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Notícias

27/11/2006
Carta do Ministro Geral pelos 550 anos da morte de São João de Capistrano

Roma (Itália)
- Para recordar os 550 anos da morte de São João de Capistrano, ocorrida em Ilok, a 23 de outubro de 1456, no dia 28 de outubro de 2006, no Convento São Francisco de Capistrano, nos Abruços, realizou-se um dia comemorativo, que constou de uma celebração eucarística e duas palestras: “João de Capistrano, um homem decidido por uma reforma necessária” (Remo Guidi) e “João de Capistrano e os Papas de seu tempo a partir de documentos conservados na biblioteca do Convento de Capistrano” (Marco Bartoli). Segundo fora anunciado pelo Comunicado do Definitório geral de 24 de julho de 2006, participaram o Definitório geral, os Ministros provinciais da Itália e os Frades das Entidades envolvidos na atividade de Frei João. Anteriormente, em Budapeste, na Hungria, nos dias 7 e 8 de setembro de 2006, e em Graz, na Áustria, a 20 de outubro de 2006, realizou-se um Congresso internacional e um Simpósio em honra de São João de Capistrano.

Caros Irmãos, as ocorrências de Budapeste e de Graz e a participação na celebração em honra da João de Capistrano em sua cidade natal levaram-me a lhes escrever uma carta a fim de convidá-los a celebrar com entusiasmo esse aniversário da forma considerada mais idônea, na consciência de que um conhecimento mais aprofundado e pessoal desse ilustre filho de São Francisco levar-nos-á a descobrir seus valores, a apreciar seus ensinamentos e a “reler” seu testemunho, de forma a tirar sustento, motivação, luz e força para “fomentar a refundação da Ordem, em vista de novos inícios, de uma nova vida”.

Narrar uma grande página de nossa história, escrita pelo Senhor através da vida e da atividade de um Irmão nosso, não será uma oportunidade de estimular-nos a escrever uma nova página da história, agora escrita por nós, movidos pelo mesmo Espírito que chamou Francisco, São João de Capistrano e que hoje nos chama a pôr-nos a serviço do Evangelho do Senhor nosso Jesus Cristo e de nossos irmãos?

Sim, esta foi a experiência que vivemos em Assis durante o Capítulo Geral Extraordinário em vista da celebração do VIII Centenário da Fundação de nossa Ordem. É nessa experiência que gostaria de me deter ao falar de São João de Capistrano. Não tenho a intenção nem a possibilidade de entrar em sua personalidade tão complexa, problemática e, ao mesmo tempo, fascinante. Não me proponho descrever sua intensa e variada atividade, que faz perder o fôlego, pois a literatura sobre isso é abundantíssima. Desejo somente destacar ou recordar como o Capistrano viveu a “regra e vida” que professara, e como, fiel a esse propósito, com a vida e a palavra, conseguiu marcar tão profundamente os acontecimentos mais relevantes da história da Igreja e da Europa de seu tempo.

Trata-se de fazer a memória de São João de Capistrano, não para encantar-nos diante de uma grande figura da família, mas para, em sua experiência evangélico-franciscana sugestões, descobrir indicações e desafios que qualifiquem evangelicamente nossa vida e missão, a fim de reapresentar com frescor o rosto fascinante de Francisco à Igreja e ao mundo de hoje.

De “maior” a “menor”
João de Capistrano foi penitente austero, grande reformador, conselheiro fino, legislador sábio, escritor fecundo, incansável pregador do Evangelho, defensor da Sé Apostólica e do Papado, homem de oração e de ação, apóstolo da Europa, convicto defensor dos direitos dos mais fracos, formador de consciências, incansável apóstolo da paz; foi aclamado como “stella Bohemorum”, “lux Germaniae”, “clara fax Hungariae” e “decus Polonorum”.

Mas qual é a chave de leitura de seu “sucesso” ou, para interpretar sua biografia, sua linguagem e sua ação? Juiz seguro e homem “político” muito apreciado, João conheceu a dureza do cárcere que, para ele, foi causa de uma profunda crise religiosa. Após uma tenaz luta interior e uma teimosa resistência à voz de São Francisco, que o convidava a entrar na Ordem, decidiu abandonar o mundo e seguir somente o Senhor, conforme confiou mais tarde a um amigo. A 4 de outubro de 1415 iniciou o noviciado em Monte Rípido, durante o qual caminhou de forma apaixonada pela estrada da minoridade, segundo o exemplo do Poverello de Assis, imagem eloqüente da kénosis de Cristo (cf. 2Fi 4ss). E o que acontece – pergunta-se São Francisco – a quem se expropriou de tudo para “oferecer-se nu nos braços do Crucificado”? O próprio Francisco responde: “Na verdade, sairia como um leão solto das cadeias, robusto para tudo, e a boa seiva que hauriu no início cresceria nele em contínuos progressos. E este finalmente seria nomeado para o ministério da palavra, porque derramaria do que estivesse fervendo” (2Cel 194,6-7). Logo o “leão solto e robusto para tudo” pôs seu fervor a serviço da Ordem e da Igreja.

