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09/12/2005
Análise iconográfica e iconológica do forro da Igreja do Sagrado
Por Nancy Valente

Petrópolis (RJ)
- O forro da Igreja do Sagrado Coração de Jesus de Petrópolis apresenta uma policromia bastante complexa. Por meio de cores diversificadas e de um jogo entre pinturas artísticas e pinturas decorativas, o autor do trabalho conseguiu agregar volume e movimento à obra.

De forma bem simples podemos definir o forro como um elemento de forma retangular, adornado por medalhões centrais e elementos fitomorfos que os circundam. O medalhão principal, também retangular e de grandes dimensões, localiza-se na área central do forro que cobre a nave. O segundo medalhão, de forma circular e dimensões reduzidas, localiza-se na área que cobre a interface entre a nave e o coro.

O medalhão principal retrata a Assunção da Virgem Maria. Pela iconografia cristã, Nossa Senhora após a morte, foi levada ao céu de corpo e alma para ser coroada de glórias por Deus todo poderoso e seu filho Jesus Cristo, os quais também se encontram retratados no medalhão, juntamente com a pomba que simboliza o Espírito Santo. Este é um dogma aceito pelo povo desde o tempo dos apóstolos (MEGALE, 1986, p.45). Na representação, Deus eterno distingue-se de seu filho pela aura triangular que circunda sua cabeça. Jesus Cristo também possui aura, porém é circular, recortada por raios de luz que se cruzam em cruz. A aura simboliza a divindade, a grandeza, a magnificência, e a forma triangular simboliza a Trindade - mão, cabeça e nome de Deus, completada muitas vezes por um olho - , por isso mesmo, a aura triangular é um símbolo de Deus (LEXICON, p.194-195).

Na área inferior do medalhão aparece o esquife vazio da Virgem Maria rodeado pelos apóstolos. Segundo Nilza Megale (1986, p.56) a Virgem Maria não morreu de doença, mas foi consumida pelo seu amor a Deus e pela vontade de reunir-se ao seu Filho na Pátria Celestial. Os apóstolos, de modo geral, estiveram junto à Virgem até seu último suspiro e lamentaram profundamente a morte daquela que estavam habituados a chamar de mãe. São Tomé, único que não chegou a tempo para o sepultamento, suplicou aos demais apóstolos que lhe permitissem ver a Virgem uma última vez ainda que fosse na sepultura. Os apóstolos, a fim de consolar São Tomé, removeram a pedra do túmulo, mas com espanto geral viram que o corpo de Nossa Senhora não estava lá, achando-se somente o lençol que a envolvera no meio de rosas que exalavam um suave perfume (MEGALE, 1986, p.129).

O medalhão circular retrata Santa Cecília, a padroeira dos organistas. A virgem romana que viveu no século III foi martirizada e decapitada em sua própria casa por causa de sua fé (ROIG, 1950, 74). Muito provavelmente os três arcanjos músicos representam a Trindade de quem era devota confessa.

Emoldurando os medalhões e estendendo-se por todo o forro, os motivos fitomorfos se confundem, representando, ora rosas com folhas e espinhos, ora folhas de acanto. Também estes elementos ornamentais têm profundo significado na iconografia cristã.

A rosa tem inúmeros significados na simbologia cristã - indica o sangue derramado e as chagas de Cristo, simbolizando também a taça que recolheu o sangue sagrado e, devido a essa relação simbólica com o sangue de Cristo, ela é ao mesmo tempo um símbolo do renascimento místico. Visto ser a rosa na Idade Média um atributo das virgens, ela é também um símbolo da Virgem Maria, e de maneira geral simboliza o amor divino. "A iconografia eclesiástica tornou a rosa, "a rainha das flores", símbolo da rainha celeste, Maria(...)"(BIEDERMANN, 1994, p. 330). No forro da Igreja do Sagrado Coração de Jesus de Petrópolis, as rosas estilizadas que contornam os medalhões são atributos claros de Nossa Senhora, mas, também fazem uma alusão nítida às chagas de Cristo por meio de seus cinco espinhos bem definidos.

Também a folha de acanto tem um significado especial. Esta planta, característica do mediterrâneo, possui folhas de grande beleza e movimento entretanto, estas nascem em ramos cheios de espinhos, o que dificulta sua obtenção. Seu simbolismo deriva essencialmente dos espinhos que contém. Conta certa lenda narrada por Vitrúvio, arquiteto grego da antiguidade, que o escultor Calímaco, no final do século V antes de Cristo ao ornamentar um dos capitéis do túmulo de uma menina, teria se inspirado num ramalhete de folhas de acanto. Retém-se desta lenda o fato de que o acanto era utilizado para indicar que as provações da vida e da morte, simbolizadas pelos espinhos da planta, haviam sido vencidas. Como de tudo o que possui espinhos, fez-se igualmente do acanto o símbolo da terra virgem e da própria virgindade, que também significam uma espécie de triunfo. "O solo produzirá para ti espinhos e cardos, (Gênesis 3:18), no sentido de que a provação vencida se transformou em glória" (CHEVALIER, 1989, P.10).

Em ambos os medalhões, a pintura desenvolvida é artística, ou seja, é feita a mão livre, fruto da inspiração de seu idealizador. Já nos demais elementos ornamentais a pintura foi executada por meio de moldes, e em ambos os casos prevaleceu a técnica da pintura oleosa.

Nancy Valente - Especialista em restauro de obras de arte e responsável pelo restauro do forro da igreja do Sagrado.


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