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Notícias

07/12/2006
Igualdade e Minoridade: o poder e seu exercício nos Escritos de São Francisco de Assis

" O maior poder, para o Santo, é o
poder de estar a serviço".

Por Frei Gustavo Medella
Curitiba (PR)
- Introdução
Na origem da Ordem dos Frades Menores está uma experiência fundamental de seu fundador, São Francisco de Assis. Desde os primeiros passos, movido por uma intuição de fé, o “Pobrezinho de Assis” buscou ardentemente viver o Evangelho de Jesus Cristo. A partir da proposta radical do santo, não tardou o surgimento dos primeiros companheiros. Junto com eles, a necessidade de organização, uma exigência necessariamente política, pois leva em consideração a lida com o poder e a busca do bem comum.

Este breve trabalho quer levantar alguns pontos de reflexão sobre o
ocular pelo qual São Francisco enxergava o poder e seu exercício na Ordem dos Frades Menores. Para tanto, em um primeiro momento, serão apresentados alguns dados biográficos. Em seguida, aspectos da compreensão de igualdade e minoridade em São Francisco e a sua conseqüente renúncia por todas as formas de poder. Em um último momento, serão trazidas algumas recomendações do santo acerca da maneira de se exercer os cargos.

Dados Biográficos
Francisco nasceu em Assis, no centro da Itália, em 1182. Seu pai, Pedro Bernardone, um rico comerciante que tinha o sonho de ser nobre. Desde jovem, Francisco se mostrou muito cortês e alegre. Era líder da juventude, apaixonado por festas. Com incentivo do pai, tentou lutar em duas guerras. Na primeira vez, ficou preso por mais de um ano. Na segunda, caiu doente e, a partir da inspiração divina, começou a repensar a própria existência.

Com 24 anos, renunciou a toda riqueza para assumir uma nova forma de vida, fundada no Santo Evangelho. No início da conversão viveu como eremita e na solidão. Neste período recebeu, diante do Crucifixo da igrejinha de São Damião, a ordem, pronunciada pelo Crucificado: “restaura minha igreja, que está em ruínas". Logo começaram a aparecer os primeiros companheiros para o seguimento de Cristo pobre, humilde e crucificado. Eram homens de profissões variadas. A união entre Francisco e seus companheiros deu origem à Ordem dos Frades Menores, oficializada em 1223, com aprovação da Regra Definitiva, também conhecida como Regra Bulada.

Na última etapa de sua vida, recebeu no monte Alverne os estigmas (chagas) de Cristo, em 1224. Enfraquecido e cego, morre no dia 4 de outubro de 1226, na Igreja de Nossa Senhora dos Anjos (Porciúncula), mesmo lugar onde surgiu a Ordem.

Igualdade, minoridade e renúncia pelas formas de poder
Dentre os escritos de São Francisco, o “Cântico das Criaturas” é um poema que traduz a posição assumida pelo santo diante do Criador e da criação. O vocativo inicial “Altíssimo, Onipotente, Bom Senhor” (Cnt 1) já transmite as idéias básicas dos valores presentes em todo o texto. O primeiro deles, a igualdade.

Diante de Deus, as diferenças entre os homens perdem a força. Como Deus é o Altíssimo, as diferenças humanas, vistas a partir d´Ele ou postas ao lado d´Ele, perdem todo o seu relevo. (...) A igualdade impõe-se assim como uma atitude teologal e uma característica constitutiva da fraternidade franciscana (AZEVEDO, 1984, p. 127).

Importante notar, desta forma, que a concepção franciscana de igualdade se diferencia da noção moderna de igualdade democrática. Enquanto uma (igualdade democrática) apresenta-se como um movimento a partir da elevação dos inferiores ao nível de quem está acima, na busca de um equilíbrio, para Francisco, a igualdade é uma atitude de humildade a partir de cima (Deus) que se estende a todos e pela qual todos se mantêm pequeninos (cf. idem, p. 128).

Esta compreensão em nada enfraquece o entendimento da dignidade e dos direitos básicos do ser humano. Ela se configura em um argumento a mais para o cultivo cuidadoso destes valores tão necessários à vida humana.

Outro valor percebido na abertura e em todo o “Cântico das Criaturas” é o da minoridade. Trata-se de um raciocínio lógico, que, como a igualdade, nasce da consciência da soberania divina: se Deus é o Altíssimo, todas as criaturas, diante d´Ele, são ínfimas. A concepção de minoridade inspirou inclusive o nome da instituição fundada for São Francisco: Ordem dos Frades Menores.