É estimulante refletir sobre o itinerário da conversão de João de Capistrano no VIII Centenário do encontro de Francisco de Assis com o Crucifixo de São Damião. Este encontro deu início à ainda hoje fascinante aventura humana e cristã do Poverello; desencadeou as reflexões e as atividades da Ordem durante o ano de 2006; foi um ponto de referência essencial para o Capítulo geral extraordinário, há pouco concluído, para compreender o que o Senhor quer hoje de quem optou por seguir o Evangelho, segundo o propósito de vida vivido e proposto por São Francisco.

A Regra a serviço da Igreja

Ordenado sacerdote, João de Capistrano assumiu o seguinte compromisso: “Mesmo que não chegue à última responsabilidade, estou decidido a pôr, até o último suspiro de minha vida, todas as minhas forças em defesa do rebanho de Cristo”.

A paixão pelo “rebanho de Cristo” levou-o a ter uma devoção sem limites a quem tinha a principal responsabilidade pelo rebanho, o Papa, a serviço do qual pôs toda a sua vida e energias, como aparece numa de suas cartas-confissão a São Bernardino: “Sou um velho fraco, doentio... Não agüento mais... Mas se o Papa decidir de outra forma, não me recuso, mesmo que deva arrastar-me semimorto, ou tivesse de atravessar sebes de espinhos, fogo e água”. Também para viver como Frade menor tinha essa incondicional confiança no ministério petrino. Com efeito, nas Constituições Martinianas, São João de Capistrano recomendava aos Frades a obediência à Igreja, segundo a vontade de Francisco na Regra, como pôde recordar polemicamente a um confrade: “Parece que não queres que a Regra sirva à Igreja, mas a Igreja à Regra. Nosso seráfico Pai São Francisco, exatamente em sua Regra, afirma o contrário. Não é a Igreja que deriva de nossa Regra, mas a Regra da Igreja”.

Regressando aos “lugares” de nossa memória e de nossas origens para celebrar o Capítulo geral extraordinário, nós, Frades menores, quisemos renovar o compromisso de observar “o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo... estáveis na fé católica... e sempre submissos e sujeitos aos pés da santa Igreja” (RB 12,3; cf. Test 34; O Senhor nos fala na caminhadaSfc – 8.14). Com efeito, se é verdade que “Francisco é uma chave para compreender Pedro e a Igreja”, como disse Bento XVI ao Bispo de Assis e a mim na audiência que me concedeu a 26 de janeiro de 2006, é também verdade que a experiência evangélica de Francisco é compreensível a partir da acolhida a seu projeto de vida por parte da Igreja, enquanto dom do Espírito à Igreja e pela Igreja.

A vida a serviço do “rebanho de Cristo”
“Durmo duas horas e também uma só – dirá num sermão em Viena –. Mais do que pregar, agora gostaria de dormir, mas eu já não pertenço a mim, mas a vós”. Não pertencendo a si mesmo, mas ao “rebanho de Cristo”, João derramou todo o seu fervor no anúncio do Evangelho, não só na Itália, mas também além dos Alpes, chegando à Carinzia, à Áustria, à Hungria, à Transilvânia, à Polônia, à Turíngia, à Moravia, à Boêmia. O fervor de Capistrano foi entusiasticamente recompensado, pois os ouvintes de suas pregações eram tantos que o obrigaram a falar nas praças e nos campos. Não só isso. O povo queria vê-lo, tocá-lo, tomar pedaços de suas vestes e fazer-lhe pedidos de cura, embora ele lhes trouxesse as relíquias de São Bernardino, recentemente canonizado!

Assim, a pregação itinerante, característica dos franciscanos do século XIII e que entrou em crise no início de 1400, foi retomada por Bernardino de Sena e levada adiante por João de Capistrano, dando-lhe um caráter totalmente pessoal: não é só o momento do anúncio do Evangelho, mas também das confissões, da formação das consciências, da visita aos doentes. É sobretudo a ocasião da solução das discórdias e do restabelecimento da paz: “tractare pacem”, “pacem reformare”, “bonam pacem conficere” constitui o coração da pregação de Capistrano. Em breve, na atividade apostólica de João de Capistrano podemos ver realizado o que o Senhor pedia aos seus ao enviá-los a anunciar o reino de Deus (cf. Lc 9,1ss; 10,1ss).

Trata-se do mesmo zelo pela salvação dos irmãos do Poverello de Assis, que “não se julgava amigo de Cristo se não amasse as almas que Ele amou” (2Cel 172,4) e do mesmo “estilo”: obtida a aprovação do Papa, Francisco, “percorrendo as cidades e aldeias, começou a pregar por toda a parte” (LTC 54,1). Tal paixão pela salus animarum deve encher nossos corações e nosso caminhar, já que nossa razão de ser na igreja e no mundo é viver e proclamar a Boa Nova a todo o ser humano, sobretudo nos lugares de fronteira, preferindo a itinerância evangélica segundo a sensibilidade de Francisco e o testemunho de João de Capistrano. “Vós sois os frades do povo – exortou-nos João Paulo II em 1982 –, ide ao coração das massas... Ide ao encontro dos homens e das mulheres de nosso tempo”.

