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Provincia Fraternidades Carisma Sefras SAV Missões Multimidia
       São Paulo, 22/11/2008, 09:52          
 

Carta compromisso

Introdução
Nos dias 11 a 15 de fevereiro de 2008, em Manaus – AM, Brasil, estivemos reunidos no SEMINÁRIO DE EVANGELIZAÇÃO NA AMAZÔNIA 30 frades da Conferência Brasileira, um frade da Província de Santa Fé da Colômbia, um frade da Província do Santíssimo Nome de Jesus dos USA, mais o Secretário Geral para a Evangelização, o Moderador Geral para as Missões e um dos Definidores Gerais para a América Latina e Caribe, refletindo juntos acerca da realidade amazônica. O Seminário foi assessorado por antropólogos, teólogos, pastoralistas, missionários e historiadores.

O primeiro dia foi dedicado à acolhida dos participantes e abertura da programação. No segundo dia foi refletido sobre a visão global da Amazônia: desafios e possibilidades. No terceiro dia nos ocupamos com a visão eclesial e a visão franciscana a cerca da mesma realidade e no quarto dia partilhamos sobre modalidade, recursos e experiências em vista de um Projeto de presença franciscana missionária na região Amazônica.

1 – A importância da Amazônia para a Ordem dos Frades Menores

            a) Peculiaridades da Amazônia: riqueza natural. "A Amazônia é um dos maiores, diversos, complexos e ricos biomas do mundo. Vista a partir do cosmo, a Amazônia pan-americana ocupa uma área de 7,01 milhões de Km² e corresponde a 5% da superfície da terra, 40% da América do Sul, 59% do Brasil. Contém 20% da disponibilidade mundial de água doce não-congelada e 80% da água disponível no território brasileiro. Abriga 34% das reservas mundiais de florestas e uma gigantesca reserva de minérios. Sua diversidade biológica de ecossistemas, espécies e germoplasma é a mais intensa e rica do planeta: cerca de 30% de todas as espécies de fauna e flora do mundo encontram-se nesta região. O sistema fluvial Amazonas-Solimões-Ucayally representa o mais extenso rio do mundo, com 6.671 Km; a bacia hidrográfica do rio Amazonas é constituída por cerca de 1.100 rios, e o rio Amazonas joga no Oceano Atlântico entre 200 a 220 mil metros cúbicos de água por segundo, o que representa 15,5% de toda água doce que entra diariamente nos oceanos" (CF 2007, 15).

Riqueza humana e cultural: A Amazônia conta com uma população de 23 milhões de habitantes, entre os quais 165 são povos indígenas e 65 povos são não contactados. Além da rica biodiversidade, nela se encontra uma rica diversidade cultural, lingüística e religiosa. Em particular os povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas vivem em harmonia com a natureza e mostram que é possível conviver com a floresta e os rios sem a necessidade de mercantilização e devastação.

            b) Os desafios atuais: a Amazônia sofre os efeitos devastadores da lógica da mercantilização de todas as coisas. Ela desafia a recolocar a pessoa humana no “jardim”, a recuperar a sacralidade do cosmo e recriar as relações de reciprocidade e de fraternidade entre todas as criaturas. Os povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas carregam em si as sementes que nos ajudam a adquirir uma nova visão da vida.

A Amazônia é atualmente palco de no mínimo duas vertentes fundamentais de um novo colonialismo: o avanço do agronegócio, das mineradoras, das madeireiras e outros projetos de exploração que implicam numa ampla devastação e destruição das florestas, dos rios e das populações tradicionais; a privatização e apropriação de vastas áreas de florestas em vista do acúmulo de créditos de carbono e dos recursos genéticos, sendo que as populações ali existentes são pagas para conservar, porém lhes é tirada a condição de sujeito social (colonialismo verde). Junto se verifica o progressivo processo de privatização da água doce, uma rápida degradação do ambiente onde se localizam as principais nascentes dos grandes rios da bacia amazônica, a presença de rotas de tráfico de drogas, a invasão dos grupos econômicos com seus grandes projetos de exploração que forçam as populações a migrarem para os grandes centros urbanos, onde caem na miséria, na prostituição, nas drogas, etc.

            c) A presença franciscana: os frades menores estão presentes nesta região desde o século XVI. Ao longo deste tempo a presença franciscana se manteve praticamente ininterrupta. A partir dos inícios do século XIX, esta presença se diversificou e ampliou com a vinda dos frades capuchinhos, da TOR e das congregaçõesranciscanas femininas. Esta presença tem a característica de ser pouco numerosa e desarticulada entre si e predominantemente de missionários/as estrangeiros/as. A partir do século XX, a Igreja confiou grandes territórios de missão (Prelazias, Prefeituras e Vicariatos) aos franciscanos em seus diferentes ramos.      

            d) Lugar de missão franciscana: a Amazônia carrega em seu ventre sementes e paradigmas que significam o futuro do planeta e da humanidade. A sua imensa riqueza natural pode representar um ponto de equilíbrio no conjunto da nossa casa comum. A sua variada riqueza humana, cultural e religiosa pode contribuir para um novo estilo de vida em base à gratuidade, simplicidade, reciprocidade, dignidade, sacralidade, sentido da festa. Esta realidade nos desafia ao diálogo ecumênico, inter-religioso e inter-cultural.
           
Nós, a partir do carisma franciscano, podemos encontrar neste chão, condições favoráveis     para resgatar muito da vitalidade das nossas origens: a visão da sacralidade de toda a criação, as  relações de reciprocidade, de fraternidade, de não- apropriação das coisas e da terra, a austeridade, a itinerância e a mobilidade.

