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       São Paulo, 21/11/2008, 21:24          
 
Notícias

23/11/2006
Homilia do Ministro Geral aos comissários da Terra Santa


Jerusalém (Isr)
-Queridos irmãos: O Senhor lhes dê a paz!
“Que alegria quando me disseram vamos à casa do Senhor, já estão pisando nossos pés teus umbrais, Jerusalém!” (Sal 122, 1-2). A alegria que sentia o peregrino do velho Israel quando pela primeira vez divisava a Cidade Santa de Jerusalém, é a mesma alegria que sentimos todos nós cada vez que voltamos a esta cidade, pois é como voltar para a casa, já que, como disse o salmista, também de nós se pode dizer: Todos nascemos nela.

Esta alegria se torna maior quando temos a graça de celebrar a Eucaristia aqui, no Monte Sião, no Cenáculo, lugar santo entre os lugares santos. Como não sentir uma profunda alegria quando estamos no lugar onde ainda hoje  ressoam as palavras de Jesus na última Ceia: “Tomei e comei, tomai e bebei, este é o meu corpo, este é o meu sangue” (cf. Mt 26, 26-28), palavras com as quais foi instituída a Eucaristia, da qual somos ministros? Como não escutar aqui, hoje, o eco daquelas outras palavra “fazei isto em minha memória” (1Cor 11, 24-25), com as quais foi instituído o Sacramento da Ordem, que nós, por pura graça, recebemos?

Como esconder a alegria que experimentamos ao escutar as palavras do Senhor “A quem perdoais os pecados serão perdoados....” (Jn 20, 23), sendo que nós, enquanto sacerdotes e por pura misericórdia, temos recebido tal poder?

Como não sentirmos confortados pela presença do Espírito Santo, que aqui desceu sobre os Apóstolos em oração com Maria (cf Hch 1, 14; 2, 1-4) e que é a alma da missão da Igreja (cf AG 4), com o qual nós colaboramos diretamente? Sim, queridos irmãos: grande é a alegria e profunda  a emoção que sentimos ao pisar neste lugar santo, testemunho dos últimos momentos da vida terrena de Jesus, testemunho da presença do Ressuscitado em meio aos seus discípulos, testemunho da irrupção do Espírito Santo sobre a Igreja, testemunho do primeiro envio, da primeira missão apostólica.

Mas para nós, franciscanos, este lugar santo, o Cenáculo, tem um significado maior que para os outros cristãos que chegam aqui de todo o mundo. Aqui, onde começou a Igreja, aqui, onde nasceu a missão da Igreja (cf Jn 20, 20-21), aqui nasceu nossa missão na Terra Santa, nasceu a Custódia da Terra Santa, sendo até hoje o lugar de referência de todos os que de um modo ou outro pertencemos e trabalhamos pela pérola das missões franciscanas. Como não ver nesta coincidência geográfica um signo da providência do Senhor?! Queira o bom Deus que um dia, não muito longe, este lugar santo volte aos seus legítimos proprietários: os Irmãos Menores, custódios da Terra Santa em nome da Igreja Católica. Queira o Senhor que um dia, não muito distante, o claustro do antigo convento franciscano, em pé a poucos metros de onde nos encontramos, possa ser o novo lar dos filhos do Poverello, de tal forma que sua presença neste lugar santo seja continuidade daquela outra presença que os irmãos mantiveram neste durante séculos, até que foram injustamente obrigados a deixá-lo.

Mas além de nossas lembranças históricas que evoca este lugar, das emoções que este lugar desperta em todos nós, temos de escutar a mensagem que, depois de mais de vinte séculos, segue presente e muito atual quando tentamos seguir as pegadas de nosso Senhor Jesus Cristo e, particularmente, quando professamos o Evangelho como nossa Regra e vida (2R 1, 1).
Para melhor perceber e adequadamente acolher a mensagem, creio que é necessário prestar atenção a algumas palavras dos textos a que nós temos feito referência anteriormente.

 “Tomai e comei, tomai e bebei”, nos disse Jesus. Estas palavras nos interpelam sobre o lugar que ocupa a Eucaristia em nossas vidas. O caminho que somos chamados a recorrer, em comunhão com nossos irmãos e com a Igreja e da mão dos “menores da terra”, que têm “a força de nos orientarmos em nossas buscas”, como nos recorda o documento final do último Capítulo Geral Extraordinário (Shc 5), é um caminho largo e, em muitos casos, cheio de dificuldades. Como Elías, a caminho de Horeb, corremos o risco de sentir medo, ou inclusive de desfalecer diante de tais dificuldades (cf 1R 19, 3-5). Se naquela ocasião o Senhor disse a Elias: “Levante-te e come, porque o caminho é demasiado longo para ti” (1R 19, 7), hoje e sempre, Jesus nos diz a cada um de nós: “Tomai e comei, tomai e bebei”. Ele não é só companheiro de viagem (cf Lc 24, 13-36), é também nosso alimento e viático (cf Jn 6, 32ss). Ele não só saciava a fome dos que o seguiam (Jn 6, 1ss), como também hoje como ontem, segue saciando de comida os famintos (cf Sal 103, 27- 28). A Eucaristia é força para continuar o caminho, bebida para saciar a sede que tantas vezes nos atormenta, vida para ter a vida em plenitude, que ardentemente desejamos.

“Como o Pai me enviou, assim eu vos envio”. E os Apóstolos saíram. As portas fechadas se abriram de par em par, e de todas as partes chegou o anúncio do Evangelho.  E os Irmãos Menores, movidos pela inspiração divina (2R 12, 1) também saíram deixando pátria, família e as culturas próprias, e chegaram ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul, levando aos quatro pontos cardeais - - como se indica na chamada “Cruz da Terra Santa” ou “Cruz de Jerusalém”, símbolo dos franciscanos nesta terra -, a presença salvífica da cruz de Cristo.
Nós, no serviço da pérola das missões franciscanas, como realizamos hoje este mandato? Como nos colocaremos em caminho, até os confins da terra, nós que como os discípulos temos recebido o Espírito? (cf Jn 20, 22). Como não ser profetas, com a vida e com a palavra, a quem o Senhor infundiu o Espírito? (cf Jo 3, 1).Todos, por vocação, formamos parte de uma fraternidade-em-missão, todos somos missionários, enviados para dar testemunho “com a palavra e com as obras, e fazer conhecer a todos que não há outro Onipotente senão Ele” (CtaO 9). Todos somos enviados a anunciar, como profetas, o Evangelho e a ser instrumentos privilegiados de reconciliação e perdão. Como exerceremos este sagrado mistério?

Muitas serão, queridos irmãos, as dificuldades que poderemos encontrar no caminho. Mas não estamos sós. O Senhor caminha conosco e se faz presente no meio de nós para infundir em nossos corações desanimados, como no caso dos discípulos, a paz (cf Jn 20, 21. 26) , e para comunicarmos seu Espírito, que nos impele à missão e nos dá valentia, à coragem, de proclamar a todos: “Vimos o Senhor!”(Jn 20, 24).

Envia teu Espírito Senhor, e povoa de paz a terra.
Envia teu Espírito, Senhor, sobre nós e sairemos pelos caminhos e praças anunciando a Boa Nova.
Envia teu Espírito, Senhor, sobre nós, e nosso medo e covardia serão venciados.
Envia teu Espírito Senhor, e seremos criaturas novas.
Envia teu Espírito, Senhor.…


Frei José Rodríguez Carballo, ofm



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