O laço entre nossa identidade e nosso agir – somos uma Fraternidade-em-missão –, continuamente recordado pelos recentes documentos da Ordem, exige também que nosso zelo pela salus animarum se concretize na forma franciscana de viver e de anunciar o Evangelho, como sinteticamente se diz no documento do Capítulo: ser e apresentar-se como “Irmãos menores de todo o homem e mulher, seguindo o estilo pelo qual Francisco envia seus Frades pelo mundo: “não façam rixas e disputas, mas sejam submissos a toda a humana criatura por amor de Deus”. Esse tipo de relacionamento, caracterizado pela minoridade em relação a toda a humana criatura, traz conseqüências para a nossa missão: entre os leigos, no relacionamento com a mulher, em nosso modo de viver na Igreja, no necessário diálogo inter-religioso, em nosso relacionamento com a criação, enfim, em toda a nossa missão como menores entre os menores da terra” (Sfc 30; cf. também 26-38.58).

Os estudos a serviço da renovação
João de Capistrano derramou o fervor que o consumia também em favor da Ordem, levando adiante com coragem e tenacidade a incisiva ação de renovação, juntos com os santos Bernardino de Sena, Tiago das Marcas e os bem-aventurados Alberto de Sarteano e Marcos Fantuzzi de Bolonha. A reforma da Ordem aconteceu pela promoção da fidelidade à Regra de São Francisco, como mostram as Constituições Eugenianas, elaboradas no Alverne em 1443, e o Comentário à Regra da São Francisco; também com a atualização do ideal de Francisco para responder aos numerosos e difíceis desafios apresentados, aos poucos, pelos acontecimentos eclesiais, políticos e sociais.

Porém, um forte estímulo a seu esforço de levar avante a renovação da Ordem foi a convicção de que os estudos, como “busca da sabedoria”, seriam um instrumento importante do Frade menor não só para dar dignidade e eficácia ao ministério, mas também como ponte para se encontrar com a cultura da época. Capistrano manifestou explicitamente tal convicção na Carta à Ordem, de 4 de fevereiro de 1444, sobre a “Necessidade de promover os estudos entre os Frades menores”. Em sua apaixonada peroração em favor dos estudos, na tentativa de quebrar a resistência dos Frades em relação aos estudos, João de Capistrano usa expressões muito fortes: “Ninguém é mensageiro de Deus se não anunciar a verdade; e não pode anunciar a verdade quem não a conhece; e não pode conhecê-la se não a tiver aprendido”. Os Frades, exorta o Santo, “devem encontrar o tempo para dedicar-se às letras e às ciências... para não tentar a Deus por uma vã presunção...”. Sem meios termos, declara: “Ó ignorância, mãe tola e cega de todos os erros...”. Distinguindo entre “ciência” e “abuso da ciência”, João de Capistrano afirma que a verdadeira ciência conduz à sabedoria, “que vem do alto e é... mãe de todo o bem e mestra de toda a verdade”.

Em vista da “refundação” de nossa Ordem, objetivo de nossa caminhada de preparação para as celebrações da graça das origens, as citadas expressões de Capistrano são de uma atualidade surpreendente. Não diz a mesma coisa, embora com outras palavras, o n. 12 do Documento do Capítulo geral extraordinário? Também para nossos dias é necessário recuperar nossas grandes tradições filosóficas, teológicas, místicas e artísticas de nosso patrimônio franciscano “como apoio para nossa missão de anunciar o Evangelho com as palavras e com as obras no coração da cultura contemporânea” (Sfc 13; cf. 12.56; O sabor da Palavra, Roma 2005).

Conclusão
O Capítulo geral extraordinário foi concluído em Assis a 1º de outubro de 2006, mas não nas Fraternidades provinciais e locais e na vida de cada Frade. Fica aberto, graças ao Documento O Senhor nos fala na caminhada, que continua a perguntar-nos: “Senhor, que queres que façamos?”, oferecendo-nos motivações e indicações para empreender novas caminhadas e para permanecermos fiéis à graça das origens.

Mas entre as origens e nós não existe o vazio: existem nomes, rostos, experiências, testemunhos que nos transmitem a fidelidade aos compromissos assumidos no dia da profissão de tantos de nossos Irmãs e Irmãs, que nos precederam.

Entre estes rostos está João de Capistrano que, no 550º aniversário de sua morte, nos apresenta sua santidade, sua fidelidade às origens e a seu tempo, seu amor pelo estudo, seu esforço pela paz e sua pregação itinerante como provocações para nós, que hoje, com lucidez e audácia, queremos servir ao Evangelho, segundo a forma vitae de Francisco de Assis, a fim de que, para nós e para todos, seja ainda Evangelho!

Roma, 8 de novembro de 2006.
Memória do bem-aventurado João Duns Scotus

Frei José Rodríguez Carballo, ofm



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