Por outro lado, somos desafiados a dar a nossa contribuição no que tange as realidades fundamentais: defesa e promoção da vida; valorização da diversidade cultural e aprendizagem dos processos de inculturação; acolhida da religiosidade popular; compromisso com a integridade da criação; sintonia e comunhão com a Igreja local na busca por encarnação na realidade e por uma evangelização libertadora. 

2 - Uma fraternidade missionária inter-provincial na Amazônia, com as seguintes orientações

2.1 - Opções Prioritárias

  1. Consciência de que nos cabe anunciar a boa nova do Reino. A fraternidade se organiza em torno da Palavra e da escuta obediente ao Evangelho de N. S. Jesus Cristo, guiada pelos critérios do mesmo e buscando encarná-lo com entusiasmo e paixão.
  2. Promoção da vida e defesa das culturas específicas: indígenas, quilombolas, ribeirinhos, populações periféricas, imigrantes e refugiados.
  3. Conhecimento, respeito e valorização da religiosidade popular, buscando o processo de inculturação do Evangelho.
  4. Sensibilidade e compromisso com o cuidado da criação (terra, água e a bio-diversidade).
  5. Sintonia e serviço junto a Igreja amazônica e abertura para as diferentes formas de colaboração com a Família Franciscana, a Conferência Religiosa, Conferência Episcopal, leigos e organismos sociais, através de redes missionárias e alianças.
  6. Reunião e divulgação de informações a nível de Conferência e Ordem, a respeito da realidade e da missão franciscana na Amazônia.

2.2 - Características de uma fraternidade em Missão na Amazônia

  1. Estilo de vida: uma fraternidade inserida e vivendo com simplicidade, austeridade, de forma orante e contemplativa; que valoriza o próprio trabalho para ajudar no auto-sustento; que busca garantir um ponto de referência mais estável e, ao mesmo tempo, favorecer a itinerância.
  2. Atuação: a fraternidade faz o discernimento em base às opções prioritárias já citadas, junto com o Ministro local e o de sua Entidade.

2.3 - Processo de preparação para a realização do projeto

  1. Que os responsáveis desta preparação sejam os Ministros Provinciais, assessorados pelo Secretariado Inter-proviancial de Evangelização e Missões, JPIC e a Entidade Franciscana local.
  2. Que sejam sensibilizadas as Entidades da OFM sobre a realidade e a necessidade da presença franciscana na Amazônia.
  3. Que se clareie o projeto e que seja aprovado e assumido pelos Ministros Provinciais.
  4. Que se definam os critérios para a escolha do lugar com a participação da Entidade local e da Fraternidade missionária.
  5. Que se quantifiquem no projeto os recursos humanos, financeiros e o tempo de permanência (no mínimo 3 anos).
  6. Que se observem as prioridades acima definidas e a devida orientação da Entidade local.
  7. Que os Ministros Provinciais nomeiem os frades dessa nova Fraternidade, segundo certos critérios: boa motivação missionária, boa capacidade de vida fraterna, convicção sobre este projeto, valorização de dons e carismas pessoais.
  8. Que se definam as formas de sustento, sendo que a própria fraternidade também se empenhe para isso.
  9. Que haja um Ministro responsável para o acompanhamento da Fraternidade, de preferência o Ministro local.
  10. Que a Fraternidade passe por um processo de preparação próxima:

            - para um período de convivência entre os frades nomeados em vista do mútuo conhecimento, comunhão e diálogo             fraterno;
            - para um contato direto com a realidade amazônica, com a Igreja e a Entidade Franciscana local;
            - para a definição precisa do projeto (presença e atuação).  

  1. Que se definam os prazos para a formação da equipe e início da Fraternidade.

3 - Propostas para a presença franciscana já existente

  1. Melhorar a comunicação e a colaboração entre as Fraternidades presentes na Amazônia.
  2. Avaliar a presença missionária em Roraima, junto aos povos Tiriyó e Munduruku.
  3. Promover um maior comprometimento dos Provinciais no envio de frades e recursos.

4 - Propostas para as Entidades da América e da Ordem

  1. Comemorar, em 2009, os 800 anos do carisma franciscano, com um gesto concreto: as Entidades da Conferência Brasileira enviem frades para a missão na Amazônia e recursos para a sua manutenção, buscando a colaboração das Entidades da Conferência Bolivariana.
  2. Que a nova Fraternidade acolha frades para experiência missionária como também frades em formação inicial, para estágios formativos.
  3. Produzir material (DVD, subsídios diversos...) sobre a missão franciscana e a realidade da Amazônia, em vários idiomas, para fins de divulgação e tomada de consciência na Família Franciscana e outros âmbitos.
  4. Promover pesquisas e estudos sobre a realidade amazônica com as instituições de formação e ensino da Ordem, organizações leigas e congregações.  

Conclusão
Iluminados pelo Espírito do Senhor, inspirados pelo carisma franciscano e obedientes aos documentos da Igreja (Documento de Aparecida) e da Igreja da Amazônia (Documento “Discípulos Missionários na Amazônia”), sob a proteção de Nossa Senhora da Amazônia e sensibilizados pelos clamores dos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, populações das periferias, imigrantes e refugiados, reafirmamos o nosso compromisso com a missão neste chão.
Quem nos convoca é o próprio Deus Trindade. Nossa resposta de frades menores, à luz dos sinais dos tempos, a serviço do Reino de Deus, é a de sermos fiéis discípulos e missionários de Jesus Cristo e fiéis a S. Francisco e seu/nosso carisma. Também, pedimos à Mãe de Deus que zele por todos os povos da Amazônia. Ela, que é a estrela da evangelização, guie os nossos passos no caminho do Reino: Mãe Nossa, protegei a família brasileira e latino-americana e ajudai-nos a fazer tudo o que o vosso Filho nos disser. Amém!

Manaus, 15 de fevereiro de 2008


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