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Notícias

11/11/2005
A mística da resistência negra
Por Frei David Santos, ofm

São Paulo
(SP) -
Refletir sobre os 500 anos de luta do povo de Zumbi tem um significado político, religioso e social muito grande no contexto do despertar da consciência da comunidade afrodescendente no Brasil e na América Latina. É refletir também sobre o significado da fé e da resistência heróica de um povo que mesmo mutilado em sua dignidade, segue resistindo. Por aí passa a construção da proposta pluri-étnica do Quilombo de Palmares. Mas de onde vem essa força?

A fé em um Deus-criador da vida é uma energia presente em todos os povos do mundo. A fé desenvolvida pelos povos afro-brasileiros permitia o surgimento de um novo código de postura ética a partir da tradição milenar africana, a observação coletiva desta fé-tradição canalizando-a para o bem comum do grupo humano é o que chamamos de mística. A mística dos povos afro-brasileiros dos quilombos apontava para duas direções principais:

Sociedade igualitária, pluri-étnica - os quilombos eram espaços de liberdade onde negros, índios e brancos pobres, juntos, gestavam o amanhã do Brasil. Todos os que abraçavam aquele projeto pluri-étnico habilitavam-se a ser construtores da nova sociedade. Era uma maneira concreta e direta de protestar contra a sociedade colonial vigente, uni-étnica, onde índios e negros só tinham espaço na condição humilhante de escravos. A ampliação das desigualdades sociais era o principal produto social daquela sociedade colonial. A submissão de todos os que não fossem ocidentais era o objetivo sempre presente e com esta visão tentaram também monopolizar Deus tornando-o marca registrada, legitimadora de suas ações avassaladoras. Deus foi o gestor da proposta igualitária e pluri-étnica. O espaço político privilegiado por Deus, sem dúvidas, foi o espaço que valorizava a igualdade pluri-étnica, os quilombos. No entanto, o poder de persuasão ocidental levou a história brasileira a navegar na contra-mão do direito e da justiça de Deus por longos séculos, abraçando a proposta colonial uni-étnica e a desigualdade, dando ênfase a ter, possuir, em detrimento a ser, partilhar.

Inculturação religiosa

Os quilombos naquele novo espaço de liberdade poderiam fechar-se somente em sua compreensão religiosa tradicional africana. No entanto, eles sabiam diferenciar Jesus Cristo e seu evangelho da prática dos cristãos colonizadores em terras brasileiras. Os quilombolas reprovavam a prática religiosa dos cristãos, pois não valorizavam a justiça e o respeito ao diferente, e por outro lado souberam perceber o potencial libertador trazido por Jesus e seu evangelho e o abraçaram. Na guerra contra os palmarinos, em 1645, chefiada por Blaer-reijmbach, o escrivão relata que encontrou no centro do mocambo grande Palmares uma casa religiosa, com imagens de santos católicos, entre elas a imagem do menino Jesus ricamente adornada com objetos religiosos africanos. A inculturação, tão discutida hoje, já era algo normal e praticada no espaço de liberdade chamado de quilombo. Os sacerdotes eram escolhidos entre os mais capazes, que possuíam espírito de liderança, sabedoria e profundo conhecimento da natureza. A intimidade com o Deus Pai Todo-poderoso, chamado de Olorum = olo + orum ( senhor do orum, ou seja: senhor de todos os espaços terrestres e celestes) era a principal qualidade nos sacerdotes. Já entendiam como normal e natural o sacerdócio casado, bem como o sacerdócio feminino, dimensões ainda hoje, em pleno século XXI, negada pela principal religião ocidental.

Um novo quilombo chamado Brasil

O Quilombo dos Palmares gestou, ao longo de sua existência, uma utopia que hoje é atualizada e precisa ser retomada nos quatro cantos do Brasil em forma de proposta de ação dos militantes negros, das entidades civis, partidos políticos, dos governos federal, estadual e municipal e toda sociedade. Devemos ter consciência de que o Brasil é hoje o grande quilombo que queremos e que para o projeto de inclusão acontecer serão necessárias mudanças radicais na vida nacional que devolva aos povos negros e índios seus plenos direitos de cidadãos, destruindo todos os artifícios criados ao longo destes 505 anos, que fizeram surgir o “apartheid à brasileira”. Para começar, uma medida prática e urgente é transformar a Universidade elitista e branca em espaço pluri-étnico de partilha diversificada. Hoje, apesar da população negra brasileira (negros e pardos) ser 45,6% do total da população brasileira (IBGE 2000) ou 59% (datafolha/95), não chega a 5% o número de negros/as que conseguiram entrar nas universidades públicas. Que as universidades públicas tenham, no mínimo, 50% de estudantes provenientes dos povos historicamente oprimidos, a exemplo do que já acontecem na Rússia, Índia, Alemanha etc.

Esta é uma luta teimosa porque, no conjunto da sociedade brasileira ainda há uma grande rejeição, medo e preconceito de se tocar neste assunto. Levar a luta adiante só é possível para aqueles e aquelas que estão imbuídos da certeza de que esta luta é digna e faz parte da construção do Reino de Deus. A mística que estamos retomando, cuja energia resgata séculos de resistência heróica de Palmares, é profundamente benéfica para toda nação brasileira. O projeto pluri-étnico que poderá ser desenvolvido com toda maturidade pela nação poderá ser um exemplo para o mundo que busca caminhos alternativos que atendam às necessidades provocadas pelo despertar das culturas nesta etapa de história dos povos chamada pós-modernidade.

Frei David Santos - é diretor-executivo da Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes), mestre em Teologia e frade da Província Franciscana do Imaculada Conceição do Brasil


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