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Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) propôs para a Campanha da Fraternidade de 2008, o tema "Fraternidade e Defesa da Vida";
e o lema "Escolhe, pois, a vida". No texto-base da CNBB, justifica-se a proposta dessa reflexão em vista das ameaças e agressões constantes à vida, desde o instante de sua concepção até sua morte natural. E qualquer agressão à vida é agressão a Deus, pois, à luz da tradição judaico-cristã explica-se a vida in tempore como criação de Deus-Pai pelo seu Verbo, que é o Filho, e pelo seu Amor, que é o Espírito Santo.
Na presente reflexão, pretende-se primeiramente enfatizar a temporalidade de todas as criaturas. Tudo o que é temporal é essencialmente
transitório, mutável, corruptível, passageiro. Numa palavra, tudo o que é no tempo é mortal. A mortalidade é inerente à condição de criatura. Tudo vive, mas também chega o momento em que tudo começa a envelhecer e, por fim, morre. Inclusive o ser humano é mortal. Conforme atesta Santo Agostinho em "A Cidade de Deus" (Livro XIII), desde o instante em que começamos a existir neste corpo mortal, jamais deixamos de tender para a morte. De fato, todos estamos mais próximos da morte depois de um ano que antes dele, hoje mais do que ontem, agora mais do que antes, porque o tempo vivido é retirado do que se deve viver e dia-a-dia diminui o que resta. Esta idéia da progressiva sujeição da vida à morte, desde o nosso nascimento, é bem acentuada no âmbito da teologia contemporânea por Leonardo Boff.
Nesta perspectiva de abordagem sobressai a obra "Vida para Além da Morte", em que se explicita muito bem que ao longo da vida estamos sempre nos despedindo. Primeiramente nos despedimos do ventre materno, depois nos despedimos da infância, da juventude, da escola, da casa paterna, de cada momento que passa e, finalmente, nos despedimos da própria vida.
Todavia, à medida que a alma humana conscientiza-se de sua mortalidade, surpreende-se enlevada por um inelutável e indestrutível desejo
de imortalidade. O ser humano mortal foi criado com um desejo de vida e de felicidade que ultrapassa as fronteiras da morte biológica. Isto significa que o ser humano não é só carne mortal, mas é carne (corpo) e alma espiritual. O desejo natural de vida sem limites é inerente à alma espiritual e é prova contundente de sua imortalidade. Parafraseando Santo Agostinho, o corpo humano é habitado por uma alma que, de algum modo, abriga o Eterno que a faz participar mais intensamente da natureza eterna de Deus. O homem naturalmente clama para durar perpetuamente, e, segundo Tomás de Aquino ("Summa Contra Gentiles", II, c.79), é impossível que uma tal tendência seja vã.
Por conseguinte, nem mesmo a morte pode frustrar nosso desejo de imortalidade. A morte é condição de perpetuação da vida. Sem a morte não há
vida, ou melhor, viver é constantemente morrer para viver uma vida nova, mais rica e abundante. Assim como o que se semeia não nasce sem antes morrer, não há ressurreição sem morte: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica só, mas se morrer, produz muito fruto (Jo 12,24).
Contudo, especialmente depois de E. Kant (século XVIII), não são poucos os que negam sistematicamente qualquer possibilidade de vida ultra-terrena. Para o filósofo M. Heidegger, por exemplo, o homem é um ser para a morte. Ele mal começa a existir e já está lançado nessa possibilidade, além da qual não há nenhuma outra possibilidade. E não é de admirar que a redução do mistério da vida e da existência humana à dimensão biológica e temporal leve a civilização ocidental a uma crise de sentido religioso da vida. A percepção racionalista e mecanicista (cartesiana) que o homem tem de si mesmo e do universo, que ainda insiste em predominar no Ocidente, torna, de fato, a existência humana uma paixão inútil (J. P. Sartre).
O ser humano foi criado para a imortalidade (Cf. Sb 2,23-24). Porém, ao querer a imortalidade, não se deseja apenas que a vida terrestre se perpetue para além da morte. O ser humano anseia por vida em plenitude. Por vida em plenitude entende-se a realização das nossas mais profundas e elevadas aspirações de liberdade plena, de paz e de felicidade sem limites. No horizonte da fé cristã denomina-se esse estado de vida perfeita de ressurreição.