Igualmente aos dois aspectos apresentados anteriormente, a renúncia a todas as formas de poder também aparece como conseqüência da visão de São Francisco. “Não é uma reação escandalizada contra os abusos cometidos pelos poderosos de então, é uma atitude teologal” (idem, p. 131).

Diante destas considerações, passa-se a compreender todas as recomendações que São Francisco faz a seus irmãos acerca do exercício dos cargos e do poder na Ordem.

Recomendações de São Francisco sobre a compreensão e o exercício do poder
O rápido aumento do número de irmãos exigiu a adoção de certos procedimentos para a organização. Houve, desta forma, o surgimento das figuras dos ministros, custódios e guardiães, nomenclatura utilizada até hoje. Cabe ressaltar que São Francisco encarava a noção de poder obrigatoriamente ligada às idéias de serviço e cuidado. Quem exerce um
cargo, não deve dele se apropriar, conforme aparece nas Admoestações:

“Não vim para ser servido, mas para servir (cf. Mt 20,28), diz o Senhor. Aqueles que foram constituídos acima dos outros, se gloriem tanto deste ofício de prelado como se tivessem sido destinados para o ofício de lavar os pés dos irmãos. E se mais se perturbam por causa do ofício de prelado que lhes foi tirado que por causa do ofício de lavar os pés, tanto mais ajuntam para si bolsas para perigo da Alma (Adm 4, 1-4)”.

Conforme o trecho, percebe-se que a tônica do exercício do cargo não está atrelada a nenhum privilégio pessoal, mas sim na obrigação de servir aos irmãos. O desprendimento também é uma exigência. Quem exerce determinada função, não deve se apegar a ela e, caso lhe seja tirado o ofício, isto não deve ser motivo de perturbação.
No mesmo texto das Admoestações, São Francisco adverte seus frades a fim de que não se iludam ou se ensoberbeçam por elogios e aplausos no exercício de suas atividades.

“Bem-aventurado o servo que não se considera melhor quando é engrandecido e exaltado pelos homens do que quando é considerado insignificante, simples e desprezado, porque, quanto é o homem diante de Deus, tanto é e não mais. (...) E bem-aventurado o servo que não é colocado no alto por própria vontade e que sempre deseja estar sob os pés dos outros” (Adm 19, 1-3.4).

Considerando-se ínfimo diante do Altíssimo, o frade deve colocar-se por inteiro na dinâmica do serviço e não deve se iludir com as “glórias humanas”. A posição social, neste caso, torna-se secundária e a prioridade passa a ser, a partir do que prescreve São Francisco, a ocupação dos últimos lugares.

A idéia de não apropriação também aparece na Regra não Bulada. “E nenhum ministro ou pregador se aproprie do ministério dos irmãos ou do ofício da pregação, mas, em qualquer hora em que lhe for ordenado, sem qualquer objeção, deixe seu ofício” (RnB 17, 4).

Não obstante às recomendações de humildade no exercício dos ofícios e funções dos irmãos indicados para os mesmos, São Francisco exige, de toda a fraternidade, respeito e reverência aos prelados, conforme indica na Regra Bulada. “Todos os irmãos devem ter sempre um dos irmãos desta Religião como ministro geral e servo de toda a fraternidade e estejam firmemente obrigados a obedecer-lhe” (RB 8, 2).

Francisco adota, portanto, uma postura de cautela e equilíbrio diante do poder. Sabe que a organização é necessária para qualquer grupo humano, mas previne seus irmãos a fim de que não se deixem escravizar pelas estruturas.

Conclusão
Toda atitude de Francisco com relação a seus semelhantes e a todas as criaturas encontra sua motivação primeira em Deus. Sua atitude diante do Criador se refletia em todas as suas outras ações. Desta forma, não podia ser diferente a postura de São Francisco diante da questão do poder e seu exercício. O maior poder, para o Santo, é o poder de estar a serviço.

Siglas
Adm = Admoestações
Cnt = Cântico das Criaturas
RnB = Regra não Bulada
RB = Regra Bulada

Referências
AZEVEDO, David, OFM. São Francisco de Assis, fé e vida. Portugal/Braga: Ed.
Franciscana, 1984.
FONTES FRANCISCANAS E CLARIANAS. Petrópolis: Vozes, 2004.


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