

Adital -
Documento elaborado durante a reunião da Via Campesina, realizada em São Paulo, de 31 de agosto a 2 de setembro.

1- A solução dos problemas de água e do desenvolvimento dos camponeses no semi-árido brasileiro deve ser buscada na complementaridade de diversas formas possíveis, sempre na perspectiva da convivência com o semi-árido. Isso implica na realização da reforma agrária adequada, na captação e armazenamento de água de chuva para produção e consumo humano, democratização do acesso às águas de superfície e exploração adequada das águas subterrâneas já que, segundo pesquisas realizadas, a região possui água suficiente para abastecer suas necessidades.

2- O governo deve convocar a sociedade em geral, todas as organizações dos trabalhadores da região, especialistas do tema para realizar um amplo debate e elaborar conjuntamente um programa de desenvolvimento para o semi-árido brasileiro como processo para a superação da pobreza e da desigualdade social.

3- Defendemos a revitalização urgente e necessária do rio São Francisco e de outros rios da região.

4- Não acreditamos que a transposição do rio São Francisco seja a solução da seca e do desenvolvimento das populações pobres do nordeste conforme nos argumentam especialistas e entidades da região, até porque a transposição beneficiará apenas 5% da região semi-árida. Os problemas de água para abastecimento humano e dos animais podem ser resolvidos, em caso de necessidade comprovada, por adutoras, levando água mais barata para essas populações.

5- A Transposição interessa apenas às empreiteiras, às empresas de consultoria, às corporações técnicas e aqueles que vão utilizar essa água para irrigar frutas de exportação, criação de camarão em cativeiro, pólo industrial de Pecém e aos mercadores da água. Mas isso é repetir os erros do passado, fortalecendo a indústria da seca, o hidronegócio e deixando mais uma vez a população mais necessitada do semi-árido entregue à sua situação precária e humilhante.

6- Defendemos a realização de um plebiscito popular para que toda população adulta da região afetada pela transposição do rio São Francisco possa se manifestar e decidir sobre o tema. Este plebiscito deve ser amplo, com debate e com maior participação possível, conforme proposta do projeto já aprovado pela comissão da Câmara dos Deputados.

 

ESCREVA! MOBILIZE-SE! PARTICIPE!

É necessário também fazer apelos às autoridades (Presidente Lula - pr@planalto.gov.br, Ministro Ciro Gomes /Integração Nacional - imprensa@integracao.gov.br, Ministra Marina Silva / Meio-Ambiente -www.mma.gov.br). Por coincidência, justamente hoje, a ANA - Agência Nacional de Águas concedeu a Outorga e o Certificado de Sustentabilidade Hídrica ao projeto de transposição...

Abaixo assinado

 


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