No núcleo da vida cristã está a firme convicção de que Jesus ressuscitou. O cristão acredita piamente que a vida de Jesus, caracterizada pelo amor e fidelidade ao projeto de Deus até a morte, não foi tragada pela morte, mas que a morte foi tragada pela vitória de Cristo (1Cor 15,55). Essa fé funda-se nas reais aparições do Ressuscitado aos discípulos, após a crucificação. As diversas aparições de Jesus durante muitos dias (At 13,31) suscitaram a fé dos apóstolos e pela fé superaram o terror inicial provocado pelas misteriosas aparições. Por conseguinte, a ressurreição de Jesus não está submetida à fé subjetiva dos apóstolos, mas às aparições objetivas de Jesus transfigurado. Por isso nós somos mais felizes porque cremos na ressurreição de Jesus sem termos visto e tocado o seu corpo ressuscitado.
A vida, para o cristão, não é passageira ilusão, mas caminho de ressurreição. A ressurreição não se opõe à vida terrena, mas é um processo de vida que necessariamente tem início aqui na terra. Já aqui na terra, por graça de Jesus Cristo, Deus nos projetou para sermos seus filhos, participantes da sua vida e da sua glória. E para realizar essa vocação santa requer-se escutar a voz do seu Filho predileto (Mt 17,5) e carregar a cruz com Ele: Se alguém me quiser seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e me siga (Mt 16,24). A cruz de Jesus Cristo é também nosso caminho à glória da ressurreição e não há realização plena do humano fora do caminho da doação irrestrita de sua própria vida. E em cada gesto concreto de amor antecipa-se, de algum modo, a glória da ressurreição. Segundo declara L. Boff, sempre que na vida mortal triunfar a bondade sobre os instintos de ódio, sempre que um coração se abre a outro coração, sempre que se constrói uma atitude justa e se cria espaço para Deus, aí se vai instaurando a ressurreição ("Ética e eco-espiritualidade", p.112).
À luz da Sagrada Escritura pode-se afirmar que Deus não só criou a alma, mas também o corpo humano à imagem e semelhança do seu dileto Filho. O corpo e a alma espiritual formam uma unidade indissolúvel. Por isso,chegará o instante em que, num abrir e fechar de olhos seremos total e integralmente transformados em novas criaturas. Como a alma, também o corpo é revestido de espiritualidade, incorruptibilidade e imortalidade. Nas palavras do apóstolo Paulo, é preciso que este corpo corruptível se revista de incorrupção e que este ser mortal se revista de imortalidade (1Cor 15,53). Deve-se, pois, considerar o homem como uma totalidade integrada: corpo, alma e espírito, não separando o que o próprio Deus uniu.
O ser humano todo e todos os seres do universo clamam por vida em plenitude. Pois, tudo é criado e mantido na existência pela íntima presença do sopro (espírito) criativo de Deus que enche a terra e que reúne tudo (Sb 1,7; Is 34,16). No Livro de Jó é dito: Se Deus decidisse por sua conta retirar o espírito e o alento, expiraria toda a carne no mesmo instante e o homem voltaria a ser pó (Jó 34,15). Cada criatura do universo (toda a carne) sai das mãos do Criador, é sustentada na existência pelo seu sopro de vida e anseia por participar eternamente da gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Como diz Paulo, toda a criação geme e sente como que dores de parto (Rm 8,22), aguardando o cumprimento da promessa de Deus: Eis que faço novas todas as coisas (Ap 21,5).
Enfim, Deus é o senhor da vida e da morte de todos os seres do universo. O homem e a mulher, criados à imagem de Deus, receberam a
incumbência de pastorear todas as formas de vida na Terra. A vida, por si mesma, desde a mais inanimada, é digna de respeito, cuidado e veneração. E aos que efetivamente crêem em Jesus Cristo ressuscitado, a morte torna-se o momento mais sublime da vida. Evoca-se aqui a experiência de São Francisco. Ele viveu tão radicalmente o Evangelho da vida de Jesus que não aceitou a morte resignadamente, mas como passagem necessária para um novo e definitivo nascimento em Deus. Transbordando de gratidão pela vida, totalmente despido e colado à mãe Terra, abraça a morte como sua diletíssima irmã: Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar ("Cântico do Irmão Sol").
Frei João Mannes, OFM, é Doutor em Filosofia e leciona no Instituto de Filosofia São Boaventura, em Curitiba (PR